sábado, 4 de junho de 2011

Acerca das amizades

Décimo quarto dia
Acerca das amizades


I – O coração é feito para amar, e como a alma é a vida do corpo, assim o amor é a vida do coração. O amor é aquela afeição veemente que atrai o coração humano para o objeto amado, o funde e identifica de alguma sorte com ele, e faz que não pense, não respire, não viva senão para ele. Esta enérgica afeição, Minha filha, deu-t’a Deus a fim de que, reconhecendo-O por único objeto amável acima de todo outro, disponhas para Ele todo o teu coração. Como Ele é digno de todo o teu amor, quere-o inteiro para Si. Ele que te dá todo o Seu, não tem razão de querer todo o teu? Não é teu dever obedecer-Lhe? Não é Ele capaz de te contentar? Ai! É preciso confessar que é exatamente exigente a alma para quem seu Deus não basta. Pedindo-te o teu coração, Deus não quer que não ames senão a Ele, mas que O ames acima de todas as coisas, isto é, que não ames nenhuma criatura mais que a Ele, e que o Seu amor ocupe em teu coração o primeiro lugar. Tem-no tu feito até ao presente?

Ai! Os amores profanos têm-te preocupado. Uma vil criatura atrai todos os teus afetos e ocupa o lugar que tu devias reservar ao amor do teu Deus. Tem-na sempre presente no espírito e no coração; não podes estar separada dela sem tristeza; estás toda alegre quando conversas com ela, fazendo assim consistir num miserável objeto a tua felicidade. Ó Minha filha, se amasses Deus com iguais transportes, não serias tu um serafim de amor? Que mais fizeram Catarina, Teresa, Rosa de Lima e tantas outras santas por seu celeste Esposo? Mas tu nunca pensas nEle com um generoso ímpeto de amor. Perdida no amor profano, vives esquecida de Deus, da alma e do céu. É assim que tu correspondes às intenções que Deus tinha, dando-te um coração capaz de amar?

IIDe mais, Minha filha, é falso que as carícias mundanas sejam necessárias a quem é chamado a achar um esposo.

Elas são um meio para que o não aches nunca ou para encontrar algum malévolo que te arrastaria para a desgraça em lugar de fazer-te feliz. Uma santa união não pode obter-se sem a graça e a bênção de Deus; mas como pode Ele abençoar um casamento onde se chega pelo caminho do pecado? Não, Minha querida filha, não verás chegar à felicidade nenhum daqueles que não têm chegado a esposar-se senão por intrigas, confidências, amizades mundanas. Não vês tu um grande número que antes do casamento se amavam perdidamente e que depois não podem mais suportar-se?

Ah! se eles estão unidos sem a bênção do Meu Divino Filho, não foi o Espírito Santo que os uniu, mas o demônio que os conduziu a essa união à força de excessos. Como pode ser que um ajuste que teve princípios criminosos tenha um bom resultado?

Venturosos são, ao contrário, os casamentos acompanhados da bênção do céu e celebrados, não a exemplo de animais estúpidos levados pela impetuosidade dos sentidos e das paixões, mas com o auxílio e temor de Deus, e da obediência aos superiores e aos pais, tens disso centos de exemplos nas Escrituras e na História Sagrada: - Faço o que fazem os outros, dirás tu. – Eu bem sei que há insensatos que respondem assim, mas os erros de outrem nunca foram uma boa razão para desculpar os nossos próprios. O caminho seguido pelo maior número, é a via larga do pecado que leva à perdição. Quererás tu perder-te, porque muitos outros se condenam? Que cegueira!

III Teme, pois o Senhor, ó Minha querida filha, recorre a Mim nas dificuldades; obedece a teus pais, escuta os teus diretores. Não consideres o que fazem os mundanos, mas aquilo que exigem os teus deveres de cristã e não ficarás sem cuidados.

Se Deus te chama para esse estado, não recusará enviar-te um anjo do céu para te fazer achar um bom esposo, como enviou o arcanjo Rafael para conduzir Tobias à virtuosa Sara. Um bom esposo, disse o Espírito Santo, será dado em recompensa das boas obras. Os festins, ó Minha filha, as vaidades, as festas, as intrigas, far-te-ão achar um algoz da tua vida mais depressa que um esposo que seja teu auxílio e tua consolação. Não temas que o retiro, a piedade, a modéstia, te façam esquecer como o pensam tantas insensatas. A virtude agrada a todo o mundo, àqueles mesmo que são viciosos.

Todo o mancebo cristão deseja ter uma esposa da qual a fidelidade lhe seja garantida; teme sempre e suspeita em frente da desfaçatez e da leviandade. A prudência e a honestidade, ó Minha filha, são o melhor dote e a melhor recomendação de uma donzela cristã. Em lugar de te retirar do matrimônio dar-te-ão o meio de contratá-lo mais felizmente se Deus te chama a ele, porque Deus o abençoará.

Mas quando mesmo elas te devessem fazer esquecer dos homens, não seria nada a teus olhos ter por esposo Meu Divino Filho? Queria ver-te meditar a miúdo as palavras de Athenais, chamada em seguida Eudoxia. Pobre filha de um filósofo pagão, chegou, por intermédio da Minha serva Pulcheria, a esposar o imperador Teodósio II. Quando ela acabou de receber o batismo, o imperador achou-a derramando torrentes de lágrimas. Perguntou-lhe a causa dos seus choros. Ah! Teodósio, lhe respondeu ela, vós traíste-me. Se tivesse sabido que podia vir a ser esposa do Rei do céu, nunca eu teria consentido esposar um rei da terra. Que aquelas palavras te envergonhem. Ela teria recusado um Teodósio, a fim de ter por esposo Jesus, e tu não te importarias de Jesus para te unires talvez a um miserável.

Afetos. Ó querida Mãe, tenho demasiadamente dado às criaturas este coração que Deus tinha criado para Si. Com uma extrema ingratidão, tenho Lhe recusado cada dia este amor que de contínuo Ele me concede. Ai de mim! Como me tenho deixado cegar pelas paixões desordenadas! Desgraçada! que viria a ser de mim se para seguir o meu capricho, ou para imitar a louca conduta de tantas outras me tivesse colocado numa situação a que Deus me não tivesse chamado? me unisse, não àquele que Deus me destinou, mas àquele que o demônio me fizesse encontrar para me perder! Reconheço agora, ó Minha querida Mãe, aonde conduzem as intrigas, as vaidades, as uniões e os amores profanos. Não os seguirei mais. O retiro, a modéstia, a obediência e o temor de Deus, serão para o futuro as guardas da minha vida. Se for esquecida, que me importa, contanto que Deus me não esqueça! Ó Mãe Santíssima, rogai por mim a Vosso Divino Filho, a fim de que me faça persistir nesta boa resolução, para que não consagre mais aos outros do que a Ele o meu amor e o meu coração.

(Maria falando ao coração da donzela, meditações para todos os dias do mês, traduzido do italiano pelo Abade A. Bayle --Professor de Eloquência Sagrada na Faculdade de Teologia de Aix--; Quinta edição, Livraria Catholica Portuense, ano de 1917.)

PS: Grifos meus.
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