domingo, 19 de janeiro de 2014

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Sexta carta/ Parte 3

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS
RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus
Versão 19.ª edição francesa

pelo
Pe. Francisco Soares da Cunha


III

Cada um de nós reconhecerá o seu anjo da guarda, e será também reconhecido por ele. – Alegria que disto resultará. – Os santos comparados por Dante com as flores e os anjos, com as faíscas. – Todos os santos comparados a uma rosa somente, e os anjos, às abelhas. – 0 Céu comparado por Jesus Cristo a um banquete. – Troca recíproca entre os anjos e os santos.

As doçuras da santa união formada na Pátria Celeste entre os anjos e os homens, foram-nos desenhados pelos grandes gênios católicos.

S. Tomás de Aquino faz-nos perceber que os anjos põem uma parte da sua felicidade em reinar cada um com o bem-aventurado que lhe foi confiado, em assentar-se no mesmo trono, em cingir-se, por assim dizer, com a mesma coroa e em fazer juntamente com ele um só coração e uma só alma: pois que todo o homem deve ter no Céu um anjo para reinar com ele, ou, no inferno, um demônio para o atormentar – Habebit in regno Angelum conregnantem, in inferno daemonem punientem[1].


S. Boaventura diz-nos que a alegria do anjo aumentará pela bem-aventurança do homem que guardou na terra, não só quanto à extensão, visto que cresce o número daqueles com cuja glória se regozija, mas também quanto à mesma intensidade. É verdade que esta não se deve entender da recompensa essencial, mas somente da acidental. Ela explica-se pelo próprio bem dos anjos, pelo bem das criaturas santificadas que eles amam ternamente, e sobretudo pelo bem daquela que lhes está mais intimamente unida, porque foram os ministros da sua salvação e fizeram por ela milhares de ações boas. Por isso se regozijam e se felicitam[2].

Então efetuam-se, entre o anjo da guarda e o bem-aventurado que ele conduziu,  mistérios de amor que não podemos ver nem compreender enquanto as sombras deste mundo não forem dissipadas pelos esplendores dos Céus. O espírito faz passar, perante o homem, o comovente quadro de todos os seus esforços para contê-lo no bem, e conduzi-lo à perfeição; desenrola na sua presença todo o plano da Providência a respeito da obra da sua salvação. O santo responde ao espírito celeste, testemunhando-lhe mil vezes o seu reconhecimento, recordando a confiança com que se lhe recomendava, assegurando-o de que este feliz passado está sempre na sua memória, e que estas doces lembranças são um perfume que ainda respira com delícias, no meio mesmo das alegrias do Paraíso.

Muitas vezes, nestes amáveis entretenimentos, o anjo e o homem inclinam-se um para o outro, sob o impulso deste sopro divino que se denomina caridade da pátria, e do coração de um para o outro a efusão daquela penetrante alegria, que é semelhante ao orvalho do Céu.

Assim, nos jardins terrenos, vêem-se, sob a ação duma doce brisa, duas flores vizinhas inclinarem-se uma para a outra como para se darem o beijo da paz e confundirem os seus tesouros.

O grande poeta que tão admiravelmente descreveu o Paraíso, tem pois, ainda mais uma vez razão.

Por uma parte, mostra que os homens se conhecem reciprocamente no Céu, quando mesmo se não tenham conhecido na terra. S. Tomás reconhece o seu mestre Alberto Magno; mas conhece também Dionísio Areopagita, Beda e Isidoro. S. Bento reconhece os seus discípulos, e o príncipe dos Apóstolos reconhece S. Tiago; mas o grande abade de Claraval conhece também o pai da humanidade, Adão; e o pai da Igreja, Simão Pedro, com S. João, Santo Agostinho e com muitos outros que não pode conhecer na terra. Por outra parte, os anjos e os homens também se conhecem entre si. S. Bernardo conhece o arcanjo Gabriel, e todos os puros espíritos conhecem a incomparável Virgem Maria, Mãe de Deus[3].

Umas vezes, este poderoso gênio figura-se o Céu como um jardim onde passa um rio de resplandecente luz, entre duas margens matizadas duma admirável primavera. Deste rio de luz saem vivas faíscas, que de todas as partes vão pousar nas flores, semelhantes a rubis engastados em ouro. Depois, como inebriados de perfumes, remergulham-se no brilhante pego, e quando uma aqui entra, sai outra. Estas faíscas são os anjos, e os santos são as flores.

