sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Sexta carta/ Parte 1

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS
RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus
Versão 19.ª edição francesa

pelo
Pe. Francisco Soares da Cunha


S E X T A   C A R T A 

O homem conhece os anjos, ou a união dos anjos e dos homens no Céu 

I

Deus renovará o Céu e a terra para que gozemos dos seres materiais. – Comparação de S. Tomás. – Comparação de S. João Crisóstomo. – Quanto mais nos fará ele gozar dos puros espíritos! – No Céu, estaremos colocados entre os anjos. – As crianças formarão como que um décimo coro. – Visão de santa Francisca Romana. 

SENHORA,

Deus não se contenta de nos conceder somente a bem-aventurança essencial, a visão e o gozo do bem incriado, que é Ele mesmo.

Está tão longe de nos recusar a parte da bem-aventurança acidental, que é o conhecimento e o amor dos nossos parentes e amigos, que multiplicará as alegrias e prazeres para os olhos, língua, gosto, olfato, tato e ouvidos; numa palavra, para todos os sentidos do nosso corpo[1]. “Renovará mesmo o Céu e a terra” (Isai. LXV, 17). – (Apoc., XXI, 1) para que gozemos tanto pelos nossos sentidos como pelo nosso espírito, dos seres privados de razão.

“Se os corpos, disse S. Tomás, nada mereceram por si mesmos, mereceu o homem por eles: mereceu que a glória lhes fosse dada, para aumentar a sua própria glória. Assim, quando alguém adquire uma nova dignidade, é justo que os seus vestidos recebam mais belos ornamentos em testemunho da sua nova glória”[2].

S. João Crisóstomo emprega duas outras comparações. “Quando um príncipe real, diz ele, toma posse do trono paterno, a ama que o criou não receberá novos benefícios, novas graças? Ora, as criaturas materiais, são nossas amas. Quando um filho deve aparecer em público revestido de alguma dignidade, não tem o pai cuidado para honrá-lo, de dar a seus criados um vestuário mais esplêndido? Assim também quando o nosso Pai celeste nos apresentar no mundo superior, com a branca toga da virilidade, com as insígnias devidas ao nosso grau, aumentará a nossa glória, revestindo dum brilho incorruptível os seres materiais que são nossos servos”[3].

Quanto mais devem gozar os santos, assim antes como depois da ressurreição bem-aventurada, dos puros espíritos que dominam as outras criaturas, e com os quais temos, por parte da nossa alma, um verdadeiro parentesco? Nós já os amamos e honramos. Mas, além disso, então vê-los-emos e cada um de nós conhecerá o seu amável guarda.

Seremos colocados no Céu entre os coros angélicos, num lugar determinado pelo grau dos nossos merecimentos ou pela natureza das nossas virtudes[4]. O quarto abade de Claraval, pregando de S. Bernardo, no ano de 1163, recordava-o aos religiosos como coisa conhecida de todos, e mostrava-lhes como o seu glorioso predecessor merecia ser provido a todas as ordens ou graus angelicais, pelas qualidades que desenvolvera e pelos ministérios que cumprira[5].

S. Tomás crê que algumas almas bem-aventuradas já têm os seus tronos nas graduações mais elevadas dos espíritos celestes, donde vêem a Deus mais claramente do que os anjos inferiores[6].  Nenhum coro angélico será excetuado; mas todos verão, cedo ou tarde, os tronos vagos pela queda dos espíritos rebeldes ocupados pelos homens.

S. Boaventura partilha esta opinião, e pensa que os bem-aventurados que não chegam em merecimento ao nível dos anjos menos elevados em glória, formam uma décima ordem ou um décimo coro[7].

Neste estão, sem dúvida, colocados os meninos que, arrebatados pela morte, não puderam ajuntar algum merecimento pessoal à graça do seu batismo: anjos benditos a quem suas mães invocam para se consolarem da pena de os não verem mais neste mundo, e que são os protetores de suas famílias.

Portanto, de que mal se tornam culpadas tantas mulheres cristãs que recuam diante das dores do parto ou dos trabalhos da educação! E de que alegrias se não privam elas para sempre, recusando povoar o Céu de pequenos anjos, que viriam saudá-las à sua entrada na glória e formariam eternamente a sua corte?

Enquanto vós, mais feliz, vereis os vossos numerosos filhos, os vossos parentes e todos aqueles que amastes na terra, engrossar as fileiras dos anjos e ornar talvez cada um dos seus coros. Possa esta esperança consolar-vos, como consolou uma outra mãe aflita por causa da morte dos seus!

Numa visão, Santa Francisca Romana viu subir algumas almas bem-aventuradas que iam tomar lugar no grau que Deus lhes assinalara na glória eterna: Todos os coros angélicos que estas almas atravessavam para chegar a uma ordem mais elevada, prodigalizavam-lhes os testemunhos do mais sincero amor e da mais viva alegria.

Sempre assim é. Mas o coro onde a alma novamente chegada ocupa um trono, excede todos os outros em brilhantes felicitações e em transportes de alegria. Entoa um cântico de louvores e ações de graças em honra do Deus de bondade, e prolonga esta doce festa por muito tempo depois dela ter cessado nos outros coros.
Depois desta visão, todas as vezes que a Santa queria exprimir esta alegria dos anjos à chegada das almas bem-aventuradas, com esta admirável união da criatura humana com a criatura angélica, o seu rosto inflamava-se, e toda ela parecia derreter-se como a cera em presença do fogo[8].

Com que alegria não terá sido acolhida, e até que ponto não terá subido a alma da vossa filha que possuía o nome da Rainha dos Anjos, e que foi ela mesma, na terra, um anjo de pureza e dedicação? Todas os dias ela pedia a vossa bênção, e à vista do seu retrato ainda a vossa mão se levanta para a abençoar.
Agora é ela que, todos os dias, faz descer do alto do Céu, as bênçãos que pede para vós ao Senhor, todas aquelas que os santos desejam, bênçãos de sofrimento e de cruz, mas de paciência e de amor ao mesmo tempo. Gozai, pois, da sua felicidade que deve ser a vossa; porque Maria está mais bem colocada no Céu do que na terra, melhor entre os anjos do que entre os homens.




[1] Belarmino, De aeterna felicitate sanctorum, liv. IV, cap. V-VIII – Drexelius, Caelorum Beatorum civitas, liv. II, cap. I-V.
[2] S. Tomás, Summ, supp., q. 91, art. 1, ad. 5.
[3] S. João Crisóstomo, In Rom. Hom. XIV.
[4] Potho, presbítero Prumiense, de Statu domus Dei, liv. IV, cap. XIV. – De Barry, La Dévotion aux anges, cap. III. – Santa Catarina de Senna, Le Dialogue, cap. XLI.
[5] Gaufredo, Sermo in anniversario obitus sancti Bernardi, no. 18-21.
[6] S. Tomás, Summ. 1ª., 2ª., q. 4, art. 5 ad 6.
[7] S. Boaventura, in lib. II Sentent., Dist. IX, art. unic., q. VII. 
[8] Acta Sanctorum, IX, martii, Acta sanctae Franciscae, lib. III, cap. IX, no. 91.
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