segunda-feira, 10 de maio de 2010

Qualidade da donzela - A bondade

Qualidade da donzela


A bondade

a) Sua natureza

Ei-la explicada por dois grandes corações:

"A bondade, diz Lacordaire, é essa virtude que não consulta o interesse, que não espera pela ordem do dever, que não precisa ser solicitada, mas que se curva tanto mais para um objeto quanto mais pobre, mais miserável e mais abandonado ele é. Na bondade, além do dom de si mesmo, há uma maneira de se dar, um encanto que disfarça o benefício, uma transparência que permite ver o coração e amá-lo, um não sei que de simples, de doce, de amável, que atrai o homem todo e que ao próprio espetáculo do gênio prefere o espetáculo da bondade. A bondade é o que mais se assemelha a Deus e o que mais desarma os homens."

"A bondade, diz o Padre Faber, é o transbordamento de si nos outros; pode-se ser caridoso, compassivo, dedicado, sem ter esse perfume de amabilidade e de delicadeza que constitui a bondade."

É tão belo ser bom! O simples termo já é uma alegria, uma luz. Isso repousa, acalma a alma e lança o coração na alegria e no devotamento.

A bondade é um bálsamo que cura e um perfume que deleita. É a virtude sorridente e suave, que se exala da alma e atrai para ela. É tão bom saber que a gente pode aproximar-se de alguém sem receio, e, ao contrário, seria tão duro ter de se perguntar como se abeirar dele!

b) Frutos que ela proporciona

Uma flor tão bela deve produzir frutos saborosos.

Quereis ser feliz? Sede boa! - Joubert diz: "A felicidade é sentir a própria alma boa." Quando a gente se dá, e quando consigo dá felicidade aos outros, como ser infeliz?

Quereis ser amada? Sede boa! - O coração que se abre, a alma que se oferece, o rosto onde se lê a bondade chamam o amor. Têm como que um imã que atrai a eles os corações encantados.

Quereis fazer o bem? Sede boa! - A ciência é fria, a virtude pode ser austera, mas a bondade subjuga os corações e condú-los a Deus. Se sonhais ser apóstola, começai por ser boa, e fareis uma bela colheita de almas. Quando o coração é ganho, a alma não está longe de capitular.

Muitos poucos apóstolos tiveram, no seu ministério, êxitos tão grandes como o doce bispo de Genebra. O que atraía nele era a sua bondade. E eis aqui a maneira como ele praticava essa virtude:

"Eu recebia cada um com semblante gracioso, escutava a todos tão tranquilamente, por tanto tempo quanto cada um queria, como se só isso tivesse a fazer. Fazia-me dobrável aos outros, procurando, não fazer os outros irem a mim, mas sim eu mesmo ir aos outros. Em toda a minha vida, só uma vez me zanguei, e disso me arrependo sempre. Meu Deus! se há que pecar em algum excesso, seja um excesso de doçura. - Depois, tenho o coração feito como as árvores que dão o bálsamo: quanto mais as dilaceram, tanto mais elas dão o seu perfume; quanto mais me afligiam, tanto mais eu amava. Doce e suavemente, estas duas palavras quisera eu fossem inscritas em todos os meus atos e em todas as minhas palavras. Pouco e bom, pouco e doce, pouco e constantemente, eu nada mais exigia, nem de mim, nem dos outros."

c) Caracteres da bondade

Esta virtude supõe uma multidão de outras que lhe fazem um cortejo régio;

1 - A bondade é doce.
Um pessoa boa tem a acolhida encantadora, o semblante aberto, um perpétuo sorriso e palavras atraentes. Com ela a gente está à vontade; exala-se dela um não sei que que agrada e que encanta.

2 - A bondade é humilde.
Para ser bom é preciso saber quebrar a própria natureza, o amor-próprio, sair de si mesmo e esquecer-se de si. A alma em que floresce essa virtude soube vencer-se a si mesma! Após esta bela vitória, compreende-se o poder e a influência que ela pode ter sobre os outros.

3 - A bondade é indulgente.
O coração bom está sempre pronto a desculpar os outros, a perdoar, a prodigalizar a todos os eflúvios da sua misericórdia.

4 - A bondade é engenhosa.
Como o diz um pio autor: "Ela adivinha o que pode dar prazer ou pesar; compreende o que convém dizer, o que convém fazer; dissimula as faltas ou tenta repará-las; suporta os defeitos que são incuráveis, e nem sequer aparenta percebê-los."

