quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA - XI. DIÁLOGO ENTRE O DIRETOR E O ESCRUPULOSO

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI


TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA
PELO
ABADE GRIMES
1854


XI. DIÁLOGO ENTRE O DIRETOR E O ESCRUPULOSO

O diretor. Conheço os males de que a vossa pobre alma sofre; compadeço-me deles do fundo de minhas entranhas; qui­sera curá-los; mas sabeis qual seria o meio disso, depois de tudo o que acabais de ler?

O escrupuloso. Não; ignoro-o, e desejo vivamente que mo ensineis.

O diretor. Tende uma confiança sem li­mites na misericórdia divina pela me­diação de Nosso Senhor Jesus Cristo, que derramou o Seu sangue por vós, que vos procurou como uma ovelha desgarrada através das sarças e dos espinhos, e que quis expiar pessoalmente os vossos peca­dos para vos dar a paz e a salvação. Poderíeis desesperar e perder confiança à vista do que Deus fez por vós dando-vos Seu Filho, que se fez a Si mesmo vítima por vós? Que há que não obtenhais pela mediação de Jesus Cristo? Que há que não acheis n’Ele? Força, luz, justiça, santidade, con­solação, perseverança; porquanto Jesus Cristo é um dom universal em quem estão encerrados todos os outros dons e todos os tesouros da graça. “Dando-nos seu Filho, diz S. Paulo, Deus não nos deu todas as coisas com Ele?” (Rom 8, 33). Deu-no-lo para ser o suplemento universal de todas as nossas misérias, de toda a nossa in­dignidade. E que quereríamos que Deus fizesse a mais para nos inspirar sentimentos de confiança e de amor? Que pode Ele acres­centar a admirável economia da redenção, da religião, dos sacramentos, da mediação da SS. Virgem, de tantos caminhos abertas à vossa confiança?


O escrupuloso. Mas eu não mereço se­não os repúdios e a indignação de Deus; todas as minhas orações são más, e Deus não pode escutar-me.

O diretor. Mas Jesus Cristo, o Filho úni­co do Pai, que intercede por nós, que por nós oferece o preço dos Seus méritos, do Seu sangue e dos Seus trabalhos, não me­rece bem ser escutado em nosso favor? Poderíamos crer que tal Pai pudesse re­cusar alguma coisa a tal Filho que Lhe oferece tal preço? Este pensamento não seria injurioso tanto ao Pai como ao Filho?

O escrupuloso. Os meus pecados passa­dos, que são tão numerosos, as minhas fraquezas presentes e futuras me assus­tam.

O diretor. E que são todos os vossos pe­cados comparados com a misericórdia de Deus e com os merecimentos de Jesus Cristo? Serão outra coisa a não ser como uma gota de água comparada com o Ocea­no? Abri os Livros santos, e vede a gran­de maravilha da misericórdia divina para com pecadores tais como David, Zaqueu, Saulo, inimigo declarado de Jesus Cristo, S. Pedro perjuro, Madalena prostituída, o bom ladrão, etc. Que tendes a temer de­pois de tantos exemplos, após tantos san­tos que reinam no céu, e que, antes da sua conversão, foram mais culpados do que vós?

O escrupuloso. Mas esses eram santos, e não miseráveis como eu, que estou tão longe de me aproximar das virtudes deles!

O diretor. Seria um erro crer que os santos não foram o que vós sois, e que vós não podeis ser o que eles são. Os san­tos tiveram as mesmas tentações, as mes­mas fraquezas, as mesmas dificuldades, as mesmas paixões, os mesmos inimigos que vós, e vós tendes as mesmas graças, os mesmos socorros, os mesmos meios, as mesmas esperanças que eles. É só, como eles, terdes plena confiança; tendes só que usar dos socoros que vos são oferecidos, e chegareis à mesma felicidade que eles.

O escrupuloso. Longe estou de ousar es­perá-lo: estou sobejamente convencido da imensidade das minhas misérias; para es­perar essa ventura.

