quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Terceira carta / Parte II

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS
RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus
Versão 19.ª edição francesa

pelo
Pe. Francisco Soares da Cunha


II

Com a ciência cresce no Céu o amor. – Aumento deste mesmo amor. – Palavras de S. Bernardo em diferentes ocasiões. – Doutrina de S. Tomás de Aquino. – Revelação feita a Santa Catarina de Sena. - Harmonia do conhecimento e do amor. - Nem inveja nem ciúme, mas completa resignação.


Ora, no Céu, com a ciência cresce a caridade, o amor.

Assim como o Sol nos envia num só e mesmo raio duas coisas ao mesmo tempo: a luz e o calor; assim também este mútuo conhecimento que Deus permite aos seus escolhidos, é sempre acompanhado de amor. E da mesma forma que se tornariam mais abrasados, à medida que se aproximassem da chama; assim também, quanto mais se aproximam deste grande Deus que é um fogo consumidor (Deut., IV, 24), tanto mais amam e são amados.


A caridade nunca se extingue, diz o Apóstolo, (I Cor., XIII, 8); e este amor infinito, abraça a Deus em sua unidade, a nós mesmos e ao próximo.

E efetivamente não existem duas ou três virtudes da caridade, mas só uma. Se, pois, o amor do justo sobe com ele ao Céu depois da sua morte, se brilha mesmo com um esplendor mais radioso sobre o imaculado horizonte da bem-aventurada eternidade, como um astro que, elevando-se, aumenta os seus esplendores, por que razão deixaria este justo de inflamar-se também em caridade para com todos aqueles que amou santamente na terra? Por que motivo, quando é maior o seu amor para com Deus, e para consigo mesmo, não seria maior também para com o seu próximo?

O santo abade de Claraval chorou a perda de seu irmão Gerardo com uma ternura maravilhosa. Um de seus sermões sobre o Cântico dos Cânticos, não é mais do que uma oração fúnebre a respeito deste irmão querido. Que diz ele sobre este ponto? Atendei e consolai-vos:

“Quanto mais se estiver unido a Deus, mais cresce o amor. Ora, se Deus não pode sofrer, pode condoer-se; porque ter piedade dos desgraçados e perdoar aos culpados, é próprio da sua infinita misericórdia. É forçoso, pois, meu irmão, que estejais comovido das misérias do próximo, visto que estais tão intimamente unido à divina misericórdia. Assim a vossa afeição por nós, longe de diminuir, chegou, pelo contrário, à sua perfeição; e tendo-vos revestido de Deus, não vos despojastes da vossa solicitude para conosco, visto que o mesmo Deus tem cuidado de nós (1 Petr. V, 7). Ter-vos-eis despojado de tudo o que era fraqueza, mas nunca da piedade ou compaixão. Enfim, visto que a caridade não morre, vós nunca me olvidareis.” [1]

Baseado neste motivo do amor para com o próximo, o abade de Claraval dirigia-se a S. Malaquias nos termos seguintes: “Longe de nós o pensamento de que a vossa caridade, tão ativa na terra, esteja, não digo esgotada, mas somente diminuída, quando vos achais junto da mesma nascente da eterna caridade, tirando dela a longos tragos aquilo de que anteriormente tínheis sede e que só podíeis beber gota a gota! O amor nunca pode ceder à morte, pois que é mais forte do que ela”[2].

O santo abade dizia a respeito de outro seu amigo:

“Ele era meu em quanto vivia, será meu depois da sua morte, e reconhecê-lo-ei por meu na pátria celeste – Meum in patria recognoscam[3].

Num sermão de S. Vítor, mostrava-o tão cheio de solicitude por nós como de segurança a seu respeito; “porque, dizia ele, não é numa terra de esquecimento que habita a alma de Vítor. Porventura a celeste habitação endurece as almas que recebe, ou priva-as da memória, ou despoja-as da piedade? Meus irmãos, a amplidão do Céu dilata os corações e não os restringe, dilata os espíritos e não os dissipa, não diminui as afeições, mas aumenta-as. Na eterna luz, a memória é aclarada e não obscurecida, aprende-se o que se ignora e não se esquece o que se sabe – discitur quod nescitur, non quod scitur dediscitur.” [4].

