domingo, 29 de dezembro de 2013

O Combate Espiritual por Dom Lorenzo Scúpoli – Capítulo I

Por um indigno escravo de Nosso Senhor

“Então, meu filho, fortalece-te na graça do Cristo Jesus. O que ouviste de mim na presença de numerosas testemunhas, transmite-o a pessoas de confiança, que sejam capazes de ensinar a outros. Como bom soldado do Cristo Jesus, assume a tua parte de sofrimento.

Ninguém que esteja engajado
no serviço das armas se embaraça nos negócios da vida civil,
se deseja agradar a quem o alistou. Igualmente o atleta, na luta esportiva,
só recebe a coroa, se lutar segundo as regras.”

(II Tm 2 : 1-5)
EM QUE CONSISTE A PERFEIÇÃO CRISTÃ; O QUE É NECESSÁRIO COMBATER PARA ADQUIRI-LA; E AS QUATRO COISAS NECESSÁRIAS NESTE COMBATE

Se quereis, ó alma cristã, atingir o auge  da perfeição, vos unir estreitamente a Deus, e vir a ser um mesmo espírito com Ele, é necessário para a conclusão bem sucedida desse projeto (o maior e mais nobre que se possa imaginar) que saibamos antes em que consiste a verdadeira e perfeita espiritualidade. Porque muitos, sem cuidar de outra coisa, a fazem consistir no rigor da vida, na mortificação da carne, nos cilícios, nos jejuns e outras asperezas semelhantes e trabalhos corporais. Outros, em particular as mulheres, entendem que já tem muito adiantado o caminho para perfeição quando rezam muitas orações, participam de muitas missas e longos Ofícios Divinos, e frequentemente visitam às igrejas e se aproximam do santo Altar para comungar. Muitos outros (entre os quais talvez alguns, que revestidos de hábito religioso) imaginam que a perfeição depende plenamente de frequentar o Coro, do silêncio, da solidão e da observância da disciplina regular.
E assim todos crêem que ou nestas ou em outras semelhantes ações é fundada a Perfeição da vida espiritual; mas é certo que eles se enganam. De fato,  as obras exteriores são, algumas vezes, meios de adquirir o espírito, outras vezes são fruto do mesmo espírito, mas não podemos dizer que nelas só consiste a perfeição cristã e a verdadeira espiritualidade.
Não há dúvida que são meios muito poderosos para adquirir a santidade; aplicados com sabedoria e discrição, eles servem maravilhosamente para nos fortificar contra a malícia e a fragilidade de nossa natureza, para se armar contra os ataques e enganos de nossos comuns inimigos e para obter de Deus os socorros espirituais necessários aos justos, principalmente àqueles que começam.
Nas pessoas verdadeiramente espirituais, as quais castigam o corpo, esses atos são pois frutos do espírito, porque tendo ofendido o seu Criador, fazem-nos como punição de suas revoltas passadas e para terem os seus corpos sujeitos e humilhados ao seu santo serviço; e assim elas vivem solitárias  e no silêncio para evitar as menores faltas e não ter conversas além das que tem com os céus;  se ocupam ao culto divino e nas obras de piedade; elas oram, e meditam a Vida e a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, não por curiosidade nem por amor às consolações sensíveis, mas no desejo de melhor conhecer sua própria malícia e a infinita misericórdia de Deus, e para inflamar cada dia mais seus corações no amor divino; e no desprezo e ódio de si mesmos, vencem suas próprias paixões e seguem as pisadas do filho de Deus, levando também sua Cruz às costas; frequentam os santos sacramentos com o único propósito de honrar a Majestade de Deus, de se unir mais estreitamente a Ele e de se fortificar contra as tentações do inimigo.
Porém, estas obras exteriores podem ser talvez, ocasião de maior precipício que os pecados conhecidos, para aqueles que poem  todo o edifício de sua perfeição nestas ações exteriores. Pois apesar destas obras serem santas, o seu “mau uso” pode ser ocasião da sua própria ruína, ou seja, preocupados unicamente com as práticas da devoção, abandonam seu coração às inclinações da natureza e às armadilhas do demônio. O espírito maligno, vendo então que já estão descuidados do caminho direito, deixa-os não só continuar naqueles exercícios, mas ainda os deixa vaguear , segundo sua errada imaginação, entre as delícias do paraíso, onde acreditam desfrutar, na companhia dos anjos, da presença do próprio Deus; de modo que quando se acham absortos em  meditações cheias de pensamentos sublimes, curiosos e agradáveis, e esquecendo o mundo e as criaturas, imaginam terem sido transportados até o terceiro céu.
Mas se um pouco examinamos sua conduta, vemos imediatamente que em muitos erros estão envolvidos, e como estão longe da perfeição  que procuramos. Porque estes em qualquer coisa grande ou pequena querem ser preferidos aos outros; fascinados por seu mérito e obstinados em sua maneira de ver; cegos para suas próprias falhas, eles sempre têm seus olhos abertos para as ações dos outros para controlar e censurar.
