domingo, 27 de fevereiro de 2011

XI - Multidão


XI - Multidão


Mas até esse grande e último dia, Ele guarda silêncio. Entremos, também nós, neste silêncio do Senhor; ele é profundo, é cheio, é ao mesmo passo, esmagador e consolador.

Cada virtude de Cristo na Paixão é como um templo místico no qual se penetra por uma porta baixa e, à medida que se avança, o templo se alarga, as naves se prolongam, a obscuridade duplica a atração, a alma embrenhada perde-se nele, olvida-se.

Repito, entremos nesse grande silêncio.

Silêncio sobre mim, sobre os meus, sobre o meu passado, o meu presente, as minhas virtudes, os meus defeitos; silêncio sobre o tudo e sobre o particular da minha vida. Este silêncio conduz-nos à perda de nós mesmos. O nada se cala e não faz barulho, onde está?... Ninguém o procura.

Que de luz é preciso para saber falar! Quanta mais é precisa para querer calar-se, e calar-se realmente! A boca que se cerra, os olhos que se baixam, é a dupla porta que se fecha sobre o dileto que a gente introduz no interior para estar a sós com ele.

A solidão e o silêncio fazem tombar a última barreira entre os dois amados.

A partir do momento em que deixa o tribunal de Caifás, Jesus entra cada vez mais no silêncio

É, contudo, o momento em que pela primeira vez Ele toma contato com a multidão. Acompanhemos esse grande silêncio no meio daquela multidão volúvel, cheia de ódio. E por que cheia de ódio? Em verdade, Ele não fez mal algum àqueles que O envolvem de todas as partes.

Ainda ontem eram gritos de alegria, eram os caminhos juncados de palmas cortadas e de vestes lançadas, era o Homem em todo o percurso das estradas, a porta Dourada transporta como que sob um arco vivo de braços estendidos e de ramos triunfais entrelaçados por sobre a Sua cabeça... A multidão é ondulante e vária sem outra alma que aquela que Lhe sopram de fora. Havia muitos sopros que agitavam aquele mar e Lhe propeliam as vagas furiosas. O ódio dos sacerdotes, a inveja dos anciãos, o medo dos Sinhedritas; um sopro mais baixo: o de Satã; um sopro mais alto: a cólera de Deus.

É singular que os homens percam do seu bom-senso e da sua razão na proporção do número. Aquela multidão, composta de seres inteligentes, não passa agora de uma massa irracional e insensata. A razão individual parece perder-se, e perde-se efetivamente, na razão coletiva. Há pouco tínhamos homens, agora temos apenas uma imensa criança, trêfega, volúvel, irritável, passando do riso ao choro, gritando ao mesmo tempo o Hosana e o tolle, caprichosa no seu ódio e na sua compaixão.

E Jesus atravessa a multidão. Esta multidão será um dos agentes principais e dolorosos da Paixão. Ignora-se isto comumente: todavia, é o fundo do quadro.

Quais essas nuvens de procela, que ascendem a pouco no horizonte e acabam pelo encherem totalmente, a multidão irá engrossando do tribunal de Caifás ao cimo do Calvário, e Jesus lhe passará pelo meio.

A primeira imagem que Ele depara desse ator de papel progressivo e cruel é a turba dos soldados, o pessoal de faxina que foi prendê-lO como a um ladrão; operaram eles durante a noite, com a hesitação, a princípio, de um papel mal aprendido e a brutalidade, em seguida, de uma consciência que nada mais tem a temer. Os soldados reforçam-se logo com os criados e com as falsas testemunhas; a esses cumpre acrescentar os próprios sacerdotes, vimo-los em ação: tudo isto já é multidão.

Mas o primeiro contato verdadeiro de Jesus com o povo dá-se pela manhã, à saída do tribunal de Caifás.

