quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - QUARTA CARTA / III - Parte

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS
RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus
Versão 19.ª edição francesa

pelo
Pe. Francisco Soares da Cunha


QUARTA CARTA

III

Conformidade de sentimento e de linguagem em todos os lugares. – S. Cipriano. – S. Teodoro Estudita. – Elogio que faz de sua mãe. – Cartas de consolação que ele escreve. – Pura alegria dos esposos no Céu. – Santa Francisca Romana e seu filho Evangelista. – Alegria dos pais e dos filhos no Paraíso.


Mas esquecia-me de que prometera percorrer todo o horizonte da Igreja, para vos mostrar a sua conformidade de sentimentos e de linguagem sobre todos os pontos.

Na África, eis S. Cipriano que foi educado no paganismo, e só abraçou a continência depois da sua conversão. Eleito Bispo de Cartago e condenado ao martírio, consolou os fiéis por ocasião duma epidemia que então grassava e que os ameaçava de morte. Que lhes disse ele? Dirigiu-lhes palavras que a Santa Igreja recorda aos seus sacerdotes, na oitava da festa de Todos os Santos. Ei-las:


“Visto que vivemos na terra como estrangeiros e viajantes, suspiremos pelo dia que nos conduzirá à nossa habitação e nos reintegrará no Reino dos Céus. Qual é aquele que, estando exilado, não se apressaria a voltar à sua pátria?

Qual é aquele que, obrigado a regressar por mar aos lares pátrios, não desejaria ardentemente um vento favorável, a fim de poder mais cedo abraçar aqueles que lhe são queridos?

A nossa pátria é o Paraíso, e os patriarcas, nossos antepassados, já aí nos precederam. Apressemo-nos, pois, e corramos para ver a nossa pátria e saudar os nossos maiores! Somos esperados por um grande número de pessoas que nos são queridas; somos desejados por uma grande multidão de parentes, de irmãos e de filhos que, seguros da sua imortalidade, se conservam ainda solícitos pela nossa salvação. Ir vê-los, ir abraçá-los, ah! que alegria para nós e para eles![1]

Entre os gregos, em Constantinopla, um dos campeões mais intrépidos da ortodoxia contra os iconoclastas do Oriente, S. Teodoro Estudita, tinha entrado em religião na idade de vinte e dois anos, sob a direção dum tio materno, a quem sucedeu no governo. Teve a ventura de fazer, na presença de todos os religiosos, o elogio fúnebre de sua mãe, panegírico que o cardeal Mai traduziu e publicou, elogio que um coração amoroso não pode ler sem uma profunda comoção. Apenas soube que a sua enfermidade era mortal, escreveu-lhe uma carta afetuosa e consoladora, em que chegou a dizer:

“Ó minha mãe, se me retivessem somente cadeias de ferro, o amor que vos consagro as quebraria, e teríeis a alegria de me ver ainda. Mas, vós o sabeis, outros vínculos me retêm, vínculos que era indigno de gozar; e posso somente fazer-me representar junto de vós, por alguém que vos é agradável e querido”[2].

No elogio que dela fez, diz que esta mãe, verdadeiramente cristã, ia todas as noites, quando seus filhos estavam deitados, fazer sobre eles o sinal da cruz; conta como ela levou após de si para a vida religiosa seu marido, três filhos, uma filha e três cunhados; diz com que docilidade ela foi mais tarde submissa a ele próprio.

Teodoro termina a exposição das admiráveis virtudes desta heróica mulher, por este brado dum coração ternamente filial:

“Oh, minha mãe e minha filha, oh vós que fostes duas vezes minha mãe, quanto desejo tornar-vos a ver! Vós habitais com todos os santos, no meio das solenidades e das alegrias do Céu; habitais com os nossos irmãos que tanto amáveis nesta vida. Ah! não vos esqueçais de mim que sou o mais pequeno de vossos filhos; mas orai, orai por mim com mais instância do que em tempo algum. Dirigi-me, fortalecei-me e preservai-me de todos os perigos do pecado. Visitai-me por uma presença espiritual – Spiritali praesentia visita – e fazei ainda por mim o que fazíeis na minha infância: conduzi, observai como me levanto, como me deito, observai as agitações da minha alma e do meu corpo, a fim de que, depois da presente vida, obtenha estar com meus discípulos debaixo da vossa proteção, e ocupar  um lugar convosco à direita de Jesus Cristo nosso Deus”[3].

