segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O Desenvolvimento do Caráter nas Crianças

Fonte:  Maria Rosa Mulher
Por Pe.John D. Fullerton
Traduzido por Andrea Patrícia

 

Nós vivemos em uma época de constantes mudanças dos padrões morais (por exemplo, quem teria imaginado há cem, cinquenta ou mesmo vinte anos atrás, que poderia haver um debate sobre a definição de casamento!). A principal razão para isto é o princípio de que a maioria faz as regras; o que a maioria deseja fazer, isso é a lei moral. Ou, no máximo, somos informados de que a economia, ou a biologia ou a psicologia devem ser os únicos guias a moldar a conduta humana.

Assim, o julgamento individual, enquanto esse desejo mais contribui para seu próprio bem-estar e o da sociedade, torna-se o supremo tribunal de apelações em questões morais. Isso, é claro, é simplesmente a versão moderna da mentira de Satanás: "Vocês serão como deuses, conhecendo o bem e o mal." A política educacional de qualquer era reflete a filosofia da época, e, portanto, temos hoje em dia, a educação sem nenhuma menção dos mandamentos sublimes da religião: "Vós deveis" e "Vós não deveis". Em vez disso, temos o endeusamento da razão humana e uma insistência sobre a suficiência total de conhecimento e iluminação. Desenvolvimento intelectual, testes e medição, e as diferenças individuais recebem a maior atenção, enquanto a formação do caráter e da vontade é amplamente ignorada.

Os frutos desta política são abundantes: as condições amorais e imorais que promove, o aumento da ilegalidade e criminalidade, bem como a liberdade desenfreada de nossa juventude, para citar apenas alguns.

A solução para este dilema moral só pode ser encontrada na religião, como o Papa Pio XI disse em sua Encíclica sobre a educação cristã da juventude:

"Inclinações desordenadas devem ser corrigidas, tendências boas incentivadas e reguladas desde a mais tenra infância, e, acima de tudo, a mente deve ser iluminada e a vontade fortalecida pela verdade sobrenatural e por meio da graça, sem as quais é impossível controlar os impulsos maus, impossível atingir a perfeição plena e completa da educação querida pela Igreja, que Cristo dotou tão ricamente com a doutrina divina e com os Sacramentos, os meios eficazes da graça."

Para superar este dilema moral, é importante que nós comecemos por construir bases sólidas também conhecidas como formação do caráter. A palavra "caráter" é derivada da palavra grega que significa um instrumento usado para gravar ou cortar sulcos. Caráter é a soma total de todas as qualidades que foram gravadas na alma e que se tornaram parte integrante de um homem. Caráter é a vida dominada pelo princípio, ou em outras palavras, a vontade completamente formada.

O desenvolvimento do caráter em crianças deve ser o objetivo supremo dos sacerdotes, pais e professores. Como disse o Papa Pio XI na mesma encíclica citada:

“Assim, o verdadeiro cristão, o produto da educação cristã, é o homem sobrenatural que pensa, julga e atua constantemente e em consonância com a reta razão iluminada pela luz sobrenatural do exemplo e do ensinamento de Cristo; em outras palavras, para usar o termo atual, o verdadeiro e concluído homem de caráter. Pois, não é todo tipo de consistência e firmeza de conduta baseada em princípios subjetivos que forma um verdadeiro caráter, mas apenas a constância em seguir os princípios eternos da justiça, como é admitido até mesmo pelo poeta pagão quando ele elogia como uma e a mesma coisa "o homem que é justo e firme de propósito.”

A formação do caráter deve ser o centro do sistema educativo desde os primeiros anos. Quando isso tiver sido feito, então a criança, quando chegar aos anos críticos, irá responder prontamente ao apelo dos motivos maiores aos quais ela reagiu tantas vezes antes. Quando isso não tiver sido feito, podemos esperar a ruína. Indivíduos e nações são arruinados não por falta de conhecimento, mas pela falta de conduta adequada, como o Papa Pio XI, explica: "particularmente nos jovens, as práticas do mal são o efeito não tanto da ignorância do intelecto quanto da fraqueza da vontade exposta a ocasiões perigosas, e não suportadas pelo meio de graça.”.

Mesmo sendo a graça todo-poderosa, isso não nos desobriga do dever de desenvolver a força máxima natural do caráter da qual os nossos jovens são capazes. Sacerdotes, pais e professores precisam despertar nos jovens o espírito de conquistadores. Há uma nobreza que está em sua alma, adormecida, talvez, mas nunca morta. Se quisermos que eles vençam na batalha pela virtude essa nobreza deve ser despertada e estimulada.

