quinta-feira, 22 de abril de 2010

III - A MÃO DO CRIADO – A BOFETADA

III - A MÃO DO CRIADO – A BOFETADA

 

Por que será que a bofetada é um ultraje tão sensível à honra de um homem?

Atinge ela o rosto, a parte mais nobre, a que manda, de onde se exala a vida, o amor, e que pode erguer olhos que fitam o céu. Um rosto esbofeteado, mais do que a dor assinala a vergonha e a cólera; é uma diminuição aos próprios olhos e aos olhos dos outros que se sinta um homem esbofeteado.

E esbofeteado por um criado, um réles soldado mercenário!...
A afronta é dobrada.

Jesus está de pé, atado, diante do [ex] Sumo Sacerdote, Anás; afligem-no com perguntas, querem apanha-lo nas Suas próprias palavras. Cercam-no os soldados , os criados do Sumo Sacerdote, turba baixa, bajuladora do amo, que vê seu ganho no fim de tudo. Aliás, têm eles um rancor pessoal contra Jesus, uma vingança privada, pois não foram violenta e ridiculamente atirados por terra, de pernas para o ar, por aquele Jesus no horto? Precisam desforrar-se: fá-lo-ão na primeira oportunidade.

Um dos criados rompe o fogo. Afeta zelo: é uma máscara para lhe encobrir o rancor. Não tem nada a temer e tudo tem a ganhar: Jesus está acorrentado, não poderá aparar o golpe, e o Sumo Sacerdote ser-lhe-á grato por defender assim a sua palavra.

No fundo, nada importa ao Conselho instalado de ver Jesus diminuído por aquela bofetada.

Na fatal progressão do infortúnio, certas etapas não nos permitem mais, uma vez transpostas, tornar à antiga ventura. Só há daí por diante um movimento: aquele que nos arrasta e nos impele para um mais vivo e mais humilhante sofrimento.

Quando o rei Luis XVI, invadido pela escória do seu povo, se viu acuado àquele vão de janela do palácio das Tulherias (20 de junho de 1792) e obrigado, para ceder ao capricho grotesco daquela populaça, a subir a uma mesa como a um tablado, a pôr na cabeça o gorro vermelho e beber um copo de vinho, podia dizer-se que fora um dia a realeza e o seu prestígio protetor e secular. Não se torna de semelhante decadência.

Assim, aos olhos da multidão o prestígio do Cristo está golpeado depois daquela bofetada. Os soldados viram que depois daquele ultraje não houve nenhuma magia, nenhum retruque.

O criado pôde blasonar junto aos outros. Riem-se do caso, aprovam-no, correm a dizê-lo aos soldados que se aquecem no átrio: “Ele acaba de levar uma bofetada valente. Cada qual a seu tempo, havemos de lhe fazer provar muitas outras!”

Entretanto, Jesus sentiu a afronta, e o rubor assomou-Lhe ao rosto. Essa bofetada abre-Lhe a Paixão; após este primeiro ultraje permitirá Ele todos os demais.

Esbofeteia-se a Jesus Cristo – ainda e sempre – quando se toma partido anti e contra Ele, pelos poderes públicos. Por que os Vossos dogmas estreitos? Dizem-Lhe. Por que a Vossa Igreja intolerante? Por que limitar os direitos de César?...

É ainda esbofetear a Jesus o interdizer-Lhe a entrada na sociedade.

Esbofeteamo-lO numa ordem mais íntima quando Lhe exprobramos o opor-nos incessantemente tal ou qual dos Seus mandamentos, e então muitas vezes uma ação torpe esbofeteia a Deus diante dos Seus Anjos e dos Seus Santos: “Deixa-me fazer, eu quero a minha liberdade e o meu gozo”...

Enfim, há cruéis preferências que são bofetadas. Aqui o Sumo Sacerdote é preferido ao Cristo; dentro de horas será Barrabás: outra bofetada. Tudo quanto diminui, rebaixa, avilta, é uma bofetada.

Ó Jesus, eu aceito, em memória daquela estrepitosa bofetada, tudo o que me humilhar em público ou em segredo, e tanto mais quanto de mais baixo e de mais vil do que eu me vier essa bofetada...

No meio das ruínas daquilo que foi a casa de Anás, num pátio onde encontra ainda uma velha oliveira nodosa e gretada, a cujo tronco Jesus teria sido amarrado por alguns instantes, uma lâmpada arde sem cessar no lugar onde um criado do Sumo Sacerdote deu uma bofetada em Jesus.

(“A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.

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