segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Quinta carta/ Parte 1

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS
RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus
Versão 19.ª edição francesa

pelo
Pe. Francisco Soares da Cunha


Q U I N T A   C A R T A

Reconhecimento dos amigos ou a amizade no Céu


I

Todos os santos se têm comprazido no pensamento de reconhecer e amar ainda no Céu os seus amigos. – Sentimentos do B. Etelredo. – Palavras do P. Rapin. – Santo Ambrósio. – O Santo Cura d'Ars. 

SENHORA,

Além do estreito círculo da família, pode a amizade estender a vasta esfera das nossas afeições.

O Homem-Deus quis ter amigos na terra, e dignou-se reuni-los em volta de Si no Céu. A Seu exemplo, os mais santos personagens deixaram dilatar o amor de seu coração; todos tiveram amigos escolhidos entre mil, e todos se têm regozijado com o pensamento de os reconhecerem e amarem ainda na eterna glória.


Também escreveram admiráveis páginas a respeito da verdadeira e perfeita amizade, que é toda espiritual. 

Apenas vos citarei uma que diz particular respeito ao nosso assunto. É do bem-aventurado Etelredo ou Aelredo, contemporâneo de S. Bernardo e abade da ordem dos Cistercienses, na Inglaterra. É uma conversa com um amigo.

Aelredo. Suponhamos que não haja neste mundo pessoa alguma além de vós, e que todas as delícias, com todas as riquezas do universo, estejam à vossa disposição, ouro, prata, pedras preciosas, cidades muradas, acampamentos fortificados por torres, grandes edifícios, esculturas e pinturas. Suponhamos ainda que estejais restabelecido no antigo estado, e que todas as criaturas vos sejam submissas como ao primeiro homem. Pergunto-vos: Todas estas coisas poderiam ser-vos agradáveis sem um companheiro?

Gualter. Não, por certo.

Aelredo. Mas se tivésseis somente um companheiro cuja língua ignorásseis, cujos costumes desconhecêsseis, e cujo coração e espírito vos fossem ocultos?

Gualter. Se, por qualquer sinal, eu não pudesse saber se sim ou não ele era meu verdadeiro amigo, desejaria antes estar só do que ter um tal companheiro.

Aelredo. Mas se houvesse alguém a quem amásseis como a vós mesmo e que vos amasse também do mesmo modo, sem que nenhum de vós o pudesse duvidar, todas as coisas que até ali vos apareciam amargas não se vos tornariam doces e suaves?

Gualter. Sim, certamente.

Aelredo. Não será ainda verdade que quanto maior fosse o número de tais amigos, mais feliz vos julgaríeis?

Gualter. É muito verdade.

Aelredo. Eis precisamente a grande e admirável felicidade que esperamos gozar no Céu. Deus operará, Deus derramará, entre si e a criatura que tiver elevado ao Paraíso, entre os graus, ou ordens que tiver distinguido, entre todos os predestinados que tiver escolhido, uma tão grande amizade, uma tão grande caridade, que se amarão reciprocamente como a si mesmos. Resultará deste mútuo amor o regozijar-se cada um com a felicidade do próximo tanto como com a sua própria. Assim a felicidade de cada um será comum a todos, e a soma destas bem-aventuranças, será própria a cada um.

Ali nenhum pensamento será oculto, ali nenhuma afeição se dissimulará, tal é a eterna e verdadeira amizade que tem princípio na terra e se completa no Céu; que na terra pertence a um pequeno número, porque também aqui são poucos os bons, mas que no Céu pertence a todos, porque todos ali são bons.

Neste mundo é necessário experimentar nossos amigos, porque os sábios estão misturados com os tolos; no Céu não há necessidade de se ser provado, porque todos gozam duma perfeição angélica e quase divina.

Procuremos, pois, encontrar semelhantes amigos, que nos amem e a quem amemos como a nós mesmos, que nos descubram todos os seus segredos, e a quem descubramos todos os nossos, que sejam firmes, estáveis e constantes em todas as coisas.

Com efeito, pensais vós que se encontre alguém entre os mortais que não queira ser assim amado?

Gualter. Não creio.

Aelredo. Se vísseis alguém, vivendo no meio dum grande número de homens e tendo-os a todos por suspeitos, temendo-os mesmo como se quisessem atentar contra a sua vida, não amando pessoa alguma e crendo não ser amado por ninguém, não o consideraríeis o mais desgraçado de todos?

Gualter. Sem dúvida.

Aelredo. Não negareis, pois, que o mais feliz será aquele que habita e repousa no coração daqueles entre os quais vive, que os ama a todos e que é igualmente amado, sem que esta suavíssima tranqüilidade seja diminuída pela suspeita ou repelida pelo temor.

