sábado, 12 de janeiro de 2013

O escândalo do sacerdote

Nota do blogue: Meus agradecimentos para uma bela alma pela transcrição desse capítulo. Deus lhe pague, querida de Deus.

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula

(Jesus Cristo falando ao coração do Sacerdote, ou meditações eclesiásticas para todos os dias do mês, escritas em italiano pelo Missionário e doutor Bartholomeu do Monte traduzidas pelo Pe. Francisco José Duarte de Macedo, ano de 1910)


I. – Não te basta, ó filho, ofenderes-Me tu, senão também seres causa de que outros Me ofendam?!... Se dei todo o Meu sangue em preço pela redenção das almas, não vês que, quem mas rouba, move contra mim perseguição mais feroz que a daqueles mesmos, que tão barbaramente derramaram o Meu sangue no Calvário?!
E tu, ó sacerdote, que com o escândalo estorvas o bem e promoves o mal, tens coração de ser tão ímpio contra o teu Deus?!...
Fiz-te sacerdote para que zelasses a Minha honra, e conduzisses a Mim as almas; e tu arrancas-mas do seio com tão horrenda aleivosia?!...
Ah! Ninguém causa tanto dano à Minha Igreja, e menoscabo à Minha honra, como o sacerdote que, destinado por Mim para repreender e corrigir os outros, lhes dá exemplos de perversidade [1].
Se querias assim tratar-Me, para que tomaste as Minhas insígnias? Para que vieste à Minha Igreja? Se houveras ficado no estado laical, não Me fizeras tão graves injúrias, como assim Me fazes.

II. – Todos põem em ti os olhos; mas, ainda que cometas alguma falta, ninguém se atreve a repreender-te; e teu exemplo é tanto mais seguido, quando é maior a tua honra em virtude da tua dignidade.
Tu, caindo no pecado, arrastas por assim dizer os outros para que caiam; porque julgam ser-lhes lícito quanto vêem fazer a ti; e pecam desenfreada e afoitamente vendo que tu pecas.
Desculpam-se com o teu exemplo na liberdade do falar, na familiaridade, na crápula; nunca se emendam, porque dizem em sua defesa: os sacerdotes e os religiosos também fazem o mesmo; e, o que mais é, quando os seculares vêem um sacerdote mau, pensam que todos os eclesiásticos são maus, o que redunda em detrimento da mesma Religião, chegando até vacilar na fé, e a ter os sermões, os sacramentos, o evangelho na conta de impostura ou invenção humana[2]. Ó força  cruel do escândalo! Pobres almas, assassinadas por aqueles mesmos que mas deviam guiar, corrigir e salvar!

III. – Ai de ti, sacerdote! Tu, que a princípio não quiseras usar da língua, dos talentos, das riquezas para o bem; depois não só fizeste uso das riquezas, dos talentos, da língua, de enganos, de conselhos, de violências; mas até te serviste do teu crédito e do mesmo sacerdócio, como de aguda espada, para me traspassares a Mim e as almas, redimidas com o Meu sangue! Ah! Infeliz, também traspassaste a ti mesmo!
Se um leigo, por mais tentado, por mais ignorante, por mais desprezível que seja, quando danifica uma só alma e lhe dá ocasião a um só pecado, merece ser lançado, com um penedo ao pescoço, no fundo do mar; que merecerás tu que és ministro, e por isso muito mais criminoso, muito mais cruel, atentas as luzes que recebeste, o estado em que te achas e as obrigações especiais do teu sacerdócio?
Se tens sido, pois ocasião de ruína não só de uma, duas ou três, mas de muitas e muitas almas, já fomentando abusos, já promovendo a libertinagem, e não uma ou outra vez, mas por tanto tempo, e em tantas espécies de pecados, sabe que és réu de tantas mortes espirituais, quantos têm sido os maus exemplos que tens dado[3].
E, depois de tantos crimes, terás coração de aparecer em Minha presença sem derramar rios de lágrimas, ou sem me restituir tantas almas quantas Me tens roubado?!

Fruto. – Lembra-te que és sacerdote, obrigado especialmente a dar exemplos que edifiquem; e que aquilo que num secular passa por gracejo ou coisa de nenhum valor, em um sacerdote se torna grave[4].
Examina-te escrupulosamente, e vê se, no trato com os domésticos ou com os estranhos, particularmente com a mocidade, deste alguma vez ocasião ao pecado com palavras ou maus exemplos; promovendo, ensinando, cooperando, protegendo, etc.; com omissões de estudo, de vigilância, de repreensão, etc.; com a facilidade em absolver, etc.
Todo o sacerdote deve procurar a salvação das almas; mas aquele que deu escândalo, buscando a sua ruína e a do próximo, tem de mais a mais a obrigação de reparar os danos que ocasionou, procurando salvar a sua alma e as dos outros, com particular zelo e edificação.
S. RAYMUNDO DE PENNAFORT deu um mau conselho a um jovem estudante, dissuadindo-o de entrar em Religião; foram porém tais os remorsos que o agitaram, que, para reparar o seu erro, renunciou aos maiores empregos e ao mundo, e se fez religioso com admiração de todos.



[1] Nullum puto ab aliis majus praejudicium, quam a sacerdotibus tolerat Deus; quando eos, quos ad aliorum correctionem posuit, dare de se exempla pravitatis cernit: quando ipsi peccamus, qui compescere peccata debuimus. (S. GREG.,Homil. Brev. 12 Martii.)

[2] Plurimi considerantes clericorum vitam malam ex hoc vacillantes, imo multoties deficientes in fide, non credunt quod illa, quae de nostra fide sunt scripta, sint vera; sed scripta fuerint, non Dei spiramine, sed humana, et deceptoria inventione; clavium virtutem non credunt, sacramenta despiciunt, vitia non vitant, virtutes non reputant, non horrent inferos, caelestia non concupiscunt. (S. BERNARDIN, SEN., Serm. 19.)

[3] Seire enim debent sacerdotes, quia si perversa unquam perpetrant, tot mortibus digni sunt, quot perditionis exempla transmittunt. (GREG., Pastor.)

[4] Inter saeculares nugae, nugae sunt, in ore sacerdotis, blasphemiae. Consecrasti os tuum Evangelio: talibus jam aperire illicitum; assuescere sacrilegum est. Verbum scurrile, quod faceti, urbanique nomine colorant, num sufficit peregrinari ab ore; procul et ab aure relegandum. Foede ad cachinos moveris, foedius moves. (S. BERNARD., De Consid.)
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