sexta-feira, 23 de abril de 2010

O meio da educação moral (Primeira parte)

Nota: Dividiremos este estudo em seis partes.

O meio da educação moral
Primeira parte


Que se deve entender por meio da educação moral?
Deve entender-se o conjunto de circunstâncias que envolvem a vida moral da criança, quer na sociedade familiar, consituída pelos pais (bom exemplo), quer nas diversas relações, que ela própria cria (vigilância).

Seção I
O bom exemplo

"Que as crianças não ouçam nem vejam, em volta delas, nada que não seja verdadeiro, nada que não seja pudico, nada que não seja justo, nada que não seja santo, nada que não seja amável, nada que não seja honroso, nada que não seja virtuoso, nada que não seja louvável"
(S.Paulo, Epístola aos Filipenses, IV, 8, adaptação por Mons. Rosset, ob. cit, p 83) 

Que veremos nesta seção a respeito do bom exemplo?
Veremos: a importância (cap.I) e o objeto do bom exemplo (cap. II).

Capítulo I
A importância do bom exemplo

Como provaremos a importância do bom exemplo?
Estudaremos num primeiro artigo a eficácia do exemplo em geral; num segundo artigo, a influência do exemplo sobre as crianças; num terceiro artigo, a necessidade de bom exemplo na educação; e num quarto artigo, a santificação do educador pelo bom exemplo que é obrigado a dar.

Artigo I - A eficácia do exemplo em geral.

"Se tu convives com um coxo, aprenderás a coxear" (Amyot)

Qual é a importância do exemplo em geral?
Pode dizer-se do exemplo que é a primeira potência do mundo. Afirma-o a autoridade, e prova-o a experiência.

Quais são as autoridades que afirmam o que dissemos?
Jesus Cristo: consagrou três anos à pregação e trinta anos ao exemplo.
Santo Agostinho: "A palavra é pouco; o exemplo, eis o grande meio de ação."
São Francisco de Sales: "Mais aprecio uma onça de bom exemplo que cem libras de palavras."
Aristóteles: "De todos os animais, o mais imitador é o homem."

Como prova a experiência a importância do exemplo?
"Entre os diversos seres de organização análoga, diz Nicolay, há uma simpatia inata e como que uma necessidade de imitação." E, com efeito, rimos quando vemos rir, e rimos na sociedade das pessoas que sorriem; bocejamos na companhia dos que bocejam.

Basta que alguém olhe fixamente para o canto da casa ou para a rosácea do teto, para que os nossos olhares se voltem para lá. Certos jeitos, até mesmo os tiques, todos se tornam facilmente comunicativos. Somos como o camaleão, que toma as cores dos objeto que o cercam.

Artigo II - A influência do exemplo sobre as crianças.

"Poderei seguir caminho diverso da família?
Como irei direito, se lá em minha casa tudo anda torto?"
(La Fontaine, Fábulas, XII, 10)

O que dizemos do exemplo, considerando nos seus efeitos sobre o homem em geral, não é ainda mais verdadeiro, quando se trata das crianças?
Sim.

Por muitas razões:

- As crianças são muito impressionáveis; são sobretudo mais impressionadas pelo que vêem do que pelo que ouvem; os grandes arrazoados não as convencem; para elas, a lógica é simples, e o espírito direto; procuram primeiramente o fato.

- As crianças têm um desejo instintivo e muito ardente de se parecerem com as pessoas grandes, e copiam servilmente aquilo que lhes vêem fazer. Se o pai carrega habitualmente as sobrancelhas; se a mãe se zanga com freqüência, a criança tomará o hábito dos dois.

A gravidade produz a seriedade.
A alegria é mãe do bom humor.

- As crianças são animadas por uma confiança natural, que suprime a dúvida e a hesitação, na aceitação de tudo o que se lhes diz, e sobretudo na imitação de tudo aquilo que faz diante delas. Tomai simplesmente o ar de comer com delícia uma iguaria que desejais que elas comam; encontrá-la-ão delicosa, comendo depois de vós...

