segunda-feira, 27 de maio de 2013

Graça santificante

Nota do blogue: Acompanhar esse Especial AQUI.
Cônego Júlio Antônio dos Santos
O Crucifixo, meu livro de estudos - 1950

1. — Graça santificante            

Que é a graça santificante?

A graça santificante é uma qualidade de ordem sobrenatural que Deus imprime na nossa alma para a aperfeiçoar no seu ser, e que é o princípio de efeitos maravilhosos na nossa natureza, na nossa pessoa, nas nossas faculdades e nas nossas operações.


1 — Seus efeitos na natureza humana
1 — Participação na natureza divina       

A graça santificante torna-nos participantes da natureza divina.

1.º Todas as criaturas participam da Bondade divina, enquanto esta é uma difusão do ser divino. Esta participação não consiste em receber uma parte da essência divina, mas uma perfeição modelada sobre qualquer perfeição de Deus.

2.º A participação, que dá a graça, é distinta da participação comum a todas as criaturas, porque consiste numa participação da natureza divina. Ut per hac efficiamini divinae; consortes naturæ. (II Ped. 4).

Quais são as perfeições que nos tornam participantes da natureza divina?

Nem todas as perfeições divinas podem ser comunicadas, no sentido rigoroso da palavra, às criaturas. Por isso, convém classificar os atributos ou perfeições divinas em três categorias:

1.º Atributos ou perfeições que não pertencem senão a Deus — e que fazem d'Ele um Ser infinito: Tais são, por exemplo: a Eternidade, a Imensidade. Não é possível a Deus fazer-nos participantes destas perfeições. Como é possível que Deus faça de nós seres incriados, pois que somos criaturas; seres eternos pois que tivemos princípio; seres presentes em toda a parte, visto que ocupamos um ponto no espaço? A graça santificante não pode tornar-nos participantes das perfeições desta categoria.

2.º Atributos que fazem de Deus um Ser infinitamente sábio, poderoso, glorioso e feliz. Tais são os atributos operativos: — a sua Inteligência, Vontade, Omnipotência. Estas perfeições podem-nos ser comunicadas em larga medida. Mas esta comunicação, no plano divino, deve ser a título de recompensa. É preciso merecê-la. Deus reserva-a, sobretudo, para os eleitos quando entrarem no Céu.

Não é ainda comunicando-nos estes atributos, mesmo em certa plenitude, na vida presente, que a graça nos torna participantes da natureza divina.

3.º Enfim Deus possui ainda outras perfeições que se chamam atributos morais e que fazem com que Deus seja infinitamente Santo. Tais são: a Sabedoria, - perfeição moral em virtude da qual Deus se determina sempre para fins dignos da sua infinita perfeição; a Bondade — propensão de Deus que O leva a promover o bem das criaturas; a Santidade — amor infinito a todas as virtudes e o horror a todo o pecado. É este atributo que os anjos celebram de preferência nos cânticos eternos. Eis as virtudes de Deus de que as criaturas racionais devem participar. 

A graça santificante faz-nos participantes da natureza divina, enquanto nos torna participantes, sobretudo, das perfeições morais de Deus. Participando da Sua Sabedoria operamos sempre para sua maior glória, participando da Sua Bondade fazendo sempre bem a todos, participando da Sua Santidade temos um grande amor a todas as virtudes e horror a todo o mal e correspondemos aos convites de Deus e de Jesus Cristo e ao fim para que fomos criados: «Sede perfeitos como vosso pai celeste é perfeito».

II - Visão intuitiva de Deus

1.º Sendo a natureza o princípio das operações, dizer que participamos da natureza divina, é afirmar que recebemos o poder de fazer uma operação própria de Deus.

2.º Esta operação divina é aquela pela qual Deus desde toda a eternidade se conhece e ama: ato necessário de que o Verbo e o Espírito Santo são os termos substanciais; ato especial de Deus porque não é pela abstração e raciocínio que Deus se conhece e ama, mas por uma contemplação imediata; ato que só Deus pode realizar, porque só em Deus há proporção entre a faculdade que conhece e o objeto conhecido.

— A visão intuitiva, é pois, uma operação própria de Deus, característica da sua natureza, mas como somos pela graça, participantes da natureza divina, temos também a visão intuitiva de Deus.

Façamos uma comparação. Podemos conhecer um artista de três maneiras: pelas suas obras, pelo retrato que dele me traçou um dos seus amigos e pelas relações diretas que temos com ele.

1.º Conhecimento do artista pelas suas obras. — Este conhecimento é o que temos de Deus pela vista das suas obras. Este conhecimento é imperfeito porque, ainda que manifeste o poder e sabedoria de Deus, nada diz da Sua vida interior.

2.º Conhecimento do artista pelo seu retrato.

Este conhecimento é o que temos de Deus pela fé. Conhecimento fundado no testemunho dos Escritores sagrados e, sobretudo, de Jesus. Por estes conhecimentos são-nos revelados os atributos de Deus e mesmo a Sua vida íntima.

3.º Conhecimento do artista pelas relações diretas com ele. — Este conhecimento é o que temos de Deus pela visão beatífica, pela visão de Deus face a face. É o conhecimento mais perfeito que podemos ter de Deus.

— A vida da graça é o exercício da vida sobrenatural, neste mundo, com as nossas faculdades humanas esclarecidas pela luz da fé, lumen fidei ou gratiae.

— A vida da glória é o exercício da vida sobrenatural, na eternidade com as nossas faculdades transformadas pela luz da glória, Lumen gloriae.

continuará...
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