domingo, 18 de dezembro de 2011

Acerca das más companhias


I. Minha filha, tu tens relações e conversas com outras companheiras da tua idade nas viagens, nos divertimentos, nos trabalhos domésticos ou no campo, mas é isto com prudência e discrição? Oh! se tu soubesses quanto a prudência é necessária sobre este ponto, serias mais atenta a conhecer as pessoas com quem queres ligar amizade. Não quero dizer que Eu queira ver-te de tal modo isolada, que não tenhas relações com pessoa alguma; mas se o bem por sua natureza se espalha e se comunica, o mal da mesma forma, e mais facilmente ainda. Tão útil é conversar com pessoas virtuosas e discretas, quão prejudicial é conversar com pessoas viciosas. Toma cuidado em só conversares tanto quanto possível com pessoas cuja companhia te seja proveitosa. Não deves procurar se têm maneiras polidas, se são nobres, ricas e de um nascimento ilustre, mas sim se são piedosas. A riqueza e a nobreza são dons da fortuna; a virtude é um dom de graça que nobilita acima de tudo. O que é grande aos olhos do mundo, Minha querida filha, é a maior parte das vezes desprezível aos olhos de Deus.

Ludovina, pobre desdenhada por todos, mas rica de graça, valia mais aos olhos de Deus que as rainhas e imperatrizes do seu tempo. Deves escolher para tuas amigas e companheiras aquelas que amam o recolhimento, a modéstia, a obediência, a humildade, e que cultivam a piedade, que não se importam com modas e amores profanos, que são prudentes em suas conversas e reservadas em suas relações; mas foge como da peste das orgulhosas, senhoras da sua vontade, frívolas, extravagantes. Os amigos do mundo, minha filha, não podem ser amigos de Deus.

Quem murmura, critica ou despreza os outros, não tem a caridade sem a qual não pode agradar a Deus. Quem acha prazer nas palavras equivocas, pouco modestas, perdeu de todo o pudor ou está a ponto disso. Quem quer gozar de divertimentos, teatros e pompas do mundo, não poderá gozar a Deus no céu. Por isso, Minha filha, se fores discreta, podes conhecer o que deves evitar.

II. Vê os efeitos que produzem as más companhias. A conversação com pessoas virtuosas dispõe á piedade. Os bons exemplos, os discursos edificantes, as práticas santas, comunicam-a e insinuam-a na alma insensivelmente. A conversação com os maus produz um efeito contrário e conduz ao vício. Convivendo com companhias piedosas e boas, tornar-te-ás boa; as más companhias cedo ou tarde te perverterão.

Deves acautelar-te, indubitavelmente, Minha filha, de conversar sem reserva com pessoas novas, porque seria expor a tua virtude continuamente aos perigos. Contudo, maiores seriam ele, se te familiarizasses com companheiras viciosas. Com as primeiras, o pudor, a vergonha e o temor, serão talvez a tua defesa e o teu resguardo; com as segundas, faltar-te-ia aquela proteção por causa da liberdade que contigo tomariam; as suas falas sem recato, lisonjeiras e apaixonadas, se insinuariam no teu coração como uma peçonha mortal e o envenenariam. Seria menos perigoso para ti habitar lugares infectos, do que freqüentar reuniões com semelhantes companheiras.

Quanto estás longe de te parecer com a Madalena de Pazzi, Gertrudes ou Catharina! Por nada se horrorizavam tanto como ouvindo uma palavra pouco decente; desmaiavam ou vindo um simples nome de pecado, e tu deixas te ficar muitas vezes sem remorsos a saciar os ouvidos com o veneno que exalam as suas bocas impuras e os teus olhos do que insinuam as suas maneiras e porte. Foge delas, pois, ó Minha filha, se não queres que te pervertam e que te aconteça aquilo que está escrito a respeito dos hebreus - «Confundiram-se com os pagãos e aprenderam-lhe as más obras

III. Estas companhias, Minha filha, não têm sido para ti só um perigo, mas tambem uma desgraça. Penetra em teu coração e tua consciência, e tu o verá como Eu o sei e vejo. Gabas-te algumas vezes de não ter feito grande mal, porque não chegastes ainda aos mais graves excessos. Ah! o homem não vê senão aquilo que aparece no exterior; mas Deus, como o Seu olhar perscrutador, penetra no mais recôndito do coração, examina-lhe todas as emoções e o seu espírito habita com as almas justas.

Julgas tu que quando o teu espírito se aplica em pensar de tantas coisas inconvenientes, nas quais as tuas companheiras conversam em seus livres colóquios, que quando o teu coração aspira a gozos ilícitos, Deus pode ainda habitar em tua alma?

Considera que não são só as más ações que ofendem a Deus. A pureza, Minha querida filha, é um espelho tão cristalino que, um só bafo, uma única impureza do pensamento o embacia. Quantas vezes, pois se não tem agitado em teu coração o desejo de te fazeres amar, não por Deus, mas sim pelas criaturas? Quantas vezes, Minha filha, tenho ouvido dos teus lábios, e com que horror, palavras livres que ofendem a honestidade, palavras desprezadoras que ofendem a caridade, fazendo injúria ao próximo, e até mesmo imprecações? Mas que digo Eu, - de palavras? Quantas vezes tenho visto de ações?! Tu compreendes bem, e Eu não quero fazer-te corar mais tempo. Com quem as tens aprendido? De certo não tem sido com as tuas companheiras virtuosas. Nunca elas fizeram murchar a açucena que forma o mais belo tesouro das donzelas cristãs, e de cujo perfume o paraíso se impregna. Se só com elas tivesses convivido, serias mais digna de subir lá cima e fazer parte da cândida legião que acompanha o Cordeiro encarnado para Lhe entoar os cânticos que só as virgens podem cantar.

Ó más companhias! flagelo das almas, ruína da inocência! Mais valeria para ti encontrares uma serpente ou um leão furioso, do que tais companhias.

Afetos. Vós me dissestes, ó minha santa Mãe, e eu o confesso. Todo o mal que sei tenho-o aprendido com as más companhias. Ah! se eu as não tivesse conhecido, não encontraria agora em mim tanta causa para confusão e lágrimas. Mas é minha a culpa, devia fugir-lhes. Quantas vezes não fui castigada por minhas diretoras e meus pais, e perturbada pelas censuras da minha consciência? Insensata que eu era! Seduzida pelas travessuras das outras ou por minhas desenfreadas paixões, não queria escutar ninguém.

Agora reconheço o mal que fiz por suas funestas conseqüências.

Ah! já que é só com lágrimas e arrependimento que se pode reparar o mal cometido, já que é com a prudência e auxílio de Deus que se podem evitar as mesmas culpas, prostrada aos pés de Deus e aos Vossos ó minha querida Mãe, derramarei lágrimas de dor para lavar as máculas produzidas em minha alma por demasiadas conversações livres. De hoje em diante aplicar-me-ei e não cessarei de implorar dia e noite o auxilio de Deus e o Vosso para não mais tornar a pecar.

(Maria falando ao coração das donzelas, pelo Abade A.Bayle, 1917)
PS.: Grifos meus.