terça-feira, 21 de maio de 2013

O Tabernáculo

Fonte: Mãe Cristã


      Como são bons os teus tabernáculos, ó Deus das virtudes! A minha alma palpita ansiosa de se abrigar em teus átrios; pois, se o pardal sabe onde há de recolher-se para passar a noite e a andorinha vai direita ao beiral onde fez o seu ninho: quanto a mim o que desejo, o que procuro, é refugiar-me em teus altares, ó Senhor, meu Rei e Deus meu! Bem-aventurados os que moram em tua casa; estes te louvarão eternamente!
Sim, bem-aventurados todos os que, neste vale de lágrimas, buscam refúgio em teu seio e aí, levados nas ascensões celestes, sobem de virtude em virtude, como de montanha em montanha, até à divina Sião onde em êxtase contemplam a face do altíssimo (Psalmos. 84). Se assim suspirava o real salmista, quanto se deve a alma cristã enternecer em presença do tabernáculo! O Deus de amor se acha entre nós; é o “Deus oculto”, de que fala Isaias, que nos oferece o maná do céu e o cálice da imortalidade. “Eis-me aqui – diz-nos o Senhor – eu convosco estou até à consumação dos séculos”. Que inefável mistério!

                O altar é o trono do Santo dos Santos e o ponto central da devoção cristã. Dele jorram as graças e os dons de Deus e dimanam as águas vivas que fazem brotar as flores da santidade.

                Os esplendores do tabernáculo são misteriosos e invisíveis, velados como ficam pelo mistério do Sacramento; pois, se na pátria celestial o Altíssimo está rodeado de inúmeros espíritos que lhe rendem adorações dignas dEle, aqui na erra, Deus não reclama senão a homenagem de nosso coração: “Fili, praebe mihi cor tuum”. Também o culto do augusto Sacramento é essencialmente uma adoração em espírito e em verdade. A intenção de Jesus Cristo, tornando-Se assim invisível a nós, é elevar-nos acima das coisas deste mundo para nos atrair com Ele às regiões sobrenaturais. É para isto, diz São João Crisóstomo, que o Deus do amor, presente no santo altar, esconde aos nossos olhos as suas magnificências.

                Ele não se revela senão na alma recolhida e não reside entre nós senão para conquistar o nosso amor. Ele ai está, não para se mostrar, mas para nos atrair, para nos ganhar, para nos contentar. Aí está, enfim, porque Ele nos ama e nos ensina a amar, porque Ele se dá e nos ensina a nos darmos, porque Ele se imola e nos ensina a nos imolarmos.

                Não procureis, em vossas visitas ao Santíssimo Sacramento, sensações de ternura. A devoção sensível raras vezes é profunda e está sempre exposta a ilusões. Ela provém, segundo a acepção da palavra, do fervor dos sentidos; quando, entretanto, a nossa vontade é que deve ser fervorosa e ardente. “Não me Toqueis – disse Jesus Cristo – porque eu não subi ainda para junto de meu Pai”; frase esta que São Bernardo interpreta do seguinte modo: não vos ligueis aos sentidos corporais que se enganam, nem à razão que se perturba nem à natureza que é limitada, mas apoiai-vos na palavra de Jesus Cristo, que é a verdade imutável. No céu é que havemos de contemplar as perfeições da Majestade divina; aqui na terra gozamos apenas as primícias desta felicidade e nos preparamos com todas as nossas forças para plenamente a possuir e deliciosamente a saborear nos êxtases da eternidade.

                Todavia, neste mistério, Nosso Senhor não é diferente do que era durante a sua vida terrestre. Sempre bom, indulgente, misericordioso e terno, é acessível a todos os que a Ele se dirigem. Como outrora, Jesus quer sobretudo que se deixem ir a Ele as criancinhas, pois que as ama com predileção, as abençoa e as acaricia e ameiga.

                Queremos nós participar destas preciosas prerrogativas? Ele acolhe os homens de boa vontade, ouve-os, levanta-os e fortalece-os.

                A sua mão toca untuosamente o coração abatido para vivificar a esperança e a coragem. Jesus tem um balsamo infalível para as almas aflitas, que enxuga todas as lágrimas, acalma as inquietações, abranda as penas do espírito e ativa a seiva da caridade.

