terça-feira, 21 de janeiro de 2014

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Sétima carta/ Parte 3

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS
RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus
Versão 19.ª edição francesa

pelo
Pe. Francisco Soares da Cunha


III

O reconhecimento no Céu é um estímulo para o zelo. – Zelo para o alívio de nossos queridos defuntos. – Zelo para conversão dos pecadores. – Zelo para a nossa própria santificação. – O Céu começa no tempo e continua na eternidade. A glória só fará desenvolver o gérmen da graça. – Nós saberemos tudo o que alguma pessoa fizer em nosso beneficio, e a nossa felicidade, como a sua, será por isso maior. – Cada florão da coroa duma mãe será uma alegria a mais para todos os seus filhos. 

Finalmente, que a esperança de torná-los a ver no Céu, de reconhecê-los e de serdes por eles reconhecida, reanime o vosso zelo e vos faça trabalhar com mais ardor no alívio destas pobres almas, na conversão dos pecadores e na vossa própria santificação.

As almas do Purgatório são tão reconhecidas, que as pessoas que as têm aliviado, têm recebido provas da sua gratidão, antes de se lhes reunirem na bem-aventurança. Foi mesmo concedido muitas vezes a Santa Gertrudes, mui zelosa em aliviar as almas do Purgatório, ver, durante a sua vida, e mesmo entreter-se com aquelas que havia socorrido[1].


Um dia, depois da comunhão, Gertrudes oferecia a adorável Hóstia pelo eterno descanso das almas de todos os parentes dos membros da sua comunidade. Apenas tinha acabado de fazer este precioso oferecimento, quando viu sair das trevas um grande número de almas, semelhantes a faíscas ou estrelas:

“Senhor, exclamou ela, esta multidão de almas é só de nossos parentes?”

– Sou eu mesmo, respondeu o Senhor, o mais próximo de vossos parentes: sou vosso pai, vosso irmão e vosso esposo. Todos aqueles que são especialmente meus, tornam-se, portanto, vossos parentes e aliados, e quero que eles tenham parte nos frutos das orações que fazeis pelos vossos parentes”[2].

Continuai, pois, Senhora, a orar por vosso marido, por vossos filhos e por todos os vossos parentes que já acabaram a sua peregrinação na terra. Se as suas almas, como espero, estiverem já em lugar de refrigério, de luz e de paz, as vossas orações aliviarão outros membros da família de Jesus Cristo, retirando-os das chamas expiatórias para introduzi-los na infinita bem-aventurança.

Mas não limiteis aos mortos o vosso zelo; que seja católico ou universal, como a Igreja.

Quantos pecadores e infiéis, entre os vivos, cujo regresso para Deus podeis apressar por meio dos vossos cuidados, orações, esmolas e de todos os vossos merecimentos! Tende compaixão da sua miséria; porque são cegos, levados à destruição de todo o amor pela mesma desordem de suas mentirosas afeições.

A ninguém se aplica tanto, como aos condenados, o que S. Paulo dizia dos pagãos: “Nenhuma afeição há neles – Sine affectione” (Rom., I, 31).

Se é verdade que o princípio natural das nossas afeições subsiste no inferno, só o devemos entender assim quando ele é mau ou separado de Jesus Cristo. Desta forma, só produz frutos muito amargos e um ódio eterno onde parecia haver um grande amor.

Mas reconduzindo a seu Pastor as ovelhas desgarradas, e ao Pai de família os filhos pródigos, preparareis no Céu a vós mesma um círculo de ternos e reconhecidos amigos, que permitirão se vos apliquem estas palavras do profeta: “Erguei os olhos e correi a vista em volta de vós; todos estes que se acham aqui reunidos são vossos. Sereis deles revestida como dum ornamento; sereis rodeada por eles como uma esposa ou uma mãe o é por seus filhos, ainda que os não tenhais gerado segundo a natureza.” (Is., XLIX, 18. – LIV, l . )

Àqueles que tiverdes convertido, podereis mesmo dizer com o Apóstolo:

“Vós sois meus filhos muito amados, meus irmãos desejados, minha alegria e minha coroa.” (Gal., IV, 19 - Philip. IV, 1)

Ao pensar, ao ver antecipadamente esta coroa de alegria que encontrareis no Paraíso, quando chegar o tempo de deixardes este triste lugar de desterro, tereis a consolação de dizer a vós mesma: Vou reunir-me àqueles que enviei para a Pátria, vou vê-los e reconhecê-los, vou gozar dos testemunhos da sua gratidão e do seu amor.