O diretor. Permiti-me fazer-vos aqui uma observação que não vos será inútil, espero-o: é que devemos desconfiar dessa desconfiança que parece nascer do senti­mento das nossas misérias, e que muitas vezes não passa de uma falsa humildade e de um verdadeiro orgulho. O bom es­pírito produz bons frutos, e o mau espí­rito produz maus frutos; é por aí que se deve fazer o discernimento deles, e é por aí também que se deve distinguir a ver­dadeira da falsa humildade; uma e outra nascem da convicção das nossas misérias e da nossa indignidade; mas os frutos que uma e outra produzem são bem diferen­tes. A verdadeira humildade vem de Deus, e leva também a Deus. Como ela é um dom de Deus, fortalece a alma e dá-lhe um novo vigor, uma prontidão e uma liberdade santa para rogá-lO e servi-lO: o espírito de Deus não pode enfraquecer nem desanimar as almas, torná-las mais desconfiantes da bondade de Deus, mais pe­sadas, mais inquietas, mais covardes na oração e no cumprimento dos outros deveres da religião: esses maus frutos não po­dem, pois, vir senão da operação do espí­rito maligno. Tomai cuidado nisso, e des­confiai. Santa Teresa dizia às suas reli­giosas: “Guardai-vos de certas humildades acompanhadas de inquietações que o de­mônio nos põe no espírito; elas causam à alma uma aflição que a confrange, que a agita, que a atormenta, e que lhe é inteira­mente difícil de suportar. Com isso, o de­mônio pretende persuadir-nos de que te­mos humildade, e ao mesmo tempo fazer-nos perder a confiança que devemos ter em Deus... Quando, estiverdes neste es­tado, acrescenta ela, o mais que puderdes desviai o vosso pensamento da considera­ção da vossa miséria, e levai-o a consi­derar o quanto é grande a misericórdia de Deus, qual é o amor que Ele nos dedica, e o que Lhe aprouve sofrer por vós”.

Efetivamente, a desconfiança, embora se cubra com as aparências da humildade e da convicção da miséria, da fraqueza e da indignidade do homem, é realmente or­gulho. Senão, vede: Deus conhece infini­tamente melhor do que nós as nossas fra­quezas, a nossa malignidade, a nossa in­dignidade; mas, apesar disso, manda-nos esperar na Sua misericórdia e nos mere­cimentos de Jesus Cristo; ordena-nos lançar fora as dúvidas, todos os pensa­mentos que atacam ou enfraquecem a es­perança, como os que atacam a fé, a cas­tidade; anima-nos por sua palavra e por suas promessas; e não é um grande orgulho não Lhe obedecermos, não escutar­mos a Sua palavra e rejeitarmos as Suas consolações? Ele nos oferece Suas graças, declara-nos que se considerará ofendido se dermos ouvido às nossas desconfianças; ameaça-nos se não esperarmos na Sua bon­dade, Então não é orgulho pretender al­guém desculpar-se com o fato de ser demasiado indigno e de haver abusado de mais das Suas graças e da Sua paciência?

O escrupuloso. Mas então que devo fa­zer? dignai-vos traçar-me o caminho, e eu o seguirei.

O diretor. Primeiramente, como já vos disse, deveis ter uma grande confiança em Deus, visto ser ela a fonte de toda sorte de bens, visto enraizar, nutrir e fortificar as virtudes, amenizar as penas, enfraquecer as tentações, duplicar a co­ragem, dar nascimento a todas as boas obras, e ser para a alma como um pa­raíso de bênção e uma espécie de felici­dade antecipada. Diz o profeta Jeremias: "Feliz o homem que põe sua confiança no Senhor, e de quem o Senhor é a espe­rança!” (Jer 17, 7).

A confiança fraca e tímida torna a piedade trêmula e vacilante; é sustada pe­los mais pequenos obstáculos, é retardada pelo menor contratempo, desalentada pe­las mais leves contradições. Ora, uma es­perança tímida e trêmula torna também hesitantes e tímidas as orações que dela nascem, e por conseguinte incapazes de obter muito. Torna a gratidão menos viva, o amor menos ativo, abre a sua porta às tentações, rouba à alma a paz, enche-a do espírito das trevas, fortifica a oposi­ção natural às virtudes cristãs, serve aos desígnios pérfidos do demônio contra nos­sa alma. Não admitis estas verdades?