O exemplo exerce sempre a mesma influência de atração no sentido do bem como no sentido do mal?
Não. É preciso notar que o exemplo do bem é seguido em parte e com tibieza, enquanto o exemplo do mal é seguido com facilidade e agravamento. E é muito natural, porque o bem é uma ascensão, e o mal é uma descida.

Não de deve, pois, atribuir ao bom exemplo uma eficácia soberana, que dispense o emprego de outros meios de educação. Conhecemos um bom pai de família, que reduz todos os seus deveres de educador a este princípio, por demais exclusivo:

- Eu e minha mulher demos em tudo o bom exemplo aos nossos filhos; quanto ao mais - repreensões, ameaças, correções, etc. - não nos ocupamos de tais coisas. (Autêntico).

Artigo III - A necessidade do bom exemplo na educação.

Como provaremos a necessidade do bom exemplo?
Demonstrando: , que o bom exemplo é o mais poderoso dos mestres; , que o bom exemplo não pode ser substituído.

1º - O bom exemplo é o mais poderoso dos mestres.

"Os bons exemplos não mostram tão somente como se deve fazer, mas imprimem também o desejo de querer praticar o bem". (Amyot)

Por que é o bom exemplo o mais poderoso dos mestres?
Porque os discursos mais impressionantes, as palavras mais persuasivas, a eloqüência mais arrebatadora nunca terão eficácia sobre as crianças, enquanto os bons exemplos os não apoiarem e provarem a sua sinceridade.

Assim, a melhor lição de educação que se pode dar às crianças, é praticar à vista delas as virtudes que se lhes ensinam.

Como se prova esta afirmação?
- Pela razão.

A sabedoria das nações resume todos os dados relativos ao valor do exemplo neste conhecido porvérbio: "Longum iter proecepta, breve et efficax per exempla. É longo o caminho dos preceitos; é curto e seguro o dos exemplo".

- Pela experiência.

Com efeito, onde se encontram as crianças delicadas?
Nas famílias onde se observam as regras da polidez.

Onde se encontram as crianças religiosas?
No meio onde se pratica sinceramente a religião.

Onde se encontram as crianças generosas?
Onde se tenha dado o exemplo da generosidade.

"Ainda ouço, como se fôra ontem, e não foi há pouco e longe daqui, o grito de reconhecimento dum filho, admirável, tanto pela sua fé, como pela elevação do seu espírito e do seu talento. Estávanos ambos ajoelhados à beira dum leito fúnebre. Ele, mostrando-me seu pai morto, dizia: "É consolador dizê-lo, senhor, abade, nada me ensinou que não fosse bom e verdadeiro"
(Cl. Bouvier, A educação religiosa, p. 61)

Demais, não é assim que se procede na educação física e na educação intelectual?
Evidentemente.

A ginástica apenas se aprende por lições práticas.
O agricultor inicia o filho na lavoura, segurando diante dele a rabiça do arado.
O professor ensina a leitura e a escrita aos seus alunos, articulando diante deles os sons que devem emitir, e traçando por seu punho no quadro preto as letras que deverão imitar.
A mãe faz tomar a seu filho um medicamento desagradável, provando-o ela primeiro.

2º - O bom exemplo não pode ser substituído.

Porque é que o bom exemplo não pode ser substituído?
Porque a tudo o que se invente para o substituir faltará a sinceridade e a convicção; ora, a criança é um observador muito penetrante e um lógico por demais implacável para ser deixar levar por aparências.

Pode dizer-se da criança que é um observador penetrante?
É preciso ser cego para o não reconhecer.

"Apesar de todas as vossas precauções, e, como dizia Plínio, por mais ocultos que estejam na profundidade da vossa alma os pensamentos e sentimentos, alti recessus latebraeque, os vossos filhos descobrirão o mistério, e ... todos os preceitos de virtude de todas as vossas lições de moral não serão em breve a seus olhos mais que uma irrisão" (Mgr. Dupanloup, Da educação, t. II, p. 341), se o vosso procedimento não der apoio e força ás vossas palavras, mostrando-se em perfeita harmonia com os vossos conselhos.

É também verdade que a criança é um lógico implacável?
Que os pais nem por um momento duvidem desta verdade, se não querem aprendê-la com vergonha e confusão. A criança pensará: "Se aquilo que me mandam fazer é um bem, os meus pais devem fazê-lo como eu; e, se é como se quer, por que me obrigam?" As vezes pensará mesmo em voz alta.

