segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Primeira carta / Parte IV

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS
RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus
Versão 19.ª edição francesa

pelo
Pe. Francisco Soares da Cunha


I V

Porque Deus só basta aos escolhidos, seguir-se-á que terão a Deus unicamente? – A sua liberalidade em todas as ordens conhecidas prova qual seja a mesma na ordem da glória. – É falso que nos esqueçamos no Céu ou que sejamos insensíveis à felicidade de nos tornarmos a ver. – Palavras de S. Francisco de Sales sobre este mútuo reconhecimento e sobre a alegria que dele resulta. 


Disseram-vos ainda:

“Só Deus é suficiente aos escolhidos!

Sem dúvida, deixando-se ver e possuir por nós, só Deus seria bastante para nos tornar a todos felizes. Mas que se pode concluir daqui?

Se bastava a si mesmo desde toda a eternidade, direis vós que nada criou no tempo e que nós não existimos? O menor sofrimento do Redentor bastava para nos salvar a todos: negareis Sua Paixão e Sua Morte?


A Sua Divindade é suficiente a si mesma: credes que ela não tenha cuidado algum da Sua humanidade?

Descei desta ordem toda divina até à ordem da graça e da mesma natureza, e contai todos os socorros que nos são oferecidos para santificar nossas almas, todas as iguarias que nos são dadas para nutrir nosso corpo, contai todas as flores que ornam a terra e todos os astros que brilham no firmamento, e dizei se o Senhor se contentou de criar para nós o suficiente, ou se passou muito além dele.

E querer-se-ia que na ordem da glória, quando houver de recompensar os Seus fiéis servos, os Seus apóstolos, os Seus mártires, os Seus pontífices, os Seus confessores e as Suas virgens, se limitasse a dar-lhes estritamente o necessário!

Não, não. Deus mostrar-se-á ainda mais generoso e mais pródigo para com os santos do Céu do que para com os justos da terra.

Vemos e sabemos o que fez para nós na ordem da natureza e da graça; mas o grande Apóstolo nos afirma que os nossos ouvidos nada ouviram, e que o nosso coração nada conjeturou que seja comparável ao que Deus prepara, na ordem da glória, àqueles que O amam (1 Cor., II, 9).

Pela graça possuímos a Deus neste mundo, e será verdade que aquele que tem a graça não necessita de mais coisa alguma?

É certo, pelo contrário, que tem ainda necessidade de exortações e de bons exemplos, da intercessão dos santos, da participação dos sacramentos, de mortificações e de orações para conservar e aumentar esta graça.

Assim, no outro mundo, sem que isto seja então para nós uma necessidade, mas porque desejará encher-nos inteiramente de seus dons, o mesmo Deus, que só por si bastaria para a nossa felicidade essencial, se dignará aumentá-la acidentalmente pela sociedade das santas almas que tivermos conhecido e ternamente amado na terra.

E do mesmo modo que, em tudo o que nos dá segundo a natureza ou segundo a graça, é Ele que se nos comunica por diferentes maneiras e em muitos graus; assim, também na bem-aventurança será ainda Ele, sempre Ele, que se dará a nós por meio de todas as criaturas glorificadas, as quais nos permitirá contemplar e admirar, reconhecer e amar.

Não temais, Senhora, que as almas se esqueçam mutuamente no Céu, ou que sejam insensíveis a tudo que não for Deus.

A caridade nunca pode ser indiferente nem insensível. Por isso mesmo que as ama, o Criador é sensível a tudo o que diz respeito às suas criaturas.

Nosso Senhor é sensível à presença de sua Mãe, e Maria não é indiferente à glória da  humanidade de Jesus.

Se nós devêssemos ser insensíveis à felicidade de tornarmos a encontrar no Paraíso as pessoas mais queridas, a nossa alma devia ser indiferente à ressurreição do seu próprio corpo: e assim caducariam muitos argumentos empregados pelos teólogos para provarem a ressurreição da carne.