Este ilustre confessor da fé consolou muitas famílias aflitas. A um pai que tinha perdido todos os seus filhos, escrevia:

“Vossos filhos não estão perdidos, mas antes existem sãos e salvos para vós; e quando chegardes ao termo desta vida temporal, torná-los-eis a ver cheios da mais pura e santa alegria”[4].

Também escrevia a uma viúva:

“O Deus que vos tirou do nada para dar-vos a existência, o Deus que vos conduziu a uma idade florescente para vos unir a um homem ilustre, saberá unir-vos ainda outra vez a ele pela ressurreição. Olhai, pois, a sua partida como uma viagem. Não vos resignaríeis se um rei da terra a ordenasse? Resignai-vos, portanto, com esta ausência, pois muito bem sabeis que aquele que ordenou esta viagem é o verdadeiro Rei, o único Rei do universo.  Exorto-vos a isso, e espero que possuireis novamente vosso marido no dia do Senhor”[5].

A um homem que acabava de perder sua mulher dirigiu também as seguintes linhas:

“Foi para junto de Deus que enviastes uma tão digna esposa; não será isto bastante para vossa consolação? E que é o que deveis procurar agora? Deveis trabalhar para encontrar no Céu, no momento fixado pela Providência, esta excelente companheira que se regozijará convosco, por todos os séculos, na participação de bens inefáveis”[6].

Sem dúvida, aqueles que na terra se acharem ligados pelo vínculo matrimonial, subindo ao Céu, serão como os anjos: Neque nubent, neque nubentur (Matth. XXII, 30). Mas, despidos de toda a sensualidade, gozarão sempre do casto prazer do espírito, e se recordarão que, na terra, não só foram dois corações num e duas almas numa, como os primeiros cristãos (Act., VI, 32), mas também uma só carne, como os nossos primeiros pais (Gen., II, 24; - Matth., XIX, 6).

Na Itália, Santa Francisca Romana foi casada, teve filhos e, depois de viúva, fez-se religiosa.

Despertando do sono ao romper da aurora de certo dia, levantava seu coração para Deus, e abaixava os olhos para sua jovem filha que dormia perto dela. De repente, viu o seu quarto cheio duma nova luz, no meio da qual apareceu um de seus filhos que, havia um ano, tinha falecido. A sua estatura e todo o seu exterior era o mesmo que quando vivo; mas a sua beleza era incomparavelmente mais arrebatadora: chamava-se Evangelista.

Este filho, sempre amoroso, aproximou-se de sua mãe, e saudou-a com profundo respeito e uma graça encantadora.

Que fez então Francisca, transportada duma inexplicável alegria? O que toda a mãe teria feito: estendeu ávidos os braços para estreitar ainda uma vez contra o peito este filho querido. E que lhe disse? O Céu é a lembrança de tua mãe: Num matris suae meminisset in coelis.

– “Ó minha mãe, respondeu Evangelista, vede se penso em vós e se vos amo! Não divisais um outro menino, de pé, a meu lado, duma beleza muito superior à minha? É meu companheiro no coro dos arcanjos, pois o meu lugar no Céu é no segundo coro da hierarquia angélica. Todavia, este arcanjo está colocado na glória em grau superior ao meu, e contudo, Deus vo-lo dá. Deus vai deixa-lo ocupar junto de vós o meu lugar e o de minha irmã Inês que, muito brevemente, voará ao Paraíso, para aqui gozar comigo das alegrias eternas. Este celestial espírito vos consolará na vossa peregrinação, vos acompanhará assiduamente e permanecerá dia e noite ao vosso lado, de maneira que o possais ver com os vossos próprios olhos”.