Que se alguém os toca, ainda que levemente, na vã estimação que eles fazem de si e na opinião em que querem ser tidos pelos outros, ou os quer tirar daquelas devoções, nos quais de costume se ocupam, todos se alteram e se inquietam demasiadamente.
E se Deus, para os levar ao verdadeiro conhecimento de si mesmos e ao caminho da perfeição, lhes dá trabalhos, ou doenças, ou permite perseguições (as quais nunca vem sem sua Vontade, sem seu querer ou permitir, e são a verdadeira pedra de tocar da fidelidade de seus servos), isso tudo é para que descubram o mal que tem no fundo de seus corações e o interior corrupto tomado pela soberba, porque tanto nas provações como nos eventos felizes da vida, eles não sabem o que é se resignar a Vontade de Deus, se humilhar perante sua mão poderosa, se submeter a seus justos e empenetráveis julgamentos, e nem se sujeitar a todas as criaturas como ao exemplo de seu humilhado e atribulado Filho, que amou seus perseguidores. Estes são os instrumentos da Bondade Divina que cooperam à mortificação, perfeição e salvação deles mesmos. Dai vem que estes tais estão expostos à grande perigo de se perderem, porque tendo a vista interior ofuscada pelo amor-próprio e vendo nada de louvável além deles mesmos e suas ações, imaginam-se em estágio avançado no caminho da perfeição e cheios de soberba julgam aos outros, e assim não há quem os possa converter, somente um milagre da graça.
A experiência esta ai para provar que é mais fácil trazer ao bom caminho um pecador declarado que um pecador que se disfarça e se cobre com um manto de virtudes aparentes.
Compreendes agora, alma cristã, que a vida espiritual não consiste das práticas exteriores que acabamos de falar. E em que consiste então? Ela consiste no reconhecimento da  bondade e grandeza de Deus e do nada a que se reduz o nosso ser humano, do amor do Senhor e o ódio a nós mesmos, da submissão do espírito a Deus e às criaturas por amor de Deus, da abnegação completa de nossa vontade e nossa inteira resignação a seus decretos soberanos. E façamos tudo isto pura e simplesmente pela glória de Deus e por Ele pedir e merecer ser amado e servido.
Esta é a lei do amor impressa pela mão do mesmo Senhor no coração se seus servos fiéis. Esta é a abnegação que ele requer de nós. Este é o seu jugo suave e o fardo leve que ele nos convida a tomar sobre nossas costas. Esta é a obediência que ele nos ensina por sua palavra e seu exemplo. Se então desejas chegar ao auge da perfeição, deves fazer uma contínua violência a si mesma, para domar generosamente e aniquilar todas as más afeições de seu coração, mesmo as que lhe pareçam ser pequenas. É necessário preparar-se com toda a prontidão de ânimo para este Combate, porque  a coroa da vitória se dá  somente aos soldados de valor.
Considere que lutar contra si mesmo, tomando a si mesmo como um adversário, é o ponto de guerra mais rude a combater, e que se é alcançada  uma vitória, ela será a mais frutuosa e mais agradável aos olhos de Deus. Porque se  tiverem coragem de meter debaixo dos pés e vencer todos os desordenados desejos, más inclinações e os menores movimentos da vontade, agradareis mais a Deus, e lhe fareis muito maior serviço do que lhe faríeis, se conservando ainda alguma delas, vos acoitásseis até correr sangue, e jejuásseis mais do que fizeram os antigos Ermitões e Anacoretas do deserto,  ou mesmo que se convertêsseis ao bem milhares e milhares de almas.
De fato, ainda que Deus estime e queira mais a conversão das almas que a mortificação de um pequeno apetite, permanece verdadeiro que vosso principal cuidado deve ser de querer e de fazer aquilo que Deus deseja  particularmente de vós. (vontade de Deus = sua santificação, cf. I Ts 4:3)
Ele sem dúvida estima muito mais que  ponhais cuidado e trabalheis em mortificar vossas paixões, que se faça a mais importantes das obras em aparência que realizaríeis com um coração dominado pela paixão.
Agora que sabes em que consiste a perfeição cristã e que para adquiri-la haveis de entrar em uma contínua e dura guerra contra si próprio, saibais que para isso tendes necessidade de se munir de quatro coisas, como de armas muito seguras e muito necessárias para a vitória, e assim ficar vencedora neste Combate Espiritual. Esta são:
  • Desconfiança de nós mesmos;
  • Confiança em Deus;
  • O bom uso de nossas faculdades;
  • O exercício da oração.
Das quais tentaremos, com a graça de Deus, falar de maneira clara e sucinta, nos próximos capítulos.
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