quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Primeira carta / Parte III

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS
RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus
Versão 19.ª edição francesa

pelo
Pe. Francisco Soares da Cunha


I  I  I


Será verdade que os santos só amam a Deus? – Eles amam-se entre si como concidadãos, como irmãos, como dois amigos que vêem todas as perfeições um do outro. – Deus só é cioso do nosso amor de adoração. – O amor recíproco dos santos glorifica-o como Criador, como Pai, como princípio de toda a amabilidade.


Disseram-vos que os santos amariam só a Deus.

Ouvi a resposta do abade Marcos no seu belo livro sobre a felicidade dos santos:

“A pátria celeste é-nos incessantemente apresentada no Evangelho sob o símbolo dum reino, duma sociedade, duma família. Mas uma sociedade, um Estado, uma família não é simplesmente uma aglomeração de individualidades estranhas umas às outras; mas sim uma reunião de seres inteligentes e racionais, obedecendo a leis comuns e obrigatórias para todos, que fazem um só e mesmo corpo da harmônica união destes diversos membros.


Ora, entre todas estas leis, há uma que é salvaguarda, e como que o laço de todas as outras; é a lei da solidariedade social ou fraternal, que ordena a todos se dediquem por cada um, e que cada um se dedique por todos, à proporção das forças e necessidades de cada membro. É, por outros termos, a lei da mútua caridade, a lei do amor.

No Céu nos amaremos como se amam os filhos dum mesmo pai, como irmãos queridos e ternas irmãs; amar-nos-emos, como se amam dois amigos que só se conhecem desde ontem, e cujos corações, apenas se encontraram, se compreenderam e encadearam um no outro, por uma simpatia que sentem ser indestrutível e eterna.

Desde o momento em que nossas almas tiverem penetrado no seio de Deus, encontrar-se-ão abrasadas duma fervente caridade de umas para com as outras. A sua vista e recíproca presença serão como que uma faísca que operará este abrasamento, assim como na natureza física se vê muitas vezes um corpo inflamar outro corpo, somente pelo efeito do choque ou simples contato.

Eis como se pode, até um certo ponto, explicar este fenômeno.

Estas almas, iluminadas da plenitude da luz de Deus, a qual porá a descoberto todas as Suas perfeições, e envolvidas no reflexo de Sua glória como num esplêndido vestido (Ps. CIII, 2); apresentarão os atrativos do coração, como num maravilhoso feixe, o conjunto de todas as Suas amabilidades; pela sua parte, este coração, livre desde este momento de todas as suas fraquezas, de suas ilusões e de suas trevas, este coração, faminto de amor e restabelecido na sua integridade afetiva, será levado por um irresistível atrativo para o seu natural alimento e único depois de Deus, isto é, para as almas feitas para serem amadas por Ele.

É verdade que Deus é cioso do nosso coração, mas somente no sentido de que não devemos amar alguma criatura tanto ou mais do que a Ele. Se assim não fora, como nos ordenaria, sem se contradizer, que amássemos o nosso próximo como a nós mesmos?

Além disto, segundo o contexto, o sentido próprio destas palavras da Escritura, é que o Criador é cioso do amor de adoração: Não adoreis Deus alheio; o Senhor chama-Se o Deus cioso (Exod., XXXIV, 14).

Mas vai grande distância do amor que nos faria amar certas pessoas até à adoração, ao amor que no-las faz amar conforme a vontade do Criador. Tanto falta para que o mútuo amor dos escolhidos possa ser uma injustiça ou um roubo feito a Deus, que será Ele, depois da pura caridade, a mais preciosa e querida homenagem que Lhe possamos render, como Criador, como Pai e como princípio de todo o amor e de toda a amabilidade.

Tendo criado todas as coisas para nós, se as fez maravilhosamente belas (Eccles., XI, 4), foi para que as admirássemos; se as fez excelentemente boas (Idem, XXXIX, 21), foi para Lhe pedirmos o bem que encerram; se as fez desejáveis (Ibidem, XLII, 23), foi para que lhe concedêssemos ao menos uma pequena parte do nosso coração.

Além disto, nenhum ser inteligente, seja Deus ou seja homem, pode racionalmente deixar de ser cioso da obra que criou. Pois, do contrário, seria melhor ter produzido uma obra vil e desprezível, ou então não ter produzido nenhuma.

Todos nós somos filhos de Deus, e Ele mesmo quis que O chamássemos nosso Pai (Matth., VI, 9). Mas a condição da paternidade no Céu será a mesma que na terra, exceto que possuirá, no mais alto grau de perfeição, os caracteres que a distinguem neste mundo. Ora, qual é nesta vida a paternidade modelo? Por que sinal reconheceremos nós que uma paternidade é verdadeiramente feliz?

Feliz paternidade, é o estado dum pai cercado de numerosos filhos que rivalizam em cuidados e ternura para com ele. Mas isto apenas seria metade da sua felicidade, ou antes toda a sua felicidade se encontraria envenenada e destruída, se não reinasse uma verdadeira união entre todos os seus filhos.

Toda a afeição legítima, isto é, ordenada ou autorizada pela lei eterna, vem de Deus.

A caridade que testemunhamos às criaturas, é como um rio que tem a sua origem em Deus, que ordena ou permite que vamos matar a sede que temos n’Ele, em objetos distintos do mesmo.

O rio, continuando sempre o seu curso, volta outra vez para a sua nascente, onde chega sem alteração.

Todas as belezas que divisamos nas criaturas, e que nos atraem tão vivamente para si, não são outra coisa mais do que o reflexo da eterna e divina beleza, do seio da qual se desprendem, assim como vemos soltar ondas luminosas do disco solar, que vêm alegrar e vivificar a natureza.

Mas como é sempre o Sol que admiramos mesmo em seus raios e reflexos, é igualmente a Deus que admiramos e amamos de longe, nos esplendores e encantos que derrama sobre Suas criaturas.

Poderia Ele, pois, olhar como um atentado contra os Seus direitos ou à Sua glória, o atrativo que nos impele para as belezas e perfeições que de si mesmo derrama sobre Suas obras?

Se os Seus encantos e amabilidades não são mais do que uma irradiação da amabilidade e dos atrativos divinos, já vemos como a beleza incriada não eclipsará as belezas criadas, e como se dará no Céu o amor mútuo dos escolhidos sem risco nem perigo.

Na terra, o imortal raio só nos aparecia por um único ponto, aquele por onde tocava e iluminava a criatura. No Céu, vê-lo-emos descer do seu centro e tornar a voltar ao mesmo.

Será a Deus que procuraremos e a que aspiraremos, dirigindo-nos para as criaturas; Deus a quem admiraremos, admirando-as, Deus a quem acharemos, amando-as”[1].





[1] Marc, Le Ciel, apêndice sur l’amour béatifique, chap., I, II ; IV question.
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