O escrupuloso. Admito-as perfeitamente.

O diretor. Penetrado de confiança em Deus, deveis ter uma grande confiança no vosso guia espiritual. Deveis abrir-lhe o vosso coração, e, uma vez que vos houver­des revelado a ele, ficai convencido de que ele só quer o bem e a salvação de vossa alma; que o lugar onde ele está, o minis­tério que ele desempenha, o Deus cujo lugar ele ocupa, a responsabilidade que ele assume sobre si, são garantias bastante poderosas de que ele cumpre o seu dever para conosco. Escutai-o em tudo; obede­cei às decisões dele, às suas prescrições, às suas proibições, aos seus conselhos, co­mo ao próprio Deus.

O escrupuloso. Sinto que é esse o caminho mais curto; mas como obedecer contra a própria consciência?

O diretor. A vossa consciência pode en­ganar-vos, e a vossa obediência nunca vos enganará. A vossa consciência pode ser trevosa; e Jesus Cristo, falando pelo seu ministro, é a luz e a Verdade; foi ele quem nos disse que escutássemos aquele que ocupa o seu lugar. E foi ele quem advertiu o seu ministro de contar com o seu di­reito, dizendo-lhe: Quem vos escuta a mim escuta.

O escrupuloso. Sou presa de mil tenta­ções.

O diretor. Deveis convencer-vos bem de que, se sois tentado, é porque o Senhor vos ama, é por que sois agradável aos olhos d’Ele, é porque Ele quer purificar-vos ca­da vez mais, aumentar os vossos merecimentos, experimentar a vossa fidelidade, e tornar mais brilhante a vossa coroa. “Deixai correr o vento das tentações, diz S. Francisco de Sales, e não penseis que o cicio das folhas seja o tilintar das ar­mas. Ficai bem persuadido de que todas as tentações do inferno não poderiam man­char um espírito que não gosta delas”. Pensai em que Deus é um pai terno, e que Ele não permitirá a provação senão na medida em que ela vos for útil. Pensai ainda em que os maiores santos, como S.Antão, S. Jerônimo e vários outros, foram mais tentados do que vós, e que saíram vitoriosos; não vos deixeis abater pelo te­mor; lembrai-vos de que para um pecado mortal é preciso que a matéria seja gra­ve, o conhecimento pleno e inteiro, a von­tade expressa. Nas tentações contra a pu­reza ou contra a fé, não vos detenhais a produzir com esforço atos dessas virtudes: volvei-vos para Deus por um terno olhar de confiança: invocai a SS. Virgem, tão boa, tão misericordiosa para conosco; en­tregai-vos a alguma ocupação exterior, e ficai em paz, aguardando que Jesus Cristo mande a tempestade e o mar se acal­marem.

O escrupuloso. Mas estou sempre distraí­do diante de Deus; não posso fazer oração; daí vem que não faço nenhum progresso.

O diretor. Não vos perturbeis com isso; quanto mais penosa é a oração, tanto mais meritória. Retiramos dela menos satisfa­ção, é verdade; mas é por isso mesmo que ela é mais agradável a Deus. Lembrai-vos de que Jesus Cristo orou sem consolação durante a Sua dolorosa agonia.