Gualter. Muito bem, certissimamente.

Aelredo. Se é difícil que todos obtenham esta felicidade no presente, ao menos o futuro no-la reserva; e julgar-nos-emos tanto mais felizes no Céu, quanto maior for o número de semelhantes amigos que tivermos na terra.

Antes de ontem passeava eu em volta do mosteiro, enquanto meus irmãos reunidos e assentados formavam a mais amável companhia, e como se estivera no meio das delícias do Paraíso, admirava as folhas, as flores e os frutos destas místicas árvores. Não divisando nesta multidão pessoa alguma que não amasse, e de quem não tivesse a segurança de ser amado, fiquei inundado duma tão grande alegria que excedia a todos os prazeres deste mundo. Sentia o meu coração entornar-se em todos, e os corações de todos entornarem-se em mim, de sorte que dizia com o Profeta:

“Oh! como é bom; oh! como é agradável viver unidos como irmãos (Ps. CXX11, 1)”[1].

Estes sentimentos do bem-aventurado Aelredo justificam estas palavras de um autor mais moderno:

“Ah! se eu tivera expressões assaz ternas e fortes para descrever a doçura das castas e espirituais amizades que terão lugar no Céu, onde não se amará senão pelo espírito, e para explicar todas as santas ternuras, que os bem-aventurados terão uns para com os outros, e as comunicações amorosas em que os impuros vapores da carne e todo o comércio vergonhoso dos sentidos não terão parte; que prazeres e que delícias não faria eu sentir às almas puras que só aspiram ao gozo destas celestes afeições, que farão uma das grandes felicidades da outra vida, porque estarão misturadas com o gozo do mesmo Deus, e com as inefáveis doçuras de seus divinos abrasamentos! Que poderá aqui haver de delicioso aos sentidos que mereça ser comparado a estes prazeres? Se uma amizade sincera, honesta, fiel e inocente faz muitas vezes a doçura desta vida, que fruto se não tirará destas espirituais amizades, que se praticarão no Céu, acompanhadas de todas estas circunstâncias? E se um amigo seguro e fiel pode, na terra, tornar um outro amigo feliz, qual será a felicidade da vida eterna, onde todos os bem-aventurados serão verdadeiros amigos?”[2].

Ora, uma das alegrias destes verdadeiros amigos será reconhecerem-se na Igreja Triunfante, assim como na Igreja Militante é também uma das suas alegrias vazarem o coração no seio uns dos outros.

Assim pensava Santo Ambrósio, quando comentava estas palavras de Nosso Senhor: “Vós sóis meus amigos, porque vos revelei tudo o que aprendi de meu Pai” (Joan., XV. 15).

“Por estas palavras, diz ele, deu-nos, o Salvador, a forma da amizade que devemos seguir. É necessário que revelemos ao nosso amigo todos os segredos que se encerram no nosso coração, e que não ignoremos também os seus. Abramos-lhe, pois, o nosso coração, e que ele nos abra igualmente o seu.

Um amigo nada tem de oculto. Se ele é sincero, patenteia o seu espírito, como Jesus patenteava os mistérios de seu Pai”[3].

Assim pensava esse humilde e santo padre de nossos dias, que foi um grande apóstolo sem sair da sua pobre aldeia onde a multidão o visitava quando vivo e o visita ainda depois da sua morte. Eis aqui algumas das suas consoladoras frases:

Com quem estaremos no Paraíso? Com Deus que é nosso Pai, com Jesus Cristo que é nosso Irmão, com a Santíssima Virgem que é nossa Mãe, com os anjos e os santos que são nossos amigos. Um rei dizia com bastante pesar em seus últimos momentos:

“É necessário, pois, que eu deixe o meu reino a fim de ir para um país onde não conheço ninguém!

É que ele nunca tinha pensado na felicidade do Céu. É preciso desde já arranjarmos verdadeiros amigos, a fim de os tornarmos a encontrar depois da morte; e não teremos receio, como este rei, de não conhecermos ninguém”[4].

Não disse o próprio Salvador:

“Empregai as riquezas injustas em obter amigos, a fim de que, quando morrerdes, eles vos recebam nos eternos tabernáculos?” (Luc. XVI. 9).




[1] B. Aelredus, De spiritali amicitia, lib. 111.
[2] P. Rapin, La Vie des prédestinés dans la B. Eternité, cap. IX
[3] Santo Ambrósio, De Officiis, liv. III, cap. XXII, no. 135.
[4] O Santo cura d’Ars, Vie de J. B. Marie Vianney, por Alfredo Monuin, liv. IV, cap. XV, homilia para a última dominga do ano.
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