Este colóquio durou por espaço de uma hora; e, antes de se ausentar, o filho pediu a sua mãe licença para regressar ao Céu, deixando-lhe o arcanjo[7].

Se já lestes a vida de Santa Francisca Romana, composta por um nobre e zeloso católico da vossa província, não podeis ignorar o importante papel que desempenhou junto desta santa mulher, o arcanjo, este celestial companheiro, devido às orações dum filho que a precedera na pátria dos escolhidos[8].

Deus é sempre admirável em seus santos (Ps. LXVII, 36). O que acabais de ver, mostra que o não é menos pela delicadeza das consolações de que inunda o seu coração, do que pela grandeza das provas ou dos milagres de que se serve para os conduzir à perfeição ou para fazer brilhar a sua santidade. Em volta deles, disse um orador francês, que foi confessor de Henrique IV, em volta deles estarão seus parentes, seus amigos, seus aliados e todos aqueles que lhes forem iguais em glória: todos, muito nobres, muito santos, muito sábios, muito opulentos, muito afáveis, muito eminentes, muito agradáveis de condição, de excelente temperamento, de belas maneiras, de inteligência, de coração, de discrição e de todas as virtudes; todos, lírios sem más ervas, rosas sem espinhos, ouro sem liga, grão sem palha e trigo sem joio!

E, ainda que o seu número seja grande, todos se conhecem reciprocamente, e conversam com tanta familiaridade como se o seu número fosse pequeno.

Então o filho agradecerá a seu pai a sã instrução que lhe tiver procurado, e a filha a sua mãe os bons exemplos que lhe tiver dado. Deus vos recompensa, minha muito querida e digna mãe, dirá a filha, Deus vos inunda para sempre de felicidade por tantos cuidados, que tivestes de mim! Sois minha mãe e duplamente minha mãe; porque me destes a vida temporal e a eterna. Foi por meio de vós que a divina bondade me tornou tão feliz.

– Bendito seja Deus, minha filha, bendita sejas tu nele para sempre! A tua bem-aventurança é um apanágio da minha, e esta é uma adição da tua; amemos o Senhor e louvemo-lo incessantemente. Felizes as entranhas que te geraram e o seio que te amamentou, e um milhão de vezes bendito ainda mais Aquele de quem possuímos todas as coisas! Glória a Ele, honra, luz e bênção em todos os séculos dos séculos[9].

Eis aqui, Senhora, a conversa que tereis, eis a felicidade que gozareis tantas vezes quantos filhos tiverdes.

Todavia, Deus não se contentará somente com vos consolar pelas alegrias da família que recomporá no Céu; mas ainda multiplicará vossas consolações pelas doçuras da amizade que ali transplantará.



[1] S. Cipriano, De Mortalitate, in fine. – Brev.
[2] S. Teodoro Estudita, Epist. lib. I, epist. VI.
[3] Ibid., Epist., lib. I, ep. 29, Leoni  orphanotropho
[4] Ibid., Oratio, XII, Laudatio funebris in matrem suam, no. 14
[5] Ibid., Epist. 1, II. Ep. 110. Uxori Demochari.
[6] Ibid., 1. II, ep. 186, Nicethoe  spathario.
[7] Acta sanctorum, IX martii, Vita Sanctae Franciscae, cap. III, nos. 21,22, 23.
[8] Vie de Sainte Françoise Romaine, pelo visconde Bussiére, cap. VI
[9] Sermons sur lês principales et plus difficiles matières de la foi, pelo r. P. Cotou, da Companhia de Jesus, confessor e pregador ordinário do rei, reduzidos por ele mesmo à forma de meditações. – Rouen, 1926, Du Paradis, meditação XXIa.
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