Quanto às distrações, quando não vos houverdes prestado a elas consciente e voluntariamente, não vos detenhais a procu­rar qual lhes possa ser a causa, nem se de algum modo destes lugar a elas; lan­çai-vos nos braços de Jesus Cristo, e con­vertei em merecimentos o que é uma fon­te de apreensões. Fazei uso frequente das orações jacula­tórias; estes dardos inflamados têm a vir­tude de elevar depressa o coração para Deus, e de abrir o coração de Deus às nossas necessidades. Elas são curtas, fá­ceis, podem ser feitas em toda parte e em todo tempo e sem direções, visto que mui­tas vezes é só uma palavra. Não vos entregueis a mortificações ex­cessivas. S. Jerônimo nos ensina que, quando o demônio não consegue desviar uma alma do amor do bem, trata de im­peli-la a mortificações de um rigor exces­sivo, a fim de que ela fique esmagada por elas, e assim perca o vigor necessário ao seu adiantamento espiritual. Várias almas piedosas caem nesta armadilha; e eis aí por que S. Francisco de Sales, que soube guardar um meio termo tão sensato entre o relaxamento e o rigorismo, e cujos con­selhos fazem autoridade, disse: “Concito-vos a conservardes cuidadosamente a vos­sa saúde, pois Deus exige de vós esse cui­dado, e a poupardes vossas forças para empregá-las melhor no Seu serviço; de feito, é melhor conservar mais forças cor­porais do que é preciso, do que arruiná-las mais do que é preciso; porquanto po­de-se sempre enfraquecê-las quando se quiser, mas nem sempre se pode repará-las quando se quer”. Concedei-vos, pois, as cuidados necessários para poderdes servir melhor a Deus. Não debiliteis demasiadamente o vosso espírito pelo jejum: porquanto não faríeis com isso senão torná-lo mais fraco e, assim, mais exposto aos ataques do inimigo.

O escrupuloso. O que mais aflição me causa é aproximar-me do tribunal sagrado.

O diretor. Esse tribunal que temeis é, no entanto, o tribunal da misericórdia, e não - deveríeis aproximar-vos dele senão com confiança e serenidade. Aquele que ocupa o lugar de Jesus Cristo tem ordem de receber-vos, de perdoar-vos, de conso­lar-vos, de misturar suas lágrimas às vos­sas, de vos abrir enfim as portas do céu. Ah! não façais desse sacramento de amor e de remissão um sacramento de tortura e de angústias; ah! que quer o Senhor senão quebrar os nossos grilhões, restituir à nossa alma a sua liberdade, a sua paz, a sua doce alegria, para com nova cora­gem trilharmos os caminhos da salvação? É preciso arrepender-se dos próprios pe­cados, mas não se perturbar com eles; é preciso ser humilhado, mas não desespe­rado. Depois da confissão, conservai-vos, pois, calmo, e gozai do fruto do sacramento; não deis acesso a mil temores so­bre a validade do sacramento, sobre o vos­so exame, sobre a vossa contrição; a verdadeira contrição é obra do amor, e o amor age na calma: reinem, pois, no vosso coração o amor e a confiança. Agradecei a Deus, prometei-lhe emendar-vos. Espe­rai que, por Sua graça, cumprireis as vos­sas resoluções, e, ainda que devêsseis re­cair cem vezes, não cesseis de prometer e de esperar. Se Deus não vos dá o senti­mento da vossa contrição, é para provar o mérito da obediência, que deve bastar para vos tranquilizar sobre a vossa recon­ciliação perfeita. Diz S. Francisco de Sales: “Grande poder é diante de Deus o poder querer, e vós tendes a contrição pelo sim­ples fato de desejardes tê-la. Não a sentis? Não importa! o fogo que está sob a cinza não se vê, não se sente; e, no en­tanto, esse fogo existe. Crede, pois, com humildade, obedecei com coragem, e tereis uma dupla recompensa”.

O escrupuloso. Eu bem teria necessidade dos vossos conselhos, pois tremo sempre, e estou sempre prestes a abandonar a co­munhão.

O diretor. S. Francisco de Sales diz que há duas espécies de pessoas que devem comungar com frequência: os perfeitos, pa­ra se unirem mais intimamente à fonte de toda perfeição; e os imperfeitos, para tra­balhar por atingi-la; os fortes, para não se tornarem fracos, e os fracos para se tornarem fortes; os doentes, para se­rem curados; e os que estão com saúde, para não caírem em doença. Dizeis que as vossas imperfeições, a vossa fra­queza, as vossas misérias, vos tornam in­digno de comungar com frequência, e eu vos digo que justamente por essa razão é que deveis comungar amiúde, a fim de que Aquele que possui tudo vos dê o que vos falta. — Tomai, pois, o vosso quinhão nos conselhos desse grande diretor.