Amanhecia, as ruas mal começavam a animar-se; vinham-se, entretanto, os madrugadores habituais, isto é, o pessoal de serviço, os criados, os mercadores de gêneros, e também um certo número de forasteiros, pois a cidade regurgitava destes no momento da Páscoa. À primeira vista, para aquela gente miúda como para os forasteiros, aquele homem que arrastam vivamente ao pretório, para os lados da Antônia, é um malfeitor noturno, algum vagabundo pilhado em flagrante delito: olham-no curiosamente e passam.

Entretanto, a escolta desperta a atenção: aqueles soldados, aqueles criados, ainda esquentados de vinho e de palavrões, sobretudo aqueles sacerdotes – Caifás é reconhecido – os anciãos, todo o Sinédrio... O povo pára, cochicha, indaga.

- É Jesus de Nazaré? – O famoso profeta? – Ele mesmo! Não há duvidar. – Ele, tão pálido, tão sujo, tão desfigurado, e amarrado com força?

A notícia é lançada, é ela que amotinará a segunda multidão que Jesus deparará esta mais densa e menos indiferente. À curiosidade sucedeu a admiração, e surdo rumor prenuncia uma secreta irritação contra aquele homem. Dizem que Ele quis entregar o povo à dominação romana; Ele já está julgado pelos sacerdotes... é um bruxo perigoso, um desordeiro... poderia, ao que  parece pelos Seus encantamentos e sortilégios, arruinar tudo o que nos restava de liberdade... é um desprezador de Deus, blasfemou...

Assim sobre a onda, engrossa subindo, e cobre-se da escuma do povoléu.

Depois disto, quem poderá fiar-se nos sentimentos da multidão? Todavia, que é que se não faz por essa enganadora popularidade? O aplauso do grande número tem seduzido a muitos que haviam esquecido que só o aplauso de Deus é que vale.

Jesus, Ele sentiu-Se primeiramente humilhado de Se ver obrigado a atravessar as ruas amarrado e cercado de soldados: é uma confusão natural, que Lhe não há de ter faltado. Como era de manhã, por ora há só confusão; mas, quando, um pouco mais tarde, Ele se viu arrastado pelas ruas já mais movimentadas e mais cheias, até o palácio de Herodes, a confusão redobrou, e a ela se juntou uma secreta indignação contra as falsas informações que sublevavam a multidão.

Mas foi principalmente ao sair da corte de Herodes, quando apareceu nas mesmas ruas marulhosas revestido irrisoriamente da túnica branca, e quando ouviu à volta de Si aquelas esfuziadas de riso, aquelas palavras contundentes com que O fustigavam a passagem, como a um ente degradado e malfazejo, foi então que a medida se encheu: tudo foi ferido nEle, a honra, a dignidade, a Sua doutrina tão pura e o Seu passado refulgente, que parecia esboroar-se no riso da sarjeta.

Tal como o olho da criança, o da multidão apreende eminentemente o ridículo: apraz-lhe o grotesco, porque o sacode de um riso fácil e sem fim. A delicadeza dos sentimentos morre na massa humana como o som tênue de uma lira se perde no burburinho da rua.

Ora, que mais ridículo do que a silhueta daquele taumaturgo metido naquele saco branco, empurrado para a direita, jogado para a esquerda, puxado em todos os sentidos, perdendo o equilíbrio, titubeando, já não tendo sequer aquele porte firme e ereto tão próximo da altivez que agrada a todos, mormente ao povo, debaixo das injúrias e das chalaças?

Que palavras deviam lançar-Lhe? Não o sabemos, mas sabemos que cruéis não deixaram de lançar-lhas no alto da Cruz. Pode-se, pois, facilmente conjecturar que O hajam acolhido à passagem com “gracejos tintos de sangue” (Sermão sobre a Paixão, 2º ponto), consoante o termo expressivo de Bossuet.

- Hosana ao filho de David! Deviam gritar-Lhe aos ouvidos.

- Eis o que vem em nome do Senhor! Estas palavras datavam de alguns dias apenas, toda a gente as tinha em memória. E também; - Eis aqui mais do que Salomão! Aludindo ao que Ele dissera de Si mesmo. E ainda, com quantidade de ademanes de respeito e consideração: - O Filho de Deus... o Messