quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Acerca da Instituição do Sacramento do Altar


I. Considera, ó Minha filha, quanto Jesus, Meu divino Filho, fez por ti, e dize-me se podes recusar amá-lO de todo o coração, depois de ter bem penetrado os prodígios do Seu amor. Fez-Se alimento da tua alma na santíssima Eucaristia. Para apreciares dignamente a inconcebível grandeza da dádiva que te fez neste divino sacramento, considera que, criando-te, te deu o ser e a vida de que gozas; que, conservando-te pelo socorro da Sua divina providência, sem a qual nada podia subsistir, entretém o teu ser e a tua vida como por uma criação sempre contínua; que, remindo-te e fazendo-te nascer no seio da Igreja, te abriu o caminho do céu e que te fez o dom da fé e da religião; que no batismo, te regenerou por Sua graça, te deu o título de Sua filha e os direitos ao céu.

São estes dois benefícios verdadeiramente inestimáveis. Mas o dom que te fez da Sua própria pessoa na sagrada Eucaristia, excede tanto todos os outros benefícios quando o mesmo Deus excede tudo o que pode dar. Pelo beneficio da redenção deu-te a Sua vida e os Seus merecimentos; mas restava ainda alguma coisa, era dar-Se-te Ele próprio com a Sua divindade no sacramento do altar dá-Se-te todo inteiro, corpo, sangue, alma; merecimentos e divindade. Se depois de semelhante dádiva quisesse fazer-te uma outra maior, não poderia, apesar de ser onipotente. Pode dizer-se com toda a verdade que exauriu neste dom todos os tesouros do Seu amor, da Sua riqueza da Sua sabedoria e mesmo da Sua onipotência. Podia o Seu amor ser maior para contigo? Os anjos e os serafins mais elevados não têm sido tão favorecidos. Ora, se o amor reclama amor, crês tu corresponder dignamente ao amor do teu Deus sendo tão avara das tuas afeições e ternuras, e não sabendo soltar o coração das criaturas para lh'o dar a Ele?

II. Este amor sem limites do teu Deus para contigo te parecerá mais claro ainda ó Minha filha, se considerar de que modo e com que veemente transporte Ele Se dá a ti neste augusto sacramento. Nos sacrifícios da antiga lei, o sacrificador e aqueles que ofereciam as vítimas, nutriam-se das carnes dessas vítimas, que eram touros, cordeiros, pombos e outros animais, porque todos deviam participar do sacrifício. A estas vítimas carnais sucedeu na lei da graça, uma vítima imaculada, o corpo do Meu divino Filho, de quem as outras não eram senão imagens. Para que essas imagens fossem, perfeitamente, terminadas por aquela Vítima augustíssima, era necessário que todos os fiéis pudessem participar dela. Mas se Ele tivesse dado a Sua carne na forma natural, além de que devesse morrer cada dia e em muitos lugares para sustentar todos os sacrifícios, quem ousaria alimentar-se dela? 

Mas como era bastante morrer uma vez em realidade (Nota do blogue: naturalmente, fisicamente; porque a morte mística também é de algum modo misteriosamente real), quis morrer misticamente todos os dias (Nota do blogue: A quem prefira a expressão sacramentalmente), e para dissipar todo o temor, instituiu este sacramento sob a aparência do pão e do vinho, de tal sorte que todos pudessem alimentar-se livremente dEle. E tu também o podes participar. Além disso, como é próprio dum amor verdadeiramente extremo unir num só o que ama e o que é amado, o Meu divino Filho, sentindo esse desejo e querendo-o satisfazer, dá-Se-te em alimento, não para se converter em ti, o que seria impossível, mas para te converteres nEle, como trocas em substância tua o alimento do teu corpo. O homem, comendo o fruto proibido, não pode obter, como pretendia, tornar se semelhante a Deus; mas Deus, por este celeste fruto de vida, quis descer até identificar-se com o homem até não fazer, de alguma forma, do homem e de Si senão uma mesma coisa. Oh! minha filha, podia o Seu amor para contigo ser mais inefável e veemente?

III. Ainda mais, Minha filha, todas as iniqüidades que se cometiam então para com Ele, e todas aquelas que deviam cometer-se em seguida, e que Ele conhecia bem, não puderam arrefecer o ardor da Sua caridade para com os homens. Na mesma noite em que a maldade humana se dispunha a fazer-Lhe o maior dos ultrajes, Ele preparava-Se a dar ao homem a maior prova do Seu amor. O conselho congregava-se para O perder, um dos Seus apóstolos dispunha-se a traí-lO, todos os outros estavam a ponto de O abandonar, ia-se pôr em obra a cruz, as cordas e os pregos, e Ele instituía este sacramento de amor. As indignidades e os sacrilégios que deviam cometer-se, contra o Seu corpo e sangue na Eucaristia, e que Ele previa, não impediram de dar livre expansão as chamas da Sua caridade.

Ó Minha filha, podia o teu Deus dar-te a conhecer mais amor para merecer o teu? Como lhe tens correspondido? Que fruto, pergunto Eu, tens tirado de tantas comunhões? Um ferro, por mais gelado que esteja, logo que, é mergulhado num fogo ardente, incandesce e torna-se vermelho a ponto de se não distinguir do próprio fogo. E esse fogo divino vindo para abrasar todos os corações com as suas chamas, não tem produzido em ti esse efeito; depois de numerosas comunhões permaneces fria e gelada. Uma só comunhão bem feita basta para santificar uma alma, uma única comunhão bastou para fazer morrer nos transportes do mais puro amor para com o seu Deus uma tenra menina, a minha venturosa serva Ismelda Lambertini, que contava apenas onze anos. E para ti, tantas comunhões não têm podido destruir um vicio: não têm podido tornar-te melhor, mais modesta, piedosa, recolhida e humilde. Talvez te tenhas tornado pior. Funesto efeito do abuso dum tal sacramento! Ah! Minha filha, acautela-te! tanto é grande a tua frieza em corresponder ao Seu amor, quanto maior será o ardor da Sua cólera em te punir.         

Afetos. Ó Mãe terníssima, se eu não soubesse que a bondade de Deus, é um oceano imenso e inesgotável, teria bastante razão para temer não ser tratada com misericórdia, por ter tão mal correspondido ao excessivo amor que Jesus me testemunhava, por ter sido tão indiferente e fria, recebendo-O à sagrada Mesa na Eucaristia. Ó amor traído do meu Salvador: que príncipe da terra teria sofrido ser tão mal pago de reconhecimento por aquela das suas súditas que tivesse querido desposar? E o meu Deus tem sofrido de mim não somente esta frieza, mas desprezos e insultos, porque só tenho pago com uma negra ingratidão a Sua excessiva caridade!

Ó mãe querida, eu não posso mais apresentar-me diante dEle senão para implorar a Sua piedade e para deplorar a Seus pés a minha indignidade! Mas que merecimento posso eu ter para ser atendida? Recomendo-me á Vossa intercessão, ó divina Mãe. Se eu mereço ser repelida, Vós mereceis ser atendida. Tanto tenho razão para temer a causa da minha indignidade, quanto tenho razão de confiar nos Vossos merecimentos depois da bondade que Vós me tendes testemunhado. Confio-me pois a Vós, abandono-me a Vós e de Vós espero tudo. 

(Maria falando ao coração das donzelas pelo Abade A.Bayle, 1917)