sábado, 24 de abril de 2010

O meio da educação moral - (Segunda Parte)

O meio da educação moral 
(Segunda Parte)


Capítulo II
O objeto do bom exemplo

Qual é o objeto do bom exemplo?
Tudo o que, no santuário do lar, é susceptível de produzir uma boa ou má impressão na criança.
O lar deve ser respeitado (art. I).
O lar deve ser ornado (art. II).
Os pais devem exercer no lar o seu ministério de formação e de santificação (art. III).

Artigo I. - O lar respeitado

"Oh! quantas vezes a casa paterna é fatal à inocência!" (Depoisier, Da Educação, p.4)

Que hão de fazer os pais para apresentar a seus filhos um lar respeitado?
1º - Hão-de suprimir tudo o que ofenda a moral.
2º - Hão-de proibir a entrada, em casa, de livros, revistar e jornais que possam ser um perigo para a fé ou para a virtude das crianças.
3º - Hão-de evitar os falsos amigos. (Veja-se o que dissemos no capítulo dos contra-educadores).

1º - A supressão de tudo o que ofenda a moral

Quais são os objetos dos quais se pode dizer que ofendem a moral?
É uma estátua, que ostenta a sua nudez na escadaria, no vestíbulo ou na sala de espera.
É uma estatueta indecente que sobressai na estante dos pequeninos objetos de arte, sobre o piano ou em qualquer outro lugar.
É um quadro alegórico ou mitológico, que representa alguma infâmia dos tempos antigos, ou alguma nudez com pretensões artísticas.

Que pretextos se opõem, em geral, à sua desaparição?
- O pretexto da arte: vede, este quadro tem um nome; e, depois que expressão, que colorido, que beleza de conjunto!
- O pretexto do valor: Ah! se esta figurinha fosse de simples cartão ou de gesso, havia de me desfazer dela facilmente! Mas é um belo marfim, um bronze de lei ou ácer antigo!
- O pretexto da lembrança: É um presente, uma oferta, a que anda ligada uma glória ou um momento de felicidade.

Há algum pretexto que possa ou que deva prevalecer á superior consideração do bom exemplo?
Não, mil vezes não. Por isso, esses objetos, qualquer que seja a sua origem, devem desaparecer para sempre. Não vedes, pais imprudentes, que os vossos filhos, quando já crescidos, vos hão de fazer, a respeito desses objetos, algumas perguntas embaraçosas ou alguma reflexão indiscreta? E não compreendeis que há regras de prudência, que não se podem infringir impunemente?! Depois, talvez já seja demasiado tarde.” (Nicolay)

"As obras primas valerão, por acaso, todas elas a pureza de uma criança?" (Depoisier, ob. cit., p. 30)

No entanto, não verá a criança, nas ruas, nas praças, nos jardins públicos, estátuas ou quadros semelhantes àqueles que, segundo dizemos, se devem proscrever no lar?
Sem dúvida.

Mas a mãe, neste caso: - não terá que se arrepender de ser a causa das impressões desagradáveis produzidas no espírito ou no coração da criança; - poderá, sem remorsos, responder cristãmente às confidências que lhe fazem ou às perguntas que lhe dirigem.

2º - A proibição dos jornais e dos livros perigosos.

A literatura desviou-se do seu caminho. Abjurou a honestidade. Deixou de ser um guia seguro que vos possa conduzir ao templo do belo”. (Depoisier, ob. cit., p 27)

Quais são os jornais e os livros que se devem eliminar?
Todos aqueles que, duma maneira ou de outra, de perto ou de longe, direta ou indiretamente, possam ocasionar algum perigo à fé ou à virtude das crianças.

Pais e mães, vós não gostais das coisas indecentes, bem eu sei, mas não sois inimigos dum certo chiste. Acautelai-vos! Vós tendes filhos!
Esta obra está bem escrita, concordo, mas é perigosa. Acautelai-vos! Vós tendes filhos!

E a revista é muito humorística, interessa-vos, mas o espírito que a anima forma-se à custa das pessoas e das coisas religiosas. Acautelai-vos, porque tendes filhos!

Não se fazem objeções a estes deveres de prudência?
- As crianças não lêem, diz-se. – Elas hão de ler.
- As crianças não prestam atenção. – Tomam sentido em tudo.

- Não há mal, pelo único fato de esses jornais serem conhecidos como órgãos de oposição à Igreja e à religião; a sua presença numa casa de família, onde há crianças pequenas ou grandes, é um escândalo permanente.

- Está tudo bem guardado – Que ingenuidade!
Já li tudo, há muito tempo, dizia uma pequena de dezesseis anos, falando de livros... avançados que havia na biblioteca paterna, sempre fechada à chave....

Artigo II- O lar ornado

Como deve ser ornado o lar?

