terça-feira, 6 de abril de 2010

A dor supre o amor

A dor supre o amor


"Mas quando o amor é tão forte quanto a dor,
 o progresso da alma é extraordinário.
Ela se torna celeste;
Deus se inclina para contemplá-la,
 e o anjo das santas esperanças
desce dos céus para a vir colher."

Eis o fato que muitas vezes tenho observado. No princípio me surpreendeu; depois me extasiou.

Toda a existência começa pela felicidade e acaba pela tristeza. A ventura se nos apresenta com a aurora da vida e com ela se dissipa; vem depois a tristeza que não mais acaba. Porque? Parece que a realidade devia ser precisamente o contrário.

No começo da vida, quando ainda nada fiz nem mereci, porque tenho eu todos os dons e todos os júbilos? No fim, depois de ter conhecido o trabalho, a oração e o amor, porque todos os abandonos?

Pourquoi Dieu met-il doncede meilleur de la vie tout au commencement?
Dize, Senhor, porque pôs o melhor da vida, tudo, enfim, no começo?

Ó meu Deus, dizei-mo, a fim de que não me invada a tristeza nos meus derradeiros dias, e que o meu coração não se dilacere em uma lúgubre velhice, sem consolação e sem esperança, porque seria sem luz.

Como vimos, somos destinados a nos criar, trabalhando para a beleza da nossa alma. Ora, essa beleza nunca é terminada neste mundo. É preciso que ela sempre aumente. "Sede perfeitos como meu pai celeste é perfeito". Cumpre que caminhemos de luz em luz, de virtude em virtude; não nos devemos deter. Na felicidade, entretanto, o homem forçosamente interrompe a sua marcha: ele se deleita na ventura e nela quer permanecer.

Eis porque começamos pela felicidade; eis porque ela é passageira. Deus nos expele dali. Egredere, egredere. Caminhai, avançai, evitai o que vos detêm; não descanseis em meio da viagem. Devemos sempre prosseguir; e isto de tal modo nos foi ordenado por Deus, diz Bossuet, que Ele não nos permitiu sequer que parássemos no infinito.

E por isso, quando queremos repousar na felicidade, Deus faz um aceno, e a chama da dor arde sob os nossos pés e nos obriga a partir.

Eis a história da humanidade e a de cada uma das almas.

Vede o mundo. Começou pelo paraíso terrestre. Mas quanto durou? O homem não pôde muito tempo gozar dessa ventura; e foi necessário que Deus dali o expelisse, para que ele de novo achasse nas lágrimas a beleza perdida e o amor que se devanecera.

Vede o Cristianismo. Também ele começou por uma espécie de Éden. Mas que disse logo o Fundador? "Convêm para vós que eu parta. Expedit vobis ut ego vadam." E Ele acrescenta estas palavras profundas: "Se eu não partir, o Espírito não virá. Si enim non abiero, Spiritus non veniet."

Em outros termos, se a felicidade ficar, a felicidade dessa doce presença do Mestre e dos discípulos, o Espírito não virá, a chama sagrada do zelo, o belo fogo do sacrifício e da dedicação. Spiritus non veniet.

O mesmo se dá com qualquer existência. A criança nasce como num paraíso terrestre: é acariciada, amimada ternamente; mas isso não dura, nem pode durar. Cumpre que ela prove o fel da amargura, e beba a água da torrente. De outro modo, a virilidade do caráter se não revelaria. Spiritus non veniet.

Vem a época do casamento. É uma nova vida que surge e tem a sua hora de encanto. Mas se essa hora fosse prolongada, que se tornaria a alma? Os pais, os amigos, as obras de caridade, a visita aos pobres, as virtudes, tudo seria esquecido. O homem pararia em meio do caminho, em vez de prosseguir. Egredere, egredere.

É preciso partir, abandonando não o amor, mas os seus gozos; é necessário conhecer-lhe os limites e os desfalecimentos. O coração deve ser aperfeiçoado pelas mágoas. Se enim non abiero, Spiritus non veniet. O espírito, a chama, a virtude desinteressada, o sacrifício e a dedicação: eis o que o coração deve conhecer, pois que as virtudes do amor são mais belas e melhores do que as suas alegrias.

Na vida religiosa a situação moral é idêntica. Ela se inicia pelas doçuras do noviciado. Ó sagrados esposais da alma com Deus, quem descreverá o vosso encanto? É também uma lua de mel. Dentro em pouco os abandonos e as obscuridades se sucedem; a luz e a consolação, uma após a outra, se retiram. A alma se vê isolada, em um deserto, e a sua vida só se deriva da fé e do amor. E sob os seus pés se ateia, cada dia mais ardente, a flama da dor...

Eis a história de todas as almas e de todas as vidas. Ao despontar da existência, brilha uma hora de êxtase e de passageiro enlevo, como uma gota de mel à beira do cálice de amargura. Depois, a cada passo, vai diminuindo a fonte de júbilo, enquanto se avoluma a torrente das dores.

Cada dia o corpo se torna mais pesado, mais torturado, o coração, mais penoso o fardo que carregamos. Não nos podendo deter na felicidade, procuramos, ao menos, não caminhar na estrada das dores. É impossível. Depois de um sonho que se esvai, eis outro que subitamente se dissipa; e junto a um túmulo ainda mal fechado, um novo se abre... Em vão dizemos como o poeta:

"A dor acha sempre onde nos possa ferir. Depois de ter martirizado o corpo, amargura o espírito; e quando torturou o espírito, aflige o coração; e depois de o encher de angústias, novamente o salteia."

A esponja, no fundo do mar, quando saturada d'agua não mais se pode embeber. Mas no coração a capacidade de sofrimento é infinita. E assim chegamos no termo da vida. Todos os nossos sonhos se evolaram; tudo o que fizemos, desapareceu no esquecimento; tudo o que amamos, foi devorado pela morte.

Que nos resta?

Uns se desalentam e, desesperados, choram sobre essas ruínas.
Ó homem cego, não sabes o que resta? O teu coração, a tua fé.

O fogo da dor, se tudo destruiu, não aniquilou a tua alma. Quando se extinguiu a pira em que morreu Joana d'Arc, tudo havia desaparecido da nobre vítima, tudo fora consumido, exceto o seu coração.

A vida é também um fogo. No fim, só resta o coração purificado, engrandecido, transfigurado e embelecido pela dor, digno do céu para o qual ele nasceu e aonde pode remontar agora.

Eis o que a dor queria conseguir. E vós vedes assim que, no fundo, ela supre o amor. O que ela fez, a ele competia fazer. O amor ilumina, o amor purifica, embeleza, santifica e sublima; e se a dor hoje exerce essa gloriosa tarefa, é porque o amor já não é bastante poderoso para o exercer sem o seu auxílio.

Como é, porém, poderoso com ela! E como a dor é, por seu turno, um fraco operário, quando o amor não a acompanha! O verdadeiro impulsor da obra grandiosa é o amor; conhece as forças de que a dor dispõe, e só ele as sabe empregar.

Um amor pequeno e uma grande dor constituem uma aliança pujante, e os seus resultados já são maravilhosos. Mas quando o amor é tão forte quanto a dor, o progresso da alma é extraordinário. Ela se torna celeste; Deus se inclina para contemplá-la, e o anjo das santas esperanças desce dos céus para a vir colher.

(Excertos do livro: A dor, de Monsenhor Bougaud)

PS: Grifos meus.
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