Outras vezes, diríeis que é inspirado pela bênção dessa rosa que nos recorda todas as Jerusalém, e nos convida a figurar pela alegria da Igreja Militante o prazer da Igreja Triunfante[4].

Representa-se o Paraíso como uma rosa branca, exalando um perfume de louvor ao sol que produz uma eterna primavera.

Com efeito, porque os bem-aventurados chegados da terra estão colocados em círculo sobre mais de mil degraus e como este círculo se alonga à medida que os degraus se elevam, esta coordenação faz lembrar a forma da rosa, cujas pétalas aumentam de elevação à medida que se afastam do centro, onde se desabrocham os jaldes([5]) filamentos.

“Eis porque, diz ele, se me mostrava, na forma duma rosa branca, a milícia santa que Jesus Cristo desposou ao derramar o seu sangue.

Mas os anjos que, voando duma para outra parte, não cessam de ver e de cantar a glória do seu Criador, tinham o semblante radioso de chamas, as asas de ouro, e o resto do corpo mais branco do que a neve. Sobre qualquer degrau que pousassem, aí entornavam as doçuras da paz e as chamas do amor. Ora desciam para a grande flor, ornada de tantas folhas, ora subiam para a constante habitação do seu amor, isto é, para o Coração de Deus, bem como um enxame de abelhas que umas vezes se engolfa nas flores, e outras se volve à sua morada onde o seu trabalho se dulcifica”[6].

Senhora, podeis, sem temor, recorrer a estas poéticas imagens, para vos representardes a santa sociedade dos anjos e dos homens.

Quando se trata do Céu e da felicidade que nele se goza, todas as imagens terrenas de que nos sirvamos como termo de comparação nada exageram. Antes, ficam muito abaixo da realidade. Demais, não foi o mesmo divino Mestre que se serviu duma imagem terrena, quando comparou o Céu a um banquete? (Luc., XXII, 29)

Assim como os sete filhos de Job se convidavam alternativamente, cada um em seu dia, para um esplêndido festim (Job, I, 4), também, no Paraíso, os filhos de Deus se convidam uns aos outros para participarem de suas felicidades.

Grande devia ser o amor recíproco dos filhos de Job, para que pusessem em comum todas as suas riquezas; mas quanto não excede o mútuo amor dos anjos e dos santos ao amor fraternal cá na terra!

Qual, pois, não será a magnificência do banquete a que é convidado cada um dos coros dos anjos por cada coro dos santos que, deste vale de lágrimas, subiram às eternas colinas da Pátria!

Belo Céu, delicioso banquete, onde os Querubins e os Serafins fazem circular, como precioso licor e vivificante maná, a manifestação dos segredos divinos, os esplendores das suas contemplações e o ardor e afeto do seu amor; onde os Tronos, as Dominações, os Principados, as Potestades, as Virtudes, os Arcanjos, os Anjos e os homens, patriarcas, confessores e virgens se derramam alternativamente no coração uns dos outros, como numa taça encantada que sempre transborda e sempre conserva o seu conteúdo, o vinho de Deus, o vinho da sabedoria e da pureza, o vinho do reconhecimento e da alegria!

Assim nas sublimidades dos Céus, sob as vistas do Pai de família, todos os seus filhos, não só os puros espíritos, mas também os que estiverem envolvidos num véu de carne, se conhecem, estimam, amam e entretêm numa perpétua comunicação, numa recíproca permutação de glória, de felicidade, de luz e de amor.

Todos estes astros que brilham no firmamento da eternidade, sem nunca temerem o eclipse, cruzam os seus raios e os seus fogos, inundam-se reciprocamente do seu brilho, e parecem nadar num oceano de esplendores.

Todos estes instrumentos animados que não cessam de retinir sob o impulso do divino amor, formam um harmonioso mar, em que as ondas se confundem reciprocamente, as vagas mais fortes se unem às mais fracas para enriquecê-las e fortificá-las, a fim de que os seus movimentos, semelhantes aos das vagas regulares e irresistíveis, invadam, abalem e arrebatem tudo para Deus.



[1] S. Tomás, Summ., I, p., q. 113, art. 4.
[2] S. Boaventura, in lib. II Sentent. Dis XI , art. II. q. 2.
[3] S. Boaventura, in lib. II Sentent., dist. XI, art. II, q. 2.
[4] Inocêncio III, Sermo XVIII, Dominica Laetare sive de Rosa.
[5] Amarelo vivo; cor de ouro.
[6] Dante, Le Paradis, cantos XXX e XXXI.
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