quinta-feira, 30 de maio de 2013

A perfeita pobreza por São Boaventura

Nota do blogue: Agradeço ao amigo e leitor Fabrício pela transcrição do texto. Deus lhe pague a caridade.

CAPITULO III
A perfeita pobreza

1.      –  Também a virtude da pobreza é necessária à perfeição. Sem ela ninguém pode ser perfeito, como atesta Nosso Senhor, que no evangelho diz: Se queres ser perfeito, vá, e vende tudo quanto tens e o dá aos pobres.
Daí se vê que o cimo da perfeição evangélica consiste na excelência da pobreza. Não creia, portanto, ter chegado ao auge da perfeição quem ainda não é um imitador perfeito da pobreza evangélica. Porque Hugo de São Victor diz: “Por grande que seja a perfeição dos religiosos, não é, contudo, uma perfeição acabada se neles faltar o amor à pobreza.”


2.      –  Duas coisas há que  a qualquer religioso, e mesmo a qualquer pessoa, devem estimular ao amor da pobreza. A primeira é o exemplo divino, que é irrepreensível; a segunda é a promessa divina, que é inestimável.
O primeiro, pois, que em ti, serva de Cristo, deve inflamar o amor à pobreza são o amor e o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois ele foi pobre no nascimento, pobre na vida, pobre na morte.

3.      –  Vê que exemplo de pobreza te deixou para que tu, pelo seu exemplo, te faças amiga da pobreza.
Pobre foi Nosso Senhor Jesus Cristo nascendo, a ponto de não ter casa, nem veste, nem alimento; mas um estábulo era a sua casa, vis panos as suas vestes e um pouco de leite, dado por uma virgem, o seu alimento.
Daí o suspiro do Apóstolo São Paulo que, considerando esta pobreza, exclama em sua epístola aos Coríntios: conheceis a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, que sendo rico, se fez pobre por vosso amor, afim de que vós fosseis ricos pela sua pobreza. E São Bernardo diz: “Havia no céu eterna afluência de todos os bens, mas não se encontrava ali a pobreza. Na terra, porém, abundava e superabundava a pobreza, e o homem não conhecia o seu valor. Desejando-a, desceu o Filho de Deus para escolhê-la para si e para torna-la preciosa pela sua estimação.”

4.      –  Nosso Senhor Jesus Cristo ofereceu-se-nos como exemplo de pobreza também durante a vida no mundo.
Ouve, virgem consagrada, ouvi vós todos que professastes a pobreza, quão pobre foi o Filho de Deus, o Rei dos Anjos, durante toda a sua vida. Tão pobre foi que, às vezes, não encontrando abrigo, era obrigado a dormir com os seus apóstolos fora da cidade e vilas.
Por isso refere o evangelista São Marcos: depois de tudo observar, como já era tarde, saiu com os doze para Betânia. Sobre esse texto diz São Beda: “Ele olhou em seu redor, a ver si alguém o receberia em sua casa, porque tanta era a sua pobreza e tão pouco obséquio encontrava que em tão grande cidade nenhum abrigo achou.” E Mateus diz: As raposas tem covas, as aves do céu tem ninhos; o Filho do homem, porém, não tem onde reclinar a sua cabeça.

5.      –  O Senhor dos Anjos não somente foi pobre ao nascer, não somente pobre durante a vida, mas, para acender em nós o amor à pobreza, foi paupérrimo na morte.
Vós todos, que fizestes voto de pobreza, atendei e vede quão pobre se fez, ao morrer, por nosso amor esse rico Rei dos céus! Foi despido e privado de tudo quanto possuía. Foi, digo, despido de suas vestes, quando dividiram as suas vestes e lançaram a sorte sobre a sua túnica. Foi privado do corpo e da alma, quando a sua alma se separou do corpo nas cruciantíssimas dores da morte. Foi também privado da divina glória, quando não o glorificaram como Deus, mas tratavam-no como a um malfeitor, como Jó no capitulo 19 se queixa: roubaram-me a minha gloria.
Dos exemplos de tanta pobreza fala São Bernardo, dizendo: “Vede o pobre Cristo, nascendo sem casa, deitado num presépio entre um boi e um jumento, envolto em vis paninhos, fugindo para o Egito, sentado sobre um jumento, dependurado nu no patíbulo.”

6.      –  Como, pois, poderá haver um cristão tão miserável, como poderá haver um religioso tão estulto e cego, que ainda ame as riquezas e que despreze a pobreza, quando vê e ouve que Deus, o Senhor do mundo, o Rei dos céus, o Unigênito de Deus sofreu privações de tanta pobreza? É, na verdade, uma perversidade muito grande, diz São Bernardo, querer ser rico o vil animalejo, por amor a quem o Deus de majestade e o Senhor Sabaoth quis tornar-se pobre. Procure as riquezas o pagão que vive sem Deus; procure as riquezas o judeu que recebeu promessas terrenas, mas tu, virgem de Cristo, tu, serva do Senhor, como poderás buscar riquezas quando professastes a pobreza, quando vives entre os pobres de Jesus Cristo, quando pretendes ser filha do pobre pai Francisco, quando prometeste ser imitadora da pobre mãe Clara?
Sobremodo, caríssima irmã, é de envergonhar a tua e a minha avareza, porque tendo professado a pobreza mudamos a pobreza em avareza, apetecendo o que não é lícito, desejando o que a regra proíbe, quando, o Filho de Deus se fez pobre por nossa causa.

