sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Terceira carta / Parte III

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS
RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus
Versão 19.ª edição francesa

pelo
Pe. Francisco Soares da Cunha


III 

Não haverá necessidade de desviar os olhos do Criador para ver as criaturas – O Céu não é um êxtase onde se esquecem os parentes e os amigos. – A natureza, no que tem de bom, existirá sempre. – A graça não a repele, mesmo na terra. 

O Céu é luz; não digais pois: –Encontrando-se em Deus em toda a Sua plenitude a perfeição que nos torna amável um ser criado, poder-se-á desviar os olhos do centro dos eternos esplendores e do oceano das perfeições infinitas, para seguir com a vista um raio separado, um pequeno regato?


Os bem-aventurados nunca têm necessidade de desviar os olhos do Criador para reconhecerem uma criatura. É n'Ele, é no Verbo que contemplam ao mesmo tempo o centro luminoso e os raios, o fecundo manancial e os arroios.

“É no Verbo divino, escrevia o autor da Vida dos predestinados, que se verá a verdade claramente, e sem estes véus que nos não deixam vê-la neste mundo em toda a sua pureza e a descoberto.

No Céu já não haverá dúvida, ou incerteza. É neste Verbo que o predestinado verá, como num admirável espelho, este espetáculo do mundo desenvolver-se na mais pequena circunstância de cada sucesso. Será n’Ele que aprenderá a série dos eternos conselhos de Deus nos interesses da Sua glória. Aí divisaremos ao mesmo tempo o presente, o pretérito e o futuro, e marcharemos, com a graça desta luz, nos imensos caminhos da eternidade, sem nos perdermos nem ainda nos afastarmos deles.

– Leremos aí a descrição universal de todos os tempos, e o que se passou de mais curioso no decurso de cada século, não só no mundo exterior, mas ainda no interior, isto é, nos lugares mais recônditos do coração humano. Será neste livro, patente aos escolhidos, que se terá o prazer de estudar a história secreta da celeste Jerusalém, que contém o mistério da salvação de cada predestinado, e que encerra a narração do procedimento de Deus em relação aos homens, no admirável desejo da sua predestinação”[1].

O Céu é amor; não digais portanto: –Não há necessidade de amigos. Os santos no êxtase esquecem até os seus parentes, e além disso a maior parte das nossas afeições têm um princípio inteiramente natural que deixará de existir na eternidade.

Pobre filosofia, que circunscreve os sentimentos do coração nos limites da utilidade presente, e não compreende que o principal bem da amizade é o mesmo amor ou a correspondência estabelecida entre duas pessoas sinceramente unidas entre si! Quantos sábios monarcas se têm crido mais felizes por terem um amigo do que por terem um reino!

Não nego que os santos, em certos momentos de consolação espiritual, sobretudo no êxtase ou arrebatamento, tenham banido toda a lembrança de seus parentes e ainda das pessoas mais virtuosas; não nego que tenham perdido todo o sentimento exceto o de Deus. Mas estavam na terra e em provação; cumpriam penosamente a primeira palavra do Mestre: “Deixai casa e campos, irmão e irmã, pai e mãe, mulher e filhos”, e não viam ainda cumprir-se a segunda: “Recebereis o cêntuplo e possuireis a vida eterna” (Math., XIX, 29).

O Céu não é um êxtase, nem um estado violento e transitório; é a cidade permanente, onde não há mortificação nem sacrifícios a fazer para subir mais alto, mas onde se encontra em Deus o que se deixou por Deus. É o termo da viagem e dos combates, onde se repousa na posse tranqüila de uma eterna recompensa.
No Céu, o Senhor prodigaliza a todos, luzes que recusa na terra a Seus maiores servos; e dá à caridade para com o próximo uma liberdade de expansão que a prudência cristã ou religiosa deve, muitas vezes, restringir neste mundo.

A natureza, no que tem de bom, existirá sempre. Será no Céu para a glória o que é na terra para a graça, o apoio necessário.

A natureza é uma árvore silvestre, mas a graça é-lhe engastada como um enxerto divino. Este enxerto dá primeiramente flores, pintadas com as cores de Jesus Cristo, que exalam no tempo a sua ótima fragrância. Produz em seguida frutos de salvação que serão a glória dos bem-aventurados na eternidade.

Toda esta árvore com o seu fruto será transplantada no Céu. Teremos aqui mesmo, com todas as faculdades da nossa alma, todos os sentidos do nosso corpo sem defeito algum. Aquele que morrer ainda criança ressuscitará homem feito.

Ouviram-se os vossos gemidos quando a morte arrebatou do berço uma de vossas filhas; sentir-se-ão vossas alegrias e cânticos ao Senhor, quando tornardes a encontrar junto do mesmo Deus, sobre um trono, esta filha querida, chegada de improviso a uma permanente madureza, eternamente bela, eternamente jovem!

Chamando-a para si, Deus encarregou-se de a criar, e Ele mesmo cuidou da sua educação. Ora, não receeis que Ele não vos deixasse lugar em seu coração. Na terra, ela não pôde conhecer-vos nem amar-vos; mas no Céu, por causa destas relações de origem que são naturais, Deus lhe fará conhecer sua mãe, e lhe dará a piedade filial como virtude sobrenatural.

Mesmo na terra, como já se disse, a graça não repele a natureza; pelo contrário, estende-lhe a mão, torna-se seu guia e seu apoio. Algumas vezes mesmo leva a condescendência até ao ponto de deixá-la marchar diante de si, vigiando sobre os seus movimentos com uma doce solicitude maternal, tendo sempre a mão levantada para regular os seus passos e prevenir suas quedas.

O autor da graça, não contente com amar sobrenaturalmente sua divina Mãe, amou-a também naturalmente, e não se dedignou de ser por ela amado. E quando verteu lágrimas sobre o túmulo de Lázaro, seu amigo, foi a natureza que as deixou cair.

“A graça e a natureza são, ambas, filhas do Céu; mas uma pode ser considerada como filha da esposa, a outra como filha da escrava. A primeira será herdeira do pai de família, por direito de nascimento; a segunda será admitida a uma parte da herança, pelo privilégio duma benévola e gratuita adoção. Aquela será a rainha, esta a favorita da mesma rainha”[2].





[1] P. Rapin, La Vie des prédestinés dans la bienheurese éternité, cap. V
[2] Marc, Le Ciel, appendice, III question.
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