O doutor angélico, S. Tomás de Aquino, diz que os bem-aventurados se amam entre si tanto mais quanto maior é a sua união com Deus; entretanto, na terra nos amamos mais ou menos, segundo a maior ou menor união entre nós, pelas diferentes relações que nos são necessárias ou permitidas. Todavia, ainda que no Céu não tenhamos de prover às necessidades uns dos outros, cada um conservará uma afeição especial por aqueles que lhe foram unidos, e continuará a amá-los com mais particularidade, ou por motivo de parentesco, de amizade, de aliança, de benefícios concedidos ou recebidos, por serem patrícios ou da mesma vocação. Porque nenhum motivo de pura afeição deixará de operar sobre o coração dum bem-aventurado – Non enim cessabunt ab animo beati honestae dilectionis causae.[5]

O próprio Deus dizia a Santa Catarina de Sena: “Ainda que todos os meus escolhidos estejam indissoluvelmente unidos por uma perfeita caridade, todavia, entre aqueles que se amavam reciprocamente neste mundo, reina uma singular comunicação e uma alegre e santa familiaridade. Por este mútuo amor se esforçavam por crescer na minha graça, caminhando de virtude em virtude; por ele, um era para o outro um meio de salvação; por ele, todos se auxiliavam reciprocamente em me glorificar em si mesmos e no seu próximo. Assim, este santo amor nada diminui entre eles na vida eterna; pelo contrário, ocasiona-lhes muito maior alegria e contentamento espiritual”[6].

Sem esta admirável harmonia do conhecimento e do amor, o Céu seria triste. Acendei nele o facho da ciência sem a fornalha da caridade, e os ciúmes estenderão suas redes, como na terra.

Fazei do amor um cego correndo nas trevas em procura do seu objeto, e vê-lo-eis, dentro em pouco, vítima dos mais sombrios pesares.

Sem o amor, nada faria contrapeso à desigualdade, porque deixaríamos de possuir no próximo o que não temos em nós mesmos.

Sem a luz, nada nos consolaria do desgraçado fim dum ente querido, infiel ao comparecimento no ponto determinado para a reunião, porque não se veriam já os decretos da eterna justiça, nem a marcha da amável Providência.

Mas, unir à perfeição da ciência a perfeição da caridade é excluir do Céu os ciúmes do egoísmo e os amargos pesares.

Os santos gozam do que têm, e não se afligem do que não têm. Aqueles mesmos que passaram uma parte da sua vida no pecado, nem por isso gozam menos duma pura alegria e duma completa felicidade, ainda mesmo que o seu grau de glória seja inferior.

O grande Bispo de Hipona dizia às virgens: “A multidão que vos vir seguir o Cordeiro, sem poder acompanhar-vos, não terá ciúme. Tomando parte na vossa alegria, ela terá em vós o que não tem em si mesma – collaectando vobis, quod in se non habet, habebit in vobis.  Sem dúvida, ela não poderá entoar o novo cântico, que só vos é próprio (Apoc. XIV, 3, 4); mas poderá ouvi-lo e regozijar-se com a vossa imensa felicidade”[7].

Dizia ainda:

“Na mesma bem-aventurança, nenhum daqueles que tiver um grau mais inferior terá inveja dos que estiveram colocados numa ordem mais superior, assim como os anjos não têm ciúme dos arcanjos. Ninguém quererá ser mais do que aquilo para que Deus o fez, assim como em nosso corpo o olho não pode invejar a sorte do dedo. A todo aquele que recebeu dons menores, dá Deus a graça de os não ambicionar maiores”[8].

Se vos repugna consultar, sobre esta matéria, os sérios e mui importantes livros dos doutores, lançai mãos da Divina Comédia, e lede uma página deste poema, que vos agradará, por isso mesmo que tem nele grande parte a teologia.

Na sua graciosa viagem ao Paraíso, o autor perguntava a uma alma que encontrou no mais ínfimo grau, se ela não desejava subir mais acima para mais ver e mais amar.

“Irmão, respondeu ela, há uma virtude de caridade que modera o nosso querer e que, fazendo que queiramos somente o que temos, nos impede de desejar outra qualquer coisa. É mesmo essencial à nossa bem-aventurada existência manter-se cada qual na vontade divina, de maneira que todas as nossas vontades não façam mais do que uma.

Que sejamos distribuídas em graduações diversas neste reino, é uma disposição que agrada a todo ele, assim como ao Rei que absorve o nosso querer no seu. Na sua vontade está a nossa paz. A sua vontade é este mar para o qual se move não só o que ela diretamente criou, mas também o que a natureza produz.

Conheci então, conclui o poeta, que todo o lugar no Céu é Paraíso, ainda que a graça do Soberano Bem se não derrame por toda a parte com a mesma intensidade”[9].





[1] S. Bernardo, in Cant. Serm. XXVI, no. 3.
[2] Ibid., Epístola 374, no. 2.
[3] Ibid., Epístola 65, no. 2
[4] In Natali sancti Victoris, sermo II, nº 1
[5] S. Tomás, Summ. 2. 2, q. 26, art. 13
[6] Sainte Catherine de Siene, Le Dialogue, cap. XLI.
[7] Santo Agostinho, De Sancta Virginitate, cap. XXIX
[8] Ibid., De Civitate Dei, lib. XXIII, cap. XXX, no. 2.
[9] Dante, Paradiso, cant. III.
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