sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Quinta carta/ Parte 3

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS
RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus
Versão 19.ª edição francesa

pelo
Pe. Francisco Soares da Cunha


III

Podemos mesmo excitar-nos ou animar-nos pela esperança de nos unirmos a um amigo junto de Deus. – Grandes santos foram sensíveis a esta esperança. – Confissão de S. Francisco Xavier. – União sobrenatural de dois corações. – Gradação no parentesco espiritual das almas. – Fraternidade inteiramente espiritual e de escolha.

Podeis ainda ir mais longe. Depois de vos terdes primeiramente consolado, de alguma sorte, pela firme esperança de que a vossa amiga oraria mais eficazmente por vós, se fosse a primeira a subir ao Céu, regozijar-vos-eis também de ali vos reunirdes a ela com o pensamento, e lhe direis: Estaremos um dia reunidas no Paraíso, sim, reunidas junto de Deus: quanto mais nos amaremos então!

Mas talvez se encontre alguém que tente repelir violentamente todos estes sentimentos dum coração amoroso, dirigindo-vos esta censura: “Quê! animar a vossa coragem e excitar-vos a sustentar generosamente os combates deste mundo, em parte pela esperança de vos repousardes no Céu sobre o coração das pessoas que amais, não será uma clara e grosseira imperfeição?”

Respondei que os maiores santos foram sensíveis, ainda mais do que vós, a esta esperança, e que desejavam gozar, ainda na eternidade, dos castos abraços de seus amigos. O apóstolo das Índias e do Japão confirma isto mesmo por sua confissão, feita ao fundador da Companhia de Jesus.

“Dizeis, escrevia S. Francisco Xavier a Santo Inácio, no excesso da vossa amizade por mim, que desejaríeis ardentemente ver-me ainda uma vez antes de morrer. Ah! só Deus, que vê o interior dos nossos corações, sabe quão viva e profunda impressão causou em minha alma este doce testemunho do vosso amor para comigo. Cada vez que me lembro dele, e isto acontece muitas vezes, involuntárias lágrimas me rebentam dos olhos; e se a deliciosa idéia de que poderia abraçar-vos ainda uma vez, se apresenta ao meu espírito (porque, por mais difícil que isto pareça à primeira vista, não é coisa que a santa obediência não possa efetuar), encontro-me num instante surpreendido por uma torrente de lágrimas que nada pode fazer parar”[1].

“Peço a Deus que se nos não pudermos tornar a ver na terra, gozemos unidos, na feliz eternidade, do repouso que se não pode encontrar na vida presente[2]. E efetivamente, não nos tornaremos a ver na terra senão por meio de cartas; mas, no Céu, ah! será face a face! E então, como nos abraçaremos!”.[3]

Com efeito, quem poderá descrever os transportes de alegria que dois amigos experimentarão, um pelo outro, no Céu, depois de se terem mutuamente excitado à perfeição, e de terem verificado estas palavras da Escritura: “O amigo fiel é um remédio que dá a vida e a imortalidade, e aqueles que temem o Senhor encontram um tal amigo” (Eccl., VI, 16).

Escutai, sobre esta amizade dos santos, um autor que merece ser citado ainda uma vez:

“Dominado, neste mundo o nosso coração pelas sensíveis impressões, e não julgando o mais das vezes senão por elas, nem sempre se dá conta exata das delícias desta união sobrenatural das almas. Admite-as pela fé, mas são-lhe mistério; mostra-se-lhe ordinariamente insensível, porque as não compreende. Algumas vezes, contudo, desprende-se do oceano da divina graça um como raio que, rompendo a nuvem dos sentidos, vem iluminar certas almas privilegiadas e dar-lhes um ante-gosto destas inefáveis uniões que são, à vista das da natureza, o que seria um perfume emanado do Céu ao pé dos mais esquisitos perfumes da terra.
Vê-se algumas vezes, e mesmo não é raro, na vida dos santos, uma alma unida a outra por uma destas misteriosas atrações, fortes e serenas, que admiram e confundem a natureza. A alma que assim ama, vê na sua amiga uma companheira duma beleza inexplicável, cujos espirituais encantos ela aprecia como tipo divino, em conformidade do qual fora feita. Vê nela a imagem de Deus, e só esta imagem; emprega todos os meios, ofertas, sacrifícios e orações, para que ela se torne cada vez mais semelhante ao modelo, para assim aumentar a sua amabilidade e amá-la ainda mais. São como duas irmãs, saídas à luz no mesmo dia, do lado de Jesus no Calvário, pelos mais dolorosos sofrimentos.

No Céu, este parentesco espiritual terá uma graduação análoga à da natureza: uma hierarquia de pais, de filhos, de irmãos e de irmãs. “Os bem-aventurados verão um pai em todo o homem que, pela efusão do seu sangue, de seus suores e orações, os tiver, de perto ou de longe, gerado em Jesus Cristo; e este homem contará tantos filhos muito amados quantas as almas que tiver lucrado para o seu Deus.

Oh! quanto será bela esta paternidade! Quão ricos e preciosos serão os tesouros da sua fecundidade!

O cego mundo apieda-se destas almas sobre-humanas que, calcando aos pés os atrativos e as seduções da natureza, renunciam às alegrias mais legítimas da família;  e não vê que, em troco do seu sacrifício, Deus as dotará com uma outra família, que lhes fará gozar duma felicidade e de consolação incomparavelmente mais doces do que jamais sentiu alguma mãe da terra.

Um dia seremos testemunhas disto, e veremos quanto estas almas eram mais dignas de inveja do que de compaixão.  Assim, a glória terá a sua doce fraternidade, formada entre duas ou mais almas por vínculos próprios e pessoais. Esta especial fraternidade nascerá primeiramente dessas ligações que uma comunidade de deveres, de regras e de práticas, forma entre todos os filhos do mesmo pai ou da mesma mãe espiritual.

Nascerá, em segundo lugar, daquelas cadeias mais particulares que uma comunhão de boas obras e de orações forma por si entre duas almas, unidas uma à outra por um atrativo comum para com Deus: simpatia de todo o ponto celeste, afeição inteiramente divina de dois corações, dando-se o ponto de reunião no Coração de Jesus, cioso da perfeição um do outro, e pondo todo o ardor do seu zelo em procurá-la e aumentá-la”[4].

Tendes admirado, Senhora, tendes abençoado esta fraternidade inteiramente especial, esta doce e santa amizade, unindo sob a vossa vista maternal, duas almas que pareciam ser-vos igualmente queridas, e que honravam a Virgem das Virgens mais ainda imitando a sua piedade do que possuindo o seu nome.
Agora que uma delas, vossa filha por natureza, subiu ao Céu, a outra ficou junto de vós como filha por adoção. A sua presença é-vos deliciosa, como muitas vezes me dissestes, porque credes encontrar nela a vossa filha muito querida. Encontrá-las-eis unidas no Paraíso, encontrá-las-eis continuando a santa intimidade da sua recíproca afeição, encontrá-las-eis, finalmente, rivalizando para convosco em respeito e amor.

A vossa própria felicidade aumentará muito à vista desta venturosa união.




[1] Lettres de saint François Xavier, traduzidas por A. M. F., t. II, p. 203, carta XCIII no. 3.
[2] Ibid., t. I, p. 161, carta XLIII, no. 4.
[3] Ibid., p. 8, carta II, no. 1.
[4] Marcos, Le Ciel, apêndice, IIIa. questão.
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