E não creiais que não colheríeis nenhum fruto da comunhão porque não vedes crescerem as vossas virtudes; basta que Deus o veja, e nem é mesmo bom que o vejais. Contentai-vos com saber que ela produz sempre um grande fruto, que é o de manter-vos em estado de graça.

Precatai-vos de atormentar-vos, acredi­tando que estais mal preparado e que abu­sais de tão grande sacramento, porque vos sentis frio e indiferente e como que sem nenhum sentimento; isso são provações que Deus vos envia para exercitardes a vossa fé e aumentardes os vossos méritos. Sucede com as securas na comunhão como sucede com as que experimentamos na oração. Tende sempre o desejo; o desejo, diz São Gregório, diante de Deus equivale à obra.

Não sois digno! Mas, propriamente fa­lando, quem é que é digno, e quem o será jamais? Então seria preciso renunciar à comunhão, e renunciar também a todos os exercícios de piedade; é justamente o que o inimigo da salvação pede; mas Jesus-Cristo, ao contrário, convida-nos a re­cebê-lO amiúde, e faz do Seu corpo um pão de cada dia. Um justo pavor não é censurável, bem longe disto; mas é pre­ciso ter o cuidado de temperá-lo pela con­sideração da misericórdia de Deus. No Evangelho, Jesus Cristo não disse: Vinde a mim vós que sois perfeitos; disse: “Vin­de a mim vós todos que estais trabalha­dos pela angústia e carregados do fardo das vossas penas, e eu vos aliviarei”.

E, se tiverdes de aproximar-vos da Mesa sagrada apesar do sentimento da vossa indignidade, sem outro apoio nem garan­tia senão a vossa obediência, não temais: porquanto essa disposição é uma das mais agradáveis a Deus.

Se vierdes a ser assediado de tentações, não vos afasteis por isso da divina Euca­ristia; seria cederdes sem resistência a vi­tória ao inimigo. Quanto mais combates tiverdes a sustentar, tanto mais deveis munir-vos de meios de defesa. Ide, pois, ousadamente restaurar-vos com o alimen­to dos fortes, e saireis vitorioso.

O escrupuloso. Dou-vos graças por estes preciosos conselhos, sinto toda a sabedoria deles, e esforçar-me-ei por fazer deles a regra da minha conduta. Se não receasse tornar-me indiscreto, quereria mesmo pedir-vos alguns outros, como sobre a resig­nação, de que tenho grande necessidade, sobre a pressa e a inquietação, e sobre uma multidão de coisas que me faltam.

O diretor. Já que vossa alma o deseja, vou responder em poucas palavras às vos­sas questões. Primeiramente falemos da resignação. Em tudo o que vos acontece, reconhecei e adorai sempre a santa von­tade de Deus. Toda a malícia dos homens e do próprio demônio não pode produzir contra nós coisa alguma que Deus não haja permitido. O Salvador declarou que não cairia um só cabelo da nossa cabeça sem a vontade de nosso Pai celeste. As­sim, em toda situação penosa para a na­tureza, quando fordes afligido por doenças, assaltado por tentações, atormentado pe­la injustiça dos homens, elevai vossa al­ma à consideração divina, e dizei a Deus com coração afetuoso e submisso: Fiat voluntas tua, seja feita a vossa vontade; faça o Senhor de mim o que quiser, como quiser e quando quiser.

É assim que tornamos fáceis de supor­tar as penas mais sensíveis e as situações mais aflitivas. Dizia Santa Maria Madale­na de Pazzi: “Não sentis que doçura in­finita encerra esta só palavra: “vontade de Deus”? Semelhante àquele pau mostra­do a Moisés, o qual tirava às águas o seu amargor, ela adoça tudo o que é amargo na vida”.