                Se estais tristes, ide depor ao pé do tabernáculo o fardo que vos oprime; e, se estais alegres, rendei graças ao Deus das consolações. Onde podereis achar de fato inspirações salutares, pensamentos fortes, motivos de inabalável confiança a não ser no seio do vosso Pai? Tendes necessidade de repouso, aqui se repousa;  tendes necessidade de amar e de ser amado, aqui se ama e se é amado, aqui é a escola do verdadeiro amor.
           O tabernáculo deve ser o principal refúgio da mãe cristã, o asilo do seu coração, o santuário da sua esperança e o lugar do seu repouso. É ai que ela reza por todos os que lhe são caros; que ela pede e obtém; que ela procura e acha; que ela bate e lhe abrem. Ela sabe que diante do altar é preciso dar para receber, mas que se recebe infinitamente mais do que se dá e que o grão de incenso que ai se queima volta a nós desfeito em um perfume de bênçãos.
                Dizeis contudo: Eu tenho pedido, procurado e batido muitas vezes, mas em vão; de modo que, em contrário às promessas do Evangelho, o Senhor, que, em sua vida evangélica, não deixou de atender jamais às preces de nenhuma mãe, parece, ai de mim! Insensível às minhas!

                Semelhante queixa revela uma tentação. Deus ouve sempre, quer conceda logo, quer demore, quer recuse; mas corrige os nossos desejos pouco previdentes e por vezes intempestivos, interpreta-os de maneira a que se tornem em nosso proveito, modera o nosso zelo que nem sempre é conforme à sabedoria e dispõe-nos a uma submissão paciente. Eis a razão por que São Paulo quer que juntemos sempre ações de graças às nossas preces e que sejamos reconhecidos a Deus seja qual for o resultado aparente delas.

                Além disso há para nós, assim como para os nossos filhos, horas de graças ou ocasiões favoráveis.

                Aguardemo-las; esperemos com paciência esses momentos propícios e deixemos obrar a Sabedoria divina sem lhe pretendermos impor os fracos juízos da nossa própria sabedoria. “Eu esperei muito, mas não cansei de esperar – dizia o Salmista – e afinal o Senhor olhou para mim e atendeu  a minha prece” (Salmo 39). Ser-vos-ia útil dizer em qualquer circunstância: Seja feita a vossa vontade e não a minha! E eis ai precisamente o que não dizeis, ou ao menos o que não pensais, se acaso o dizeis.

                A vossa inquieta solicitude se afrouxa quando Deus vos não concede imediatamente o que lhe pedis; pois quereis se atendida à hora que soa na terra, posto que essa hora não tenha soado ainda no céu.

                Para vos expandirdes diante do altar, não é mister um grande fluxo de palavras: a devoção ao Santíssimo Sacramento exige apenas uma disposição calma, submissa e confiante. Exponde silenciosamente as vossas súplicas perante Aquele que lê no fundo dos corações: “deleitai-vos no Senhor, e ele atenderá aos vossos desejos; esperai em Deus, e ele satisfará ao que desejais”. Dizem que as flores reproduzem, na sua admirável variedade, as formas diversas dos astros a que correspondem. Seja como for, elas se conservam tranquilas nos seus pedúnculos, sem se preocuparem com isso, haurindo suavemente a luz do sol que as aquece; e, pouco a pouco, aponta a sorrir no fundo dos seus Cálices o fruto saboroso.

                É assim que se dilatam as almas amorosas ante os tabernáculos do divino Amor. Tranquilas e recolhidas ante o sacro foco da bondade divina, elas absorvem com delicia os raios que daí emanam, e tornam-se boas comungando com a Bondade, misericordiosas, comungando com a divina Misericórdia. A sua atitude humilde e piedosa, o ardor dos seus santos desejos e as aspirações veementes da suas esperanças fazem partir do altar as centelhas das virtudes divinas; e assim se reproduzem admiravelmente nelas mesmas os traços da celeste perfeição, como essas imagens vivas que a luz imprime entre os planos em que reflete.

                O Senhor disse no Evangelho: “Aquele que me vê, vê meu Pai”. E com efeito, Ele é a substancia e o esplendor do Todo-Poderoso. Os reflexos do tabernáculo que se projetam em nossas almas ai produzem um efeito semelhante; e a mãe cristã, toda repassada dessas graças, se erguerá à imagem do seu Deus, de modo que, ao ver as suas virtudes, a sua abnegação e a sua doce piedade afável e atraente, cada um poderá dizer também: Aquele que a vê, vê Jesus Cristo.

                A vida humana não é mais do que a flor de um dia, mas quando esta flor se descerra ao influxo da Religião, uma misteriosa transformação nela se opera, de que resulta um fruto imortal.
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