Devem expor-se à vista da criança os objetos mais próprios à elevação dos pensamentos e formação do coração:

- Imagens de piedade;
- Quadros morais e patrióticos;
- Livros e jornais católicos.

1º-  Imagens de piedade

Quais devem ser, sob o ponto de vista da educação, os primeiros ornamentos da casa?
O crucifixo deve estar colocado nos lugares mais freqüentados da casa... Pelo menos, na sala onde se reúnem com mais freqüência, deve haver algumas imagens bem escolhidas: um exemplo, da Santíssima Virgem, de São José, da Sagrada Família ou dos santos padroeiros.

Que precauções se devem tomara respeito das imagens religiosas?
- É preciso escolher imagens perfeitas e rejeitar, sem piedade, essas representações grotescas, ridículas, deformadas por gosto, e que se multiplicam sob pretexto de boa venda ou com um destino particular: "Isto é para crianças!" costuma dizer-se.
Muitas vezes, perguntamos a nós mesmos se certas estátuas e certas imagens não foram postas em circulação pelo diabo com maléfica intenção sobrenatural.

"Há fábricas de santos, como há fábricas de brinquedos e de bonecas, com a diferença de que uma boneca é feita com mais esmêro que uma estátua religiosa" (Depoisier, Da Educação, p. 77)

2º - É preciso ser piedosa

Se lhes faltam a inspiração religiosa, é necessário que, ao menos, guardem o respeito das conveniências, e que não dêem, aos santos e as santas, atitudes que no-las façam repudiar com horror!

"Já vistes, por exemplo, numa oficina dum pintor, uma Santa Cecília? É uma mulher qualquer, sempre bela, bem entendido; passeia os dedos sobre as cordas duma harpa, duma lira, talvez duma guitarra, ou sobre o teclado dum piano; a boca entreaberta, os olhos levantados para o céu e a cabeça circundada duma auréola dão-lhe um ar inspirado (porque a auréola é, para o artista, o sinal inevitável da santidade). E o pintor vos dirá com o ar mais grave deste mundo:
- Aqui está a Santa Cecília que deseja.

- Mas, observareis, Santa Cecilia andava, com certeza, menos decotada. É provável que nunca expussesse à vista as espáduas nuas e alvas, como agora vejo.

- Tenho a certeza, replicará o pintor, de que é uma santa Cecília. Ninguém o sabe melhor do que eu, porque fui eu mesmo que a fiz.

Que se há-de responder? Inclinarmo-nos e fingirmos que acreditamos, se assim o entendermos."
(Depoisier, ob. cit, p 79-80)

2º - Os quadros morais e patrióticos.

Que se deve entender por quadros morais e patrióticos?
É preciso compreender que tudo o que se apresenta aos olhos da criança (estátuas, imagens, gravuras, quadros, cromos, etc.) deve ter o cunho de nobreza, de grandeza, de beleza; deve pretender servir de ilustração aos conselhos do pai e da mãe, e gravar-se na memória da criança como uma recordação digna de estima e um incentivo de virtude.

3º - Os livros e os jornais católicos

A questão dos livros e dos jornais é assim tão importante?
Sim, mais do que geralmente se pensa. Se há tantos católicos anemicos e ilógicos, é porque não iluminam o seu espírito com a verdadeira luz; porque não aquecem o coração a uma chama santa; porque não alimentam a alma com o pão da vida.

Artigo III – Os pais, ministros de formação e de santificação, no lar respeitado e ornado.

O pai de família desempenha no seu lar uma missão sacerdotal, e até, em certo modo, episcopal
(Santo Agostinho, Tratado LI, in Joan, nº 13)

Que idéia devem formar os pais da sua missão no lar?
- Os pais devem ter o bom perfume de Jesus Cristo, para encaminhar tudo para Deus.
- Devem esforçar-se por traduzir o pensamento dum Doutor da Igreja:
Cristo em flor: Christi florentes
- Os pais devem ser como padres.

O Príncipe dos apóstolos ensina que os cristãos – e Santo Agostinho explica-o particularmente aos pais de família – devem exercer no lar a missão de sacrificadores espirituais. Diz que são revestidos por Deus duma misteriosa dignidade, que lhes dá os direitos e lhes impõe os deveres dum ministério sagrado; que Deus numa palavra, os elevou a um sacerdócio real, e que, fazendo-os como reis, também os fez como padres nas suas famílias, para oferecerem hóstias espirituais, isto é, sacrifícios de adoração, de louvor, de oração e de boas obras.”
(Mgr. Dupanloup, Da Educação, t. II, 141)

Sim, os pais e as mães, conscientes das suas responsabilidades em matéria de educação, devem conduzir-se, com seus filhos, quase como o padre se conduz no altar; devem ter, em todos os seus passos e em todas as suas palavras, a mesma gravidade religiosa, a mesma reserva santa, o mesmo respeito sobrenatural.