Podereis mesmo dizer àqueles que deixardes na terra o que o divino Mestre dizia a seus discípulos:

“Vou preparar-vos o lugar para que habiteis comigo” (Joan. XVI, 2, 3); “Dentro em pouco já me não vereis, mas bem depressa me tornareis a ver, porque vou para junto do meu Pai. Também em breve tempo vos tornarei a ver, e o vosso coração se regozijará, e ninguém vos tirará a vossa alegria” (Joan., XVI, 26, 22).

Esta alegria de vos tornarem a ver, Senhora, será tanto maior naqueles que vos conheceram, quanto mais tiverdes trabalhado na vossa santificação pessoal. Quando nos esforçamos por santificar-nos, o Céu começa para nós no tempo para continuar na eternidade.

Assim como a planta se despoja sucessivamente de seus grossos invólucros, até a haste saída do tronco se coroar duma bela flor, assim pelo seu trabalho santificador, a alma se despoja de tudo o que tinha de mais terrestre, e se transforma, pouco a pouco, em Jesus Cristo, que se compara na Escritura à rosa dos campos, ao lírio dos vales (Cant., II, 1). Para ela, o Céu começa pelo louvável desenvolvimento das suas faculdades, e acabará pela sua completa dilatação.

Porque, mesmo no Paraíso, não seremos preguiçosos, mas ativos. Teremos sempre alguma coisa que aprender, pois que Deus é um fundo inesgotável, e nunca seremos capazes do infinito.

Para termos alguma idéia do que a glória causará então numa alma, bastaria, pois, estudar e conhecer o que a graça produz agora na mesma, tirado o sofrimento e a luta, que já não existirá. Toda a luz e amor que a graça produz em nós, não será o gérmen que a glória desenvolverá? Ora, o que a graça nos dá presentemente para iluminar os nossos espíritos e inflamar os nossos corações, é imenso e incalculável.

Imenso e incalculável também será o eterno peso de glória de que nos fala S. Paulo (II Cor., IV, 17), isto é, o aumento de esplendor e caridade que nos merecem, a paciência em nossas provações, a atividade para o bem, o zelo pela salvação das almas e o cuidado do nosso progresso espiritual.

E assim como os condenados serão punidos por onde tiverem pecado (Sap., XI, 17), também os bem-aventurados serão recompensados por onde tiverem merecido.

Toda a mãe que se santifica educando seus filhos, receberá neles um aumento de recompensa eterna.

Todo o filho que diz para consigo: Faço este sacrifício para honrar meus pais, para que Deus abençoe meu pai e minha mãe, prepara-lhes, e prepara a si mesmo, um aumento de eterna felicidade.

Com efeito, não será somente em conjunto, se assim posso falar, que reconheceremos no Céu aqueles que nos foram queridos; conhecê-los-emos até por miúdo, saberemos o que muitas vezes ignoramos na terra, saberemos tudo o que eles fizeram ou sofreram por nós; veremos a recompensa que por isto o Senhor lhes concede, e este espetáculo assim como este conhecimento, será uma das nossas alegrias durante a eternidade.

Que este pensamento vos console de todos os esforços que tendes feito, de todas as fadigas que tendes suportado para santificar vossos filhos, santificando-vos também. Que aumento de recompensa não recebereis disto na glória!

Todos os escolhidos que vos amaram na terra, o contemplarão e dele se regozijarão em vós. Não será assim que consideraremos a auréola das virgens, dos mártires e dos doutores, e que, considerando-a, nos regozijaremos com aqueles doutores, mártires e virgens que tivemos a felicidade de conhecer e amar?

A especial coroa que vos espera, será como a auréola da vossa maternidade cristã. Será devida a todos os santos desejos, a todos os piedosos cuidados, a todas as dores íntimas, ignoradas na terra por aqueles que foram o seu objeto ou causa, mas que reconhecerão no reino do Céu, pois cada um destes desejos, destes cuidados e destas dores terá produzido um florão da imortal coroa que brilhará sobre a vossa cabeça. Os vossos filhos admirarão esta coroa, contarão todos os seus florões, e serão por isso eternamente mais felizes.

Para vos excitar a adquirir ainda mais merecimentos ou direitos à eterna recompensa, que doce e poderoso incentivo não tendes vós, pois, no vivo desejo de irdes, para aumentar a sua glória com a vossa, reunir no Céu todos aqueles que mais tendes amado, ou vê-los aí subir triunfantes para junto de vós!

Mas o Senhor dignar-se-á deixar-vos ainda por muito tempo no meio de nós, tanto para felicidade de vossos filhos e de vossos netos, como para edificação de todos os fiéis.

Tal é, pelo menos, o voto, tal é á súplica.

SENHORA, 
Do vosso muito humilde e dedicado servo, 
                        F.  Blot
Strasburgo, 15 de Agosto de 1862.



[1] Les Insinuations de la divine piété, liv. V. Cap. XV, XVI, XVII, XVIII, XXIV.
[2] Ib., id., cap. XX.
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