segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Sétima carta/ Parte 2

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS
RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus
Versão 19.ª edição francesa

pelo
Pe. Francisco Soares da Cunha


II

A esperança de nos reconhecermos no Céu é um alivio para a dor. – Exemplo e palavras de Fénelon. – É-nos útil entretermo-nos com os nossos virtuosos e queridos defuntos. – Podemos até invocá-los. – Prática de S. Francisco Xavier, de S. Luís Bertrand, de M. Emery. – As almas do Purgatório pedem por nós. 

Poucos homens têm sido tão sensíveis à perda dos seus amigos, como o amável Arcebispo de Cambrai. Eis uma prova disto nas suas próprias palavras:

“Seria tentado a desejar que todos os bons amigos esperassem para morrerem juntos no mesmo dia. Aqueles que não amam pessoa alguma quereriam enterrar todo o gênero humano com os olhos secos e o coração alegre; tais pessoas, porém, não são dignas de viver. Custa muito ser sensível à amizade; mas aqueles que têm esta sensibilidade envergonhar-se-iam se a não tivessem; desejam antes sofrer do que serem insensíveis”[1].


Vede, todavia, como ele sabia aliviar a sua própria aflição, consolando as pessoas mais angustiadas. Por ocasião da morte do duque de Beauvilliers, seu amigo, escrevia à duquesa:

“Só os nossos sentidos e a nossa imaginação perderam o objeto do nosso amor. Aquele que já não podemos ver, está conosco mais do que nunca. Encontramo-lo incessantemente no nosso centro comum. Ele vê-nos aí, e lá mesmo nos procura os verdadeiros socorros. Conhece melhor, onde está agora, as nossas enfermidades, do que nós mesmos, ele que já não tem nenhuma; e procura os remédios próprios e necessários para a nossa cura. Quanto a mim, eu, que estava privado de o ver desde há tantos anos, falo-lhe, abro-lhe o meu coração e creio encontrá-lo na presença de Deus; e ainda que o tenha chorado amargamente, não posso todavia acreditar que o perdesse. Oh! quanta realidade nesta íntima sociedade!”[2].

Fénelon escrevia ainda à viúva do duque de Chevreuse:

“Unamo-nos de coração àquele que choramos; ele não se ausentou de nós pelo fato de se tornar invisível. Vê-nos, ama-nos e comove-se das nossas necessidades. Chegado felizmente ao porto, ora por nós, que ainda estamos expostos ao naufrágio. E diz-nos com uma voz secreta: Apressai-vos a unirmo-nos. Os puros espíritos vêem, ouvem, e amam sempre os seus verdadeiros amigos no seu centro comum. A sua amizade é imortal, como a fonte donde nasce. Os incrédulos só amam a si mesmos; do contrário, deveriam desesperar-se de perderem para sempre os seus amigos; mas a amizade divina torna a sociedade visível numa sociedade de pura fé; chora, mas consola-se na esperança de tornar a reunir seus amigos no país da verdade, e no seio do próprio Amor”[3].

Que coisa mais adequada à sustentação da piedade do que estas afetuosas e íntimas relações, que podem estabelecer-se entre nós e os nossos queridos defuntos, desde que nos é permitido esperar que, tendo morrido na graça de Deus, não se lembram menos de nós do que nós deles! Sem dúvida, gozar da presença do Senhor e entreter-nos com Ele, mesmo nesta vida mortal, é o que nutre mais a nossa piedade. Todavia, conversar, tratar e entretermo-nos com os santos do Céu, por longo tempo e repetidas vezes, sempre que nos agrade, não será um meio poderoso de nos santificar e consolar ao mesmo tempo?  Deste modo, não participamos, de alguma sorte, do privilégio dos anjos que têm contínuas relações e a mais doce familiaridade com todos os santos?

A lembrança dum amigo virtuoso e fiel que possuamos neste mundo, basta muitas vezes para afugentarmos de nós, com os desgostos e tristezas, as tentações, os desesperos e todos os maus pensamentos. Quanto mais eficazes e salutares devem ser para a nossa alma a conversação e convivência destes parentes e amigos que vêem o Senhor face a face e gozam da sua glória!

