sábado, 28 de dezembro de 2013

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA - CAPITULO VIII CONFISSÕES E COMUNHÕES DOS ESCRUPULOSOS

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA
PELO
ABADE GRIMES
1854


CAPITULO VIII
CONFISSÕES E COMUNHÕES DOS ESCRUPULOSOS

Sob este título, não queremos falar das dificuldades, das penas, dos temores que eles experimentam nas suas confissões e comunhões; já falamos disto mais acima, e ainda falaremos noutro lugar. Aqui se trata das confissões e das comunhões mais ou menos frequentes a permitir ou a pres­crever aos escrupulosos. Deve-se fazê-los comungar amiúde? deve-se fazê-los confessar-se frequentemente?


Não se pode repetir demasiado, primei­ramente que as práticas de piedade de­vem sempre harmonizar-se com as obri­gações de cada um, com a posição, a ida­de, o engenho, a cultura de espírito que lhe é própria; de tal sorte que a frequên­cia dos sacramentos ou os exercícios es­pirituais não impeçam o penitente de cumprir os deveres do seu estado, de fa­zer as suas práticas de piedade de maneira conveniente, e sirvam ao seu progresso e à sua consolação segundo as diversas ne­cessidades de sua alma. Cumpre, também, em regulando o presente, pensar no fu­turo, e não fazer abraçar coisas de mais, a fim de poder o penitente perseverar.

A frequência da confissão depende ne­cessariamente das circunstâncias indivi­duais. Em geral, as pessoas que comun­gam de oito em oito dias, ou mesmo vá­rias vezes na semana, habitualmente se confessam de oito em oito dias; há outras, entretanto, que, ou por vivacidade natu­ral, ou por violência das paixões, ou por obstáculos mais numerosos, ou por dificul­dades de conservarem a pureza de cora­ção, precisam confessar-se mais vezes. Não obstante, é para desejar que elas se acos­tumem, pouco a pouco, a caminhar sozinhas, e a ser bastante firmes para só se confessarem uma vez na semana. Os verdadeiros escrupulosos, os que são inces­santemente roídos pela apreensão, ora de­vem ser admitidos a uma confissão mais frequente, ora não devem sê-lo. Ao con­fessor é que compete julgá-lo. Deve este considerar as faltas que eles acusam ordinariamente. Se são verdadeiros pecados veniais caracterizados, ele deve ouvi-los; se são faltas que não são formalmente pecados veniais, se são censuras vagas, inquietações, não deve ele ouvi-las senão uma vez por semana, no máximo, ainda mesmo quando eles comungassem várias vezes na semana. Geralmente, há muitos inconvenientes em que um escrupuloso in­sista muitas vezes sobre essas espécies de faltas ou de pretensas faltas.


Quanto às comunhões, é preciso primeiro seguir as regras de São Francisco de Sales no tocante à comunhão frequente. Isen­ção de pecado mortal, ausência de afeto ao pecado venial, grande e ardente desejo para a comunhão de oito dias. Para a co­munhão de cada dia, ou de vários dias na semana, é preciso, além disso, haver vencido a maioria das más inclinações do coração. Eis aí de acordo com que regras é preciso comportar-se. Mas, quanto às repugnâncias dos escrupulosos de boa fé, quanto àqueles que o demônio quereria afastar desse foco sagrado de fervor, de força e de vida, não se deve escutá-los. A resistência deles para se aproximarem muitas vezes não deve levar o confessor à condescender com o seu desejo. Pelo contrário, eles têm mais necessidade que qualquer outro desse maná celeste para lhes sustentar o ânimo, para lhes desper­tar a piedade e lhes consolar o coração. Sem esse divino alimento, eles definhariam, cairiam em desfalecimento, e su­cumbiriam inteiramente. 

É preciso tranquilizá-los, acalmá-los, e, não raro, forçá-los a aproximar-se da divina Eucaristia; porquanto são precisamente esses esmore­cidos, esses fracos, esses doentes que o Pai de família quer fazer entrar como que à força na sala do seu festim; e o que prova que a comunhão é um dos melhores remédios contra os escrúpulos é que, ordinariamente, os escrupulosos nunca ficam mais tranquilos do que no dia em que comungam. Mister se faz, pois, resguar­dar-se bem de lhes secundar a repugnân­cia, e de escutar os pretextos que eles adu­zem para se absterem da comunhão: quanto mais o espírito deles for distraído e volúvel, tanto mais necessário é dar-lhe esse freio; quanto mais árido for o coração deles, tanto mais necessidade tem de ser regado por essa graça divina. Eles não deixarão de alegar, e é este o fantasma que mais os espanta, o pouco fruto que tiram da comunhão. Mas pode-se-lhes opor a resposta de São João Crisóstomo: “Não será porque as vossas comunhões ainda são muito raras?” Aliás, quem é que não sabe que os efeitos da comunhão nem sempre são, ou só são mesmo bem raramente, sensíveis? Os sentimentos que se produzem na alma nem sempre se assi­nalam exteriormente por impressões sobre os sentidos. Deus assim o permite para nos reter na humildade e na aplicação. Pode-se, pois, tirar grande proveito da co­munhão sem o perceber, sem o sentir. Finalmente, pode-se-lhes dizer que a hu­mildade que leva a pessoa a se crer indig­na desse augusto sacramento não é um dos menores efeitos da comunhão. Pode-se, pois, ordenar-lhes participarem com fre­quência do festim eucarístico.
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