5 - A bondade é compassiva.
Ela faz facilmente sua esta palavra de um filósofo: "Vivei para os outros." Vê ou adivinha as dores alheias; sabe escutar-lhes as queixas, chorar com os que choram, numa palavra, sabe "compadecer-se".

6 - A bondade é alegre.
A alma boa está sempre alegre. Tem esse sorriso particular que às vezes adivinhamos ser heróico. É a alegria por dever. Tem como que duas estrelas nos olhos. Faz sempre sol na sua fronte. Por onde quer que ela passe, deixa um raio de luz, um aroma; é como que o sorriso de Deus.

Enfim, se quisermos olhar mais de perto nisto, a alma verdadeiramente boa, sempre boa, boa com todos, já entrou muito avante na trilha da perfeição. O que fazia o Padre Faber dizer: "Uma pessoa sempre boa é santa ou virá a sê-lo em breve."

d) Prática da bondade

"Quando Deus criou o coração do homem, pôs nele primeiro a bondade", diz Bossuet.

A bondade é, pois a primavera e mais tocante manifestação de Deus na alma humana, que Ele quis criar à Sua imagem e semelhança. Deus, que pôs no nosso coração a bondade, também não Se chama "o bom Deus"? Este apelativo familiar e sublime, que sai do coração do homem, da criança, do velho, deve impressionar sobretudo a vós, donzela cristã, a quem Ele deu uma delicadeza mais profunda, um coração mais terno e mais propenso que outros a comover-se.

A Escritura tem uma palavra muito agradável: "Onde quer que não haja mulher, ouve-se o gemido do pobre!" Vós tendes uma propensão toda natural para ser boa; não é o coração que domina em vós? A vossa bondade tem como que "antenas de uma sensibilidade requintada, que vibram à vizinhança da dor". Já que esta virtude vos é tão natural, desenvolvei-a em vós. Ela será a medida da vossa força e do poder que podereis exercer. Eis aqui como devereis pô-la em prática:

1 - Sede boa nos pensamentos.
Todo ato traduz uma idéia, é a realização dele. Para fazer o bem, é preciso primeiro tê-lo previsto. Deveis, pois, ter pensamento de bondade para com todos, e, com este fito, aplicar-vos a pensar nos outros. Isto é mais difícil do que se pensaria à primeira vista, porque a maior parte dos nossos pensamentos convergem instintivamente para o nosso "eu".

2 - Sede boa nas palavras.
É tão doce, tão confortador ouvir uma palavra saída do coração! Às vezes basta uma palavra doce, amistosa, para curar um coração ferido, para reanimar uma alma desfalecente. As boas palavras são como anjinhos de caridade, mensageiros celestes, que vão de uma alma à outra para animar, curar, consolar, arrastar para o bem. Uma boa palavra pode converter uma alma.

Oh! se se soubesse o poder que tem uma pessoa quando possui um bom coração e o faz passar às suas relações diárias com aqueles que lhe vivem perto!...

Cumpre também evitar fazer espírito à custa dos outros. "Se tendes espírito, diz Luís Veuillot, tomais cuidado com ele; se não o tendes, não pretendais tê-lo." O espirituoso gane, remexe-se, mordica, se enfuna!... E, resultado: fere, e às vezes também mata! porque certas línguas são talhadas "como navalha aguda". (Sl 50,1-4). Cortam, retalham, e matam o próximo na sua reputação. O espírito é um foguete que brilha, mas que não pode nem iluminar as almas nem aquecer os corações.

3 - Finalmente, sede boa nas ações.
É a cada instante do dia, com todos, seja qual for o vosso estado da alma, que a vossa bondade deve irradiar à volta de vós.

Semeai alegria, tende o sorriso franco e límpido da alma pura e amante, servi-vos de vossas mãos para ajudar os outros, da vossa palavra para ampará-los, do vosso espírito para esclarecê-los, dos vossos bens, se os tiverdes, para os socorrer, da vossa influência para os proteger, do vosso coração, enfim, para os amar.

Cultivai, pois, menina, essa virtude da bondade. Por ela é que sereis grande. Ela é que vos ganhará o coração do próximo e o de Deus.

(A formação da donzela, do Pe. J. Baeteman)

PS: Grifos meus.