Não somente é Deus quem nos envia as nossas penas; mas é para o bem da nossa alma e para nossa vantagem especial que Ele no-las envia: não façais, pois, objeto de queixa daquilo que deve ser um moti­vo de gratidão. Um aviso bem importante a vos dar é o de vos pordes em guarda contra a inquie­tação e contra a pressa. Só agindo tran­quilamente é que podemos servir ao Deus de paz de uma maneira que Lhe seja agra­dável. Ora, esses defeitos fazem-nos per­der o pensamento de Deus em nossas ações, preocupam-nos, embaraçam-nos, fazem-nos cair na impaciência, e é por isto que S. Francisco de Sales era inimigo declarado deles.

Açodando-se e agitando-se, a gente não faz mais, e faz pior. Por isto, vemos que Jesus Cristo repreendeu Marta pela sua demasiada solicitude. Quando nós fazemos as coisas bem, fazemo-las sempre bastante depressa. Contende, pois, a vossa viva­cidade, moderai-vos, fazei bem o que esti­verdes fazendo, não empreendais de mais, a fim de poderdes executar tudo. Não caiais entretanto na trilha contrária, que é a lentidão e a indolência, pois todos os ex­tremos são maus; tende, diz ainda o pio autor supracitado, tende uma atividade tranquila e uma ativa tranquilidade. S. Francisco de Sales, que primava nisso, di­zia, atribuindo a pressa ao amor-próprio: “O nosso amor-próprio é um grande tra­palhão, que quer empreender tudo e não acaba nada”. Velai, pois, sobre este ponto.

Enfim, guardai-vos de um grande ini­migo, que é a tristeza. S. Francisco de Sales não se arreceou de dizer que, depois do pecado, nada é pior do que a tristeza. E acrescentava que todo pensamento que nos perturba e nos inquieta não pode vir do Deus de paz, que faz a sua morada nas almas pacíficas. “Sim, minha filha, digo-vos por escrito tanto quanto de boca, alegrai-vos tanto quanto puderdes fazen­do tudo bem; pois é uma dupla graça para as boas obras o serem bem feitas e o se­rem feitas alegremente; e, quando eu di­go: fazendo bem, não quero dizer que, se vos suceder algum defeito, vos deis por isso à tristeza, não, por Deus, pois seria juntar defeito a defeito; mas quero dizer que persevereis em querer fazer tudo bem, e que volteis sempre ao bem logo que conhecerdes haver-vos afastado dele; e que, mediante esta fidelidade, vivais alegre pa­ra o geral. Deus esteja no vosso coração, minha filha; vivei alegre e generosa”.

Errado andaríeis, pois, em vos entregar­des à tristeza, à melancolia, e em vos ve­dardes todo divertimento: o espírito fati­gasse e sombreia-se ficando sempre do­brado sobre si mesmo, e com isso torna-se mais acessível à tristeza. Os divertimentos e as distrações são, na vida da alma, o que o tempero é na comida do corpo: precisa­mos saber proporcionar-no-los segundo as nossas necessidades. Quando, pois, sentir­des no vosso coração a aproximação da tristeza, não percais um só momento para vos distrairdes dela; fazei visitas ou procu­rai um recurso em conversas interessan­tes, em leituras variadas; passeai, cantai, fazei seja lá o que for, diz Quadrupani depois de S. Francisco de Sales, contanto que fecheis a porta do coração a esse perigoso inimigo. Santo Agostinho dizia: Amai, e fazei o que quiserdes.


Termino exortando-vos a agirdes com uma santa liberdade cristã nas ocasiões que o exigirem, a reprimirdes em vossa pessoa todo zelo amargo, e em exercerdes um zelo cheio de humildade, de pureza de intenção, de oportunidade e de grande ca­ridade; depois, tornai a piedade amável pela vossa doçura, pela vossa afabilidade, pela vossa modéstia, pelos vossos olhares, sem respeito humano, no mundo. Assim fazendo, amareis a religião, fá-la-eis amar, e atraireis a Jesus Cristo numerosos ado­radores.
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