- Não diga mais essa palavra, não é própria de gente bem educada, aconselha a mãe ao filho.
- O papá também a diz, ainda lha ouvi esta manhã.

A criança, sem fazer caso das advertências dos pais, imitá-los-á em tudo, e muitas vezes o mal será irreparável, porque os defeitos assim contraídos penetrarão "a medula dos ossos", segundo a vigorosa expressão da Sagrada Escritura.

Artigo IV - A santificação do educador pelo bom exemplo que é obrigado a dar.

"Conciliai a vossa boca com a vossa coragem,
praticai os vossos conselhos, ou, então, não mos deis"
(P. Corneille, Mélite)

Como é que o bom exemplo aperfeiçoa e santifica o educador?
Impondo-lhe a estrita obrigação de ser aquilo que deve e o que quer parecer; ou, por outras palavras, tornando para ele a sinceridade uma lei.

Que sucederia, se o bom exemplo não fosse sincero?
O educador que se satisfizesse com bons exemplos apenas na aparência:

- Seria um mentiroso em ação;
- Mereceria os anátemas fulminados pelo Evangelho contra os hipócritas;
- Não tardaria a ser descoberto e a cair no desprezo.

A mentira dum bom exemplo aparente não tem qualquer coisa de aviltante?
Sim, afirmamo-lo com Mgr. Dupanloup:

"De fato, pode imaginar uma baixeza comparável à dum homem que se faz mentiroso público, mentiroso de profissão, e demais a mais com crianças?! Não, não pode haver aviltamento igual."

Quais são os anátemas que o Evangelho fulmina contra os hipócritas?
"Desgraça sobre vós, escribas e fariseus hipócritas! Limpais por fora o copo e o prato, e por dentro estão cheios de rapina e de intemperança." (Mat. XXIII, 25)
"Desgraça sobre vós escribas e fariseus hipócritas! que vos assemelhais a sepulcros branqueados, que aparecem belos por fora, e que por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda a espécie de impureza." (Mat. XXIII, 27)...

Graves palavras!
Terríveis anátemas!

E quantas vezes poderia aplicar-se a palavra terrível de São Jerônimo: "Os vícios fos fariseus chegaram até nós! Desgraça sobre nós!" (Segundo Mgr. Dupanloup. Da educação, t. II, p. 343-344)

O bom exemplo aparente pode impor-se por muito tempo?
A vida da família é feita de contatos muito freqüentes e muito longos para que o hipócrita se não fatigue de máscara que tinha afivelado, e de aparência fictícia que tinha resolvido impor-se.

A criança não tarda a descobrir a realidade, e sofre à sua vista uma impressão desastrosa, feita de pasmo, de vergonha, de escândalo e de desprezo.

Qual será a grande vantagem que usufluirá o educador, da sinceridade dos bons exemplos?
Será a santificação a breve trecho.

"Para tornar-se santo quando se está encarregado de educação da juventude, basta não ser um hipócrita ou um mentiroso; é suficiente fazer-se o que se diz e seguir os seus próprios conselhos"
(M. Borderies, cura de S. Tomás de Aquino de Paris, depois bispo de Versalhes)

O ilustre Frederico Ozanam escrevia por ocasião do seu primeiro filho:

"Vamos começar a sua educação ao mesmo tempo que ele começará a nossa, porque certo de que o céu no-lo enviou para nos ensinar muitas coisas e nos tornar melhores. Não posso contemplar este meigo rosto todo cheio de inocência e de pureza sem descobrir bele a marca sagrada do Criador, mesmos apagada do que em nós. Não posso cogitar nesta alma imperecível, de que tereis de dar contas, sem que me sinta mais penetrado dos meus deveres. Como poderei dar lições, se não as praticar? Poderia Deus dar-me um meio mais deleitoso de me instruir, de me corrigir, de me levar pelo caminho do céu?" (Cartas, t. II, carta XX)

(Excertos do livro: Catecismo da educação, do Abade René Bethléem)

PS: Grifos meus.
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