quinta-feira, 1 de abril de 2010

A Santa Eucaristia e a Morte do Salvador

A Santa Eucaristia e a Morte do Salvador


"Todas as vezes que consagrardes o Mistério Eucarístico,
 anunciareis a Morte do Salvador"
(I Cor 11,26)

Seja qual for o aspecto sob o qual encaremos a Eucaristia, lembra-nos ela de modo frisante a Morte de Nosso Senhor. Institui-a na véspera de morrer, na noite em que Se entregou: "Pridie quam pateretur in nocte qua tradebatur". O nome que lhe é dado é o testamento fundado no Seu Sangue: "Hoc testamentum est in sanguine meo".

O estado de Jesus é um estado de Morte. Nas aparições de Bruxelas em 1290 e de Paris em 1369, mostrou Suas chagas, qual nossa Vítima Divina. Sem movimento, sem vontade, assemelha-se ao cadáver que é carregado. Em redor, reina silêncio mortal; Seu altar é um túmulo que encerra ossos de mártires. Encima-O uma cruz, alumia-O a lâmpada, como alumia os túmulos. Envolve a Hóstia santa, o Corporal, novo sudário - novum sudarium.

O Sacerdote, ao celebrar o Sacrifício, traz sobre si as insígnias da Morte; os paramentos santos são todos ornados da cruz, que ainda traz pela  frente e pelas costas. É sempre a Morte, sempre a cruz. Tal o estado da Eucaristia considerada em si mesma.

Considerada enquanto Sacrifício e Comunhão, é a Morte de modo mais sensível ainda. O sacerdote pronuncia, em separando, sobre as matérias do pão e do vinho, as palavras sacramentais, de forma que, pela virtude intrínseca destas palavras, o corpo deveria estar separado do sangue - e isto equivale a morrer.

Se a morte não se apresenta em verdade, é que o estado glorioso e ressuscitado de Jesus Cristo a tal se opõe, mas, ao menos, subtrai Ele da Morte tudo quanto pode; reveste-Lhe a forma e vemo-Lo qual Cordeiro imolado por nós. E assim Jesus Cristo continua na Sua Morte mística o Sacrifício da Cruz, renovado deste modo milhares de vezes pelos pecados do mundo.

Na Comunhão consome-se a Morte do Salvador. O coração do comungante torna-se-Lhe o túmulo, pois cessa o estado sacramental ao dissolver-se, sob a ação do calor natural, as Santas Espécies: Jesus-Hóstia não mais se encontra em nós sacramentalmente. É a Morte do Sacramento, a consumação do holocausto.

Túmulo glorioso no coração do justo, túmulo ignominioso no coração do pecador. Na alma purificada, Nosso Senhor depõe, ao perder a entidade sacramental, sua Divindade, seu Espírito Santo, e em virtude disto, em gérmen de ressurreição; mas na alma culpada, Jesus não sobrevive, a Eucaristia frustrou seu fim. A Comunhão torna-se uma profanação. É a Morte violenta e injusta de Nosso Senhor crucificado por novos carrascos.

Porque quis Nosso Senhor estabelecer uma relação tão íntima entre o Sacramento da Eucaristia e a Sua morte?

Primeiro, para lembrar-nos o preço que Lhe custou seu Sacramento. A Eucaristia com efeito, é o fruto da Morte de Jesus. A Eucaristia é um testamento, um legado, que só tem efeito pela Morte do testador, Jesus precisou morrer para validar Seu testamento. Digamos, portanto, cada vez que estivermos em presença da Eucaristia:

"Este precioso testamento custou a Jesus Cristo a Vida - prova de Seu imenso Amor, pois Ele mesmo disse que não há amor maior do que dar a vida pelo amigo". Em Jesus, morrendo para deixar-nos a Eucaristia, para no-la conquistar, temos a suprema prova de Seu Amor.

Quantos pensam nesse valor da Eucaristia?

E todavia, aí está Jesus a no-lo dizer. Mas, quais filhos desnaturados, só queremos utilizar-nos e gozar das riquezas sem pensar Naquele que no-las mereceu em troca de Sua própria Vida.

Segundo para nos redizer incessantemente quais devem ser os efeitos da Eucaristia em nós. Em primeiro lugar deve fazer-nos morrer ao pecado e ás inclinações viciosas; em segundo, morrer ao mundo, crucificando-nos com Jesus Cristo e exclamando com São Paulo: "Mihi mundus crucifixus este et ego mundo". Em terceiro, morrer a nós mesmos, aos nossos gostos, desejos, sentidos para nos revestir de Jesus Cristo de tal forma que Ele viva em nós e que nós sejamos apenas Seus membros, dóceis a Suas vontades.

E, finalmente, para nos fazer participar da Sua Ressurreição gloriosa, Jesus Cristo Se semeia em nós. Ao Espírito Santo cabe reanimar esse gérmen e por ele dar-nos novamente a Vida, Vida gloriosa que jamais terá fim.

Tais algumas das razões que levaram Jesus Cristo a envolver nas insígnias da Morte esse Sacramento de Vida, Sacramento onde reina glorioso e triunfa Seu Amor. Ele quer pôr-nos incessantemente sob os olhos o quanto Lhe custamos e quanto devemos fazer para corresponder ao Seu Amor.

"Ah! Senhor, dir-Lhe-emos com a Santa Igreja, Vós que, nesse admirável sacramento, nos deixastes uma lembrança tão viva da Vossa Paixão, concedei-nos tratar o Sagrado Mistério de Vosso Corpo e Sangue com respeito tal, que mereçamos sentir em nós a todo momento os frutos de Vossa Redenção."

(Excertos do livro: A Divina Eucaristia - Volume I - São Pedro Julião Eymard)

PS: Grifos meus.
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