7.      –  Não padece dúvida que quanto mais fervorosas amantes fordes da pobreza professa, quanto mais perfeita imitadora da pobreza evangélica, tanto mais abundância tereis de todos os bens, quer temporais, quer espirituais.
Se, porém, fizerdes o contrário, se desprezardes a pobreza que professastes, haveis de carecer de todos os bens, assim temporais como espirituais.
Maria, a pobre mãe do pobre Jesus; diz: os famintos encheu de bens e os ricos deixou vazios. A mesma coisa atesta o santo profeta Davi, dizendo: os ricos sofrem fome e necessidades, mas aos que procuram o Senhor não faltará nenhum bem.
Porventura não lestes, porventura não ouvistes a Nosso Senhor Jesus Cristo recomendar no evangelho de São Mateus a seus apóstolos: não sejais solícitos dizendo: que comeremos, ou que beberemos? Porque vosso Pai sabe do que tendes necessidade.
Ouve também o que lhes diz no Evangelho de São Lucas: quando vos enviei sem bolsa, sem alforje e sem calçado, porventura vos faltou alguma coisa? E eles responderam: nada. Se, pois, o Senhor alimentou no meio dos duros e incrédulos Judeus os seus discípulos sem que esses discípulos necessitassem prover-se por própria solicitude, será de admirar se alimenta no meio dos fieis cristãos os Frades Menores que professam a mesma perfeição? Será de admirar se alimenta as pobres irmãs, imitadoras da pobreza evangélica? Portanto, lançai nele toda a vossa solicitude, porque ele tem cuidado de vós.

8.      –  Sendo, pois, tanta a solicitude de Deus, nosso Pai, a nosso respeito, tanto o seu cuidado de nós, é de admirar que essas coisas temporais, essas coisas vãs e perecedouras nos arrastem a dirigir-lhes toda a nossa preocupação. Certamente não acho outra explicação senão avareza, que é a mãe da confusão e também da condenação. Não encontro outra causa senão que nas nossas afeições nos afastamos muito de Deus, nossa salvação. Não há outra causa senão porque o fervor do amor divino arrefeceu e gelou dentro de nós. Na verdade, se fossemos bem fervorosos, nós haveríamos de seguir a Cristo nus; porque os homens, quando sentem grande calor, costumam desnudar e despir-se. É sinal de grande frieza nossa, sermos atraídos por essas coisas temporais.
Ó meu Deus! Como poderemos ser tão duros para com Jesus, o qual saiu de sua terra, isto é, do céu, e de seu parentesco, isto é, do meio dos anjos e da casa de seu Pai, isto é, do seio do Padre, e se fez por nós pobre, abjeto e desprezado? E nós recusamos a abandonar, por amor a ele, um mundo fétido e miserável? É verdade que com o corpo deixamos o mundo, mas, ai! Todo o coração, toda a mente, todo o nosso desejo é ocupado e absorvido pelo mundo.

9.      –  Ó feliz serva de Deus, lembra-te da pobreza do pobre Nosso Senhor Jesus Cristo, grava no teu coração a pobreza do teu pobre pai São Francisco, pensa na pobreza de tua mãe Santa Clara, e entrega-te à pobreza, com todo o zelo, com todos os esforços. Abraça a tua senhora, a pobreza, nem queiras amar, pelo nome do Senhor, outra coisa debaixo do céu, senão a pobreza.
Não procures a honra, não alguma coisa temporal, não as riquezas; mas observa fielmente a santa pobreza que prometestes guardar.
Ter e amar riquezas é infrutuoso; amar e não ter é perigoso; ter, porém, e não amar é laborioso. Portanto é mais útil, mais seguro e mais agradável e obra de perfeita virtude não ter riquezas nem as amar.
Por isso o conselho do Senhor, assim como o seu exemplo a respeito da pobreza, devem mover e inflamar todo o cristão a amar a pobreza. Ó bem aventurada pobreza! Quão agradável a Deus fazes o teu amante e quão seguro neste mundo! “Quem, diz São Gregório, não tem no mundo o que ama, não encontra no mundo o que deva temer.”
Lê-se na “Vida dos Padres” que um certo pobre irmão tinha uma só esteira, com a metade da qual se cobria de noite, servindo a outra metade de colchão. Uma noite, em tempo de muito frio, o superior do mosteiro ouviu-o exclamar: “graças vos dou, Senhor; quantos ricos estão agora no cárcere, não obstante sua riqueza, quantos em grilhões e atados, quantos com grilhetas aos pés; eu, porém, sou como um imperador, uso livremente dos meus pés e ando por onde quero.” – Assim tens, caríssima irmã, o primeiro, isto é, o exemplo da pobreza.

10.  –  O segundo, que te deve inflamar ao amor da pobreza, é a promessa divina, que é inestimável. Ó bom Senhor Jesus, rico para todos, quem pode dignamente exprimir com palavras, sentir no coração ou com a pena descrever aquela glória celeste que prometeste dar aos teus pobres! Não merecem eles, com a sua pobreza voluntaria, tomar parte na glória do Criador? Não merecem entrar nas potências do Senhor, naqueles tabernáculos eternos, naquelas lúcidas mansões? Ah! Sim. Merecem tornar-se cidadãos dessa cidade de que Deus é o artífice e fundador. Tu mesmo, com a tua boca bendita, lh’o prometeste nas palavras: bem aventurado os pobres de espirito, porque deles é o reino dos céus. O reino dos céus não é outra coisa senão tu mesmo, Senhor Jesus Cristo, que és o Rei dos reis e o Senhor dos senhores. A ti mesmo te lhes darás como prêmio, como recompensa e gozo. A ti hão de saciar-se. Pois comerão os pobres e ficarão farto e louvarão ao Senhor os que o procuram, os seus corações viverão por todos os séculos dos séculos. Amém.     

(São Boaventura, O.F.M, A Vida Perfeita, Vozes de Petrópolis, 1921, p. 50-60.)
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