Um piedoso autor, o P. de Barry, aconselha-nos a que invoquemos aqueles que a Igreja não designa ao nosso culto, mas que tiveram uma vida santa neste mundo, ou pelo menos uma boa morte, sobretudo, se o seu amor por nós foi agradável ao Senhor. Fazei, diz ele, o catálogo dos seus nomes, e uma vez por ano, ou antes, uma vez por semana, percorrei-o, invocando aqueles que nele estão inscritos. Isto fará que desejeis com mais ardor encontrar no Céu a feliz sociedade daqueles que vos eram unidos na terra.

E quão grande será a alegria do vosso coração quando obtiverdes de Deus, por sua intercessão, o que durante muito tempo debalde tiverdes solicitado! Pois não duvido que, por seu intermédio, algumas vezes sejamos ouvidos.

Se eles nos amavam durante a sua vida e não ousavam repelir as nossas súplicas, que não farão agora, visto que o seu amor se tornou mais ardente e estão em grande honra junto de Deus!

S. Francisco Xavier invocava muitas vezes os religiosos da Companhia de Jesus que tinham passado a melhor vida. Recorria a todos aqueles que tinha conhecido e com os quais vivera; recomendava-lhes as suas empresas, considerava-os como seus protetores na corte celeste, e confessava que suas orações lhe eram duma freqüente utilidade.

S. Luís Bertrand, dominicano, compôs um catálogo com os nomes dos seus mais queridos amigos, que julgava estarem já de posse da eterna bem-aventurança, e invocava-os muitas vezes nas suas necessidades[4].

Um livro que saiu à luz neste corrente ano de 1862, fornece-nos outro exemplo muito semelhante. Na Vida de M. Émery, nosso superior de S. Sulpício, lê-se, a respeito dos antigos padres desta Companhia que mais o tinham edificado por suas virtudes:

“Em muitos de seus retiros, tomou a resolução de redigir, segundo o mapa das sepulturas do seminário, uma nota que lhe recordasse os dias do falecimento daqueles santos padres por quem tinha mais devoção, a fim de invocá-los nos mesmos dias com fervor, e de render graças a Deus pela eminente santidade a que os elevara”[5].

Podeis fazer sobre esta piedosa prática a seguinte objeção: Acaso estarão no Céu os meus parentes e amigos? Estarão eles no Purgatório?

É verdade que a Igreja não tem declarado onde eles estão. Mas a oração não se desencaminha, e, entre o grande número dos que assim invocardes, alguns devem ter já certamente chegado ao porto da felicidade.

Muitos e graves teólogos são de parecer que as almas do Purgatório podem orar por nós; porque não são de pior condição do que os pecadores, inimigos de Deus. Estão mesmo confirmadas na graça e amizade do Senhor, têm a perfeição do amor, recordam-se de tudo o que nos devem, e podem conhecer as nossas orações pelos seus anjos da guarda.

E por que não orariam elas a Deus por nós, visto que vêm algumas vezes pedir-nos por si mesmas, como aconteceu com Santa Brígida a quem seu marido apareceu, pedindo-lhe que fizesse celebrar missas e distribuísse esmolas por sua alma?[6]

Santa Catarina de Bolonha invocava freqüentemente as almas do Purgatório, e dizia que tinha obtido de Deus, por sua intercessão, os maiores e mais numerosos benefícios. “Muitas vezes mesmo, acrescentava ela, o que não tinha podido obter durante muito tempo, pelas orações dos santos do Céu, consegui-o depois que recorri a estas almas padecentes”[7].



[1] Histoire de Fénelon, pelo cardeal de Bauset, liv. VIII, morte do duque de Chevreuse.
[2] Correspondance de Fénelon, no. 340.
[3] Histoire de Fénelon, par de Bausset, liv. VII, morte do duque de Chevreuse.
[4] P. de Barry, Sanctum faedus cum sanctis caeli civibus, cap. V.
[5] Vie de M. Émery, 1ª. P., no. 52, t. I, p. 195.
[6] Révélations de sainte Brigitte, liv. Des Révélations extraor., cap. LVI.
[7] P. de Barry, Sanctum faedus, cap. VI – Acta sanctorum, die 9 martii. Vita, auctore Grassetti, cap. XII, no. 118
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