quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Primeira carta / Parte II

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.
Observação: A parte onde está dito: Mas que sentimentos os deste inimigo de toda a religião revelada, protestante ou católica, presta ao ministro que corre a consolar e fortificar a enferma? (negritei e sublinhei no texto), não está bem dito. O protestantismo é uma heresia da Religião Revelada; se o é, é porque é uma negação dela - ainda que creia em coisas ditas pela Religião Revelada.

NO CÉU NOS
RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus
Versão 19.ª edição francesa

pelo
Pe. Francisco Soares da Cunha


I I

Bem-aventurança essencial e bem-aventurança acidental. – Três erros sobre esta bem-aventurança acidental citados pelo filosofismo. – Confissão de J. J. Rousseau. – Refutam-se estes três erros.


Gozar plenamente do que temos amado pura e santamente na terra, eis para nós o Céu. Gozar de Deus constitui a bem-aventurança essencial.

Este gozo da criatura que nos tem sido mais querida, sem deixar de ser secundário, torna-se para a alma uma doce consolação, desde que a morte nos arrebata aqueles que mais amávamos; e Deus nos envia, para moderar nossos pesares, a esperança de torná-los a ver, de reconhecê-los, de amá-los ainda muito especialmente no Céu, e de receber deles também os testemunhos duma especial afeição.

Quantas vezes não tem servido esta esperança de remédio a vossas feridas e de alívio a vossas dores?

Mas, eis que muitas pessoas, aquelas mesmas cujos lábios devem guardar a ciência e cujo coração deve ser o depositário da lei (Malach. II, 7) ousaram primeiramente dizer-vos que não nos reconheceríamos no outro mundo, nem mesmo no Paraíso; depois repreenderam, como uma imperfeição, o vosso vivo desejo de possuir no Céu, além do Criador, certas pessoas ternamente queridas, vosso esposo e vossos filhos.

Finalmente, fazem crer ao mundo que a perfeição cristã, mais ainda a vida religiosa, esgota no coração humano a fonte da sensibilidade, para deixá-lo seco e gelado para com seus pais, irmãos ou irmãs e seus amigos.

No Céu tudo se esquece em Deus, dizem elas. Deus não vos será suficiente? Os santos nunca amaram senão a Deus, chamado pela Escritura um Deus cioso (Exod., XXXIV, 14).

Tais são os três erros que me proponho combater, escrevendo-vos estas cartas.

Aqueles que os sustentam marcham após os quietistas e jansenistas, sem o saberem talvez, sob os estandartes do filosofismo anti-religioso.

No desejo do gozo de Deus, o quietismo via um ultraje ao puro amor e uma brecha no desinteresse; o jansenismo, polido, mas frio como gelo, comunicava a sua sequidão e aspereza a uma religião de amor. Os filósofos incrédulos aproveitaram-se destas disposições para atacarem a Igreja e desacreditarem os padres.

Um sábio religioso de S. Domingos, tratando, no século XVIII, do objeto de que me entretenho hoje, fazia notar esta tática da impiedade.

Entretanto tudo se concede na nossa religião, para torná-la mais amável e consoladora, um filosofismo mentiroso atribuía-lhe dogmas sombrios e desesperados, que lhe arrebatam toda esta força atrativa de que necessita para levar as almas a amarem e a seguirem a Jesus Cristo[1].

Quereis um exemplo disto? Rousseau fez dizer por uma pessoa moribunda: “Cem vezes tenho recebido grande satisfação em fazer alguma boa obra, imaginando minha mãe presente, que lia no coração de sua filha e aplaudia. Tem alguma coisa de consolador viver ainda sob os olhos da pessoa que nos foi querida! Isto faz que sintamos a sua morte só por metade”. Mas que sentimentos os deste inimigo de toda a religião revelada, protestante ou católica, presta ao ministro que corre a consolar e fortificar a enferma?

Lede:

“Ainda que o pastor respondesse a tudo com muita doçura e moderação, e afetasse mesmo não a contrariar em coisa alguma, com receio de que se tomasse o seu silêncio, sobre outros pontos, por uma confissão, não deixou um momento de ser eclesiástico, e de expor sobre a outra vida uma doutrina oposta.

Disse que a imensidade, a glória e os atributos de Deus seriam o único objeto de que se ocuparia a alma dos bem-aventurados, que esta sublime contemplação apagaria toda e qualquer outra lembrança, que as almas se não veriam nem se reconheceriam no Céu, e que, em presença deste aspecto arrebatador, se não pensaria em coisa alguma terrestre”[2].

Todo aquele que propagar esta negra doutrina, ministro sincero da religião ou piedoso fiel, veja pois, a causa que serve, e em que fileiras se coloca!

Para vos mostrar toda a sua falsidade, quero, Senhora, fazer passar diante de vossos olhos um grande número destes autores, cuja antiguidade, ciência, ortodoxia e santidade fez chamar Padres e Doutores da Igreja. Cada um deles vos deixará penetrar em seu coração. Ser-vos-á tão agradável como útil ver quanto eles foram sempre sensíveis à esperança de reconhecerem e amarem, ainda depois da morte, aqueles que tinham conhecido e amado durante esta vida.

Mas quero primeiro resolver, ainda que brevemente, as três objeções que vos fiz, a fim de que me escuteis depois com um espírito mais livre e um coração mais dilatado. Assim, abraçareis com mais confiança e consolação a verdade que devo oferecer-vos.

Quão pouco vos aliviaria agora a esperança deste mútuo reconhecimento se devêsseis ser-lhe indiferente, ou se não viesse acompanhado de alegria e amor!






[1] Ansaldi, Della speranza..., cap. X.
[2] J. J. Rousseau, Julie, IV part., Carta IX ; edição de Paris, 1823, in-8a. , t. II, pag. 482.
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