Não são os seus filhos cibórios viventes, cálices que contêm Deus?
A delicadeza da sua alma e da sua consciência não merecem atenções celestiais?

Quais são as principais funções deste ministério?
- A união.
- O respeito pelos progenitores.
- A circunspecção na linguagem.
- A dignidade no porte.
5º- A fidelidade ás práticas religiosas.

Para a união conjugal, veja-se o que dissemos no livro primeiro.

1º - O respeito pelos progenitores é muito difícil?

Nunca o será para quem tem a fé que obriga a observar o quarto mandamento, até à delicadeza das virtudes que esse mandamento impõe; se não se perde de vista que as idéias variam com os anos; se não se esquece nunca que os membros vão enfraquecendo com a idade.

Refletindo nisto, ninguém censurará os progenitores pelas suas opiniões, nem pela sua maneira de ver, nem pela sua incapacidade.

Deve ligar-se uma grande importância a este dever?
Se as crianças virem que o “avôzinho” e a “avózinha” são tratados com carinho e afetuoso respeito:
- Serão conhecedores dos seus deveres;
- Reprimirão imediatamente a vontade de rir dos tiques, das manias, da fraqueza próprios das pessoas de idade avançada;
- A observação destes deveres dar-lhe-á uma verdadeira lição de piedade filial, de que mais tarde se recordarão para consolo dos seus pais.

2º - A circunspecção da linguagem.

De quantos modos se pode dar o mau exemplo da linguagem?
De três modos:

- Quando alguém se deixa levar a um estado que obriga quase fatalmente a proferir palavras inconvenientes.
- Quando se fala incorretamente.
- Quando se dizem coisas perniciosas.

Quando é que uma pessoa se expõe a soltar palavras inconvenientes, pelo estado em que se coloca?
Quando se deixa perturbar pelo excesso da bebida ou impelir pela cólera.
Quantas vezes, nestes momentos de loucura passageira, empregam expressões triviais, grosseiras, blasfematórias, de que são responsáveis, pelo menos em princípio, e que produzem na moral das crianças efeitos desastrosos!

Neste caso, o mau exemplo é dobrado: há o mau exemplo da embriaguez ou da cólera, e o das palavras que merecem reprovação.

Quando se fala incorretamente?
- Quando se empregam expressões defeituosas.
Um velho gramático afirmava que, notando bem, dentre vinte pessoas, tomadas ao acaso na sociedade média, dezessete empregavam correntemente expressões viciosas” (Nicolay, ob, cit, p. 167)
E assim as crianças falam incorretamente, por vezes, toda a sua vida.

- Quando se pronuncia mal.
As crianças habituam-se a defeitos de que dificilmente se corrigirão.

Quando se dizem coisas perniciosas?
- Quando se empregam expressões de mau gosto.
- Quando se exprimem idéias que raiam pela imoralidade, ou críticas contra a religião.
- Quando se dizem, arrebatadamente, coisas que as crianças tomam ao pé da letra, quando há necessidade de serem compreendidas, como nós a compreendemos, para não serem prejudiciais.

Qual é o perigo das expressões de mau gosto?
A criança apanha, retém e repete as palavras chulas, as expressões baixas mais depressa e melhor que quaisquer outras.
O pai cultiva mais ou menos o “calão do carroceiro”, a “gíria do apache”, a “gíria do garoto de Paris”... às vezes, dominado pela irritação, a proferir expressões obscenas.

Que se deve pensar daqueles que propagam idéias imorais ou críticas contra a religião e a Igreja?
É desses que o Evangelho fala, quando diz que melhor fora para eles que lhes prendessem ao pescoço uma pedra de moinho e que os lançassem ao fundo do mar.

Deve ser-se igualmente severo com as expressões imprudentes?
Não. Isto, porém, de nenhum modo significa que se devem impunemente consentir.
O que importa não é saber o que nós pensamos a esse respeito, mas sim aquilo que pensam as crianças. Uma mãe, por exemplo, num momento de impaciência, exclama:
Ah! como é aborrecido ter filhos!"

Nós bem sabemos o que ela quer dizer. Mas e a criança? Não conservará uma recordação prejudicial, que produzirá estragos na sua maneira de proceder no dia em que se tenha tornado, até certo ponto, consciente da vida?

E pode-se-á pensar que, mesmo desde já, essa refelxão seja inofensiva?

Uma mamãe a quem pesava ter tido a fraqueza de proferir uma expressão semelhante, via o seu filhinho de quatro a cinco anos fazer todos os dias uma oração particular, que rezava com fervor. Admirada, insta com a criança, para saber o a intenção da sua reza, e acaba por ouvir esta resposta:

Já que é tão aborrecido ter filhos, peço ao Menino Jesus que me leve, sempre será um a menos.(autêntico)

(Excertos do livro: Catecismo da Educação, do Abade René Bethléem, continua...)

PS: Grifos meus.
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