No Céu seremos capazes de tudo conhecer ao mesmo tempo, com amor, e de tudo sentir com alegria, sem que um conhecimento ou um sentimento seja nocivo a outro.

Sentiremos tão vivamente como na terra o amor para com nossos parentes e nossos amigos, ainda que o nosso amor para com Deus seja então incomparavelmente mais ardente e mais sentido.

Nunca estaremos absorvidos em Deus a tal ponto que nos esqueçamos de tudo que não for Ele. Mas, como se tem dito, os amigos, os irmãos, os parentes, se reconhecerão, conversarão e se lembrarão de suas lágrimas, de seus combates e de suas tribulações; porque esta vida momentânea lega à vida infinita uma eterna lembrança e infindas gratulações.

A vista e o pensamento das criaturas não farão um só momento olvidar o Criador; a vista e o amor do Criador não impedirão de ver e de amar as criaturas. Unidas e distintas, todas estas alegrias, todos estes louvores e todos estes amores se fundirão no louvor e amor de Deus, e formarão em Sua glória um concerto único, sempre variado, sempre o mesmo, o aleluia eterno[1].”

Deixai, Senhora, deixai nutrir vosso coração desta doce esperança, e permiti-me que acrescente a esta ainda mais algumas linhas que vos tranqüilizarão. São estas de S. Francisco de Sales, explicando a transformação de Jesus Cristo sobre o Tabor, que foi como uma reprodução do Céu (Math. XVIII, 1-9): “Todos os bem-aventurados se conhecerão mutuamente por seus nomes, como nos afirma o Evangelho de hoje. Pedro viu ainda Moisés e Elias que nunca tinha visto, os quais conheceu perfeitamente, tendo o primeiro um corpo transparente como o ar, e o segundo seu próprio corpo como quando foi arrebatado num carro de fogo.

Vedes, pois, muito bem que todos nos reconheceremos mutuamente na eterna felicidade, visto que nesta pequena amostra que Nosso Senhor se dignou apresentar sobre a montanha do Tabor a Seus apóstolos, quis que estes conhecessem Moisés e Elias que nunca tinham visto.

À vista disto, que contentamento o nosso, vendo aqueles que tivermos extremosamente amado nesta vida! Sim, conheceremos mesmo os novos cristãos, que se converterem agora à nossa santa fé, nas Índias, no Japão e nos antípodas; as santas amizades, da mesma forma que tiverem sido começadas por Deus nesta vida, continuarão na eterna. Amaremos pessoas particulares, mas estas amizades não formarão parcialidades, porque todas as nossas amizades tomarão a sua origem no amor de Deus, que, conduzindo-as todas, fará que amemos a cada um dos bem-aventurados com o puro amor com que somos amados por sua divina Bondade.

Ó Deus! que consolações receberemos na celeste conversação que tivermos uns com outros!

Na bem-aventurança, os nossos bons anjos nos darão uma consolação muito maior do que se pode dizer ou ainda imaginar, quando se nos fizerem reconhecer e nos representarem mui amorosamente o cuidado que tiveram da nossa salvação enquanto estivemos na terra, lembrando-nos as santas inspirações que nos ofereceram como um leite sagrado que iam tirar dos peitos da divina Bondade para nos atrair à indagação dessas divinas suavidades, de que então estivermos gozando. Não vos recordais, nos dirão, duma tal inspiração que vos sugeri em tal tempo, lendo um tal livro, ouvindo um tal sermão ou fitando tal imagem, inspiração que vos incitou a converter-vos a Nosso Senhor, e que foi o motivo da vossa predestinação?

Ó meu Deus! e não se derreterão nossos corações num indizível contentamento?!”[2]





[1] Guiton, L’homme releve de as chute, II partie, épilogue, pág. 364, 365.
[2] Sermão sobre a Transfig., na 2.ª Dom. da Quaresma. 
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