Para ajudar nisso é importante que seja dada a devida atenção para a formação de bons hábitos no jovem. Nosso caráter é o resultado de hábitos adquiridos adicionados ao nosso temperamento natural. Assim, a educação do caráter é em grande parte a formação de hábitos. Portanto, pais e professores devem esforçar-se incessantemente para evitar a formação de hábitos errados, pois tais hábitos enfraquecem a vontade e provocam miséria. A formação de um mau hábito acontece tão facilmente que pode levar um longo tempo antes que alguém perceba que é obrigado por ele. Hábitos não são nem criados em um momento nem são quebrados em um momento. Mas a qualquer momento pode-se começar a criá-los ou quebrá-los. Atos desenvolvem hábitos, hábitos formam o caráter e o caráter determina o destino. O menino, que, na idade de 14 anos, é rude, egoísta, ou altamente ofensivo, provavelmente irá manter esses hábitos quando for adulto. Muitos psicólogos afirmam que, em média, os hábitos são formados entre as idades de 3 e 14 anos. Se sim, então cabe aos pais começarem cedo a habituar seus filhos ao que formará a base do seu caráter e, portanto, a sua proteção quando estiverem passando pelo fogo e pela água das muitas tentações na adolescência.

Este trabalho de formação do caráter deve então começar com a criança pré-escolar. Todos os dias de uma criança nos seus primeiros anos de vida estão formando e determinando seu futuro. Bons hábitos de cortesia, boas maneiras à mesa e ao falar tem um papel a desempenhar na formação de seu caráter, assim como bons hábitos de saúde, hábitos de ordem e os hábitos de brincadeiras. Ainda mais importantes são os hábitos morais gerais que devem também ser formados cedo. Entre eles estão: veracidade e honestidade, os fundamentos do caráter; sentido de responsabilidade; respeito aos pais e autoridade; cooperação com os outros; simpatia; senso de modéstia, tão importante para a formação adequada na castidade.

Entre os hábitos mais importantes a serem formados em crianças está o de ensiná-las a ser moderadas em suas necessidades. Esta não é uma questão de negar-lhes alegrias e prazeres, pois a infância deve ser cheia de alegria. No entanto, elas devem aprender que ninguém pode satisfazer todos os seus desejos, quem não aprender isso vai ser infeliz mais tarde na vida, quando não for capaz de conseguir tudo o que seu coração deseja.

Uma criança que teve cada capricho gratificado será habituada a ceder a todos os desejos, e não hesitará em colocar de lado até mesmo as considerações morais se elas impedirem o caminho para satisfazer os impulsos sensuais. Por outro lado, se elas foram treinadas para abster-se alegremente elas vão desenvolver a base do hábito que irá ajudá-las a dizer não quando esses mesmos impulsos sensuais vierem tentá-las.

Em nosso mundo não é muito difícil ver a necessidade urgente de formação de crianças em hábitos de autocontrole. Muitos anos atrás, o falecido arcebispo John Spalding fez um apelo neste sentido para as mães: "Ó mãe, você, cujo amor é melhor que qualquer um de nós já conhecemos, endureçais os vossos filhos, e force-los não na corrida pela fortuna, mas no caminho íngreme e estreito, através da autoconquista e autoconhecimento, que sobem em direção a Deus e todas as coisas altas."

Os pais devem incentivar seus filhos ao que um bispo chamou de "estratégia da Guerra Santa". Eles podem fazer isso se eles treinarem seus filhos de vez em quando a negar-se um pouco da comida favorita, ou a ignorar um pouco de dor, ou a fazer uma conquista heróica da preguiça. Essas coisas vão treinar em seguida para exercitar-se espiritualmente, e vão ajudar a fortalecê-los para a guerra espiritual que se levanta contra todos nós. Se, no entanto, eles nunca foram treinados para negar a si mesmos indulgências admissíveis como eles vão ser capazes de se abster de satisfazer aos desejos não permitidos?

Também não é difícil despertar nas crianças o entusiasmo pelos pequenos atos de abnegação. Algumas crianças podem queixar-se à primeira vista, especialmente se elas estão apenas começando a formar bons hábitos, mas, quando o princípio de fazer não o que elas gostam, mas o que é certo começa a se aprofundar, elas em breve terão interesse em fazer estes pequenos "atos de heroísmo" como algo benéfico para o desenvolvimento do seu próprio caráter. O autocontrole deve ser apresentado a elas como um ato de crescimento, de força, de liberdade, e deve ser evidenciado que a repressão aparente é apenas um passo rumo a uma vida superior. Deve ser mostrado a elas como um processo gradual de prática nas menores coisas constrói a força de vontade, e como todo ato de autoconquista em uma esfera da vida torna a batalha mais fácil em todas as outras esferas. Na obra de autodisciplina e da guerra pelo controle de nossa natureza emocional a ofensiva é a melhor defesa da natureza superior.

Ao formar nossos filhos dessa maneira, vamos dar-lhes uma concepção daquela verdadeira liberdade que é o gozo de nossos privilégios, sem invasão de propriedade sobre os direitos de alma de alguém, do nosso próximo, ou de Deus. Eles devem ser treinados para obedecer ao princípio, não aos seus impulsos. Somente nisso eles vão encontrar a verdadeira felicidade, tanto nesta vida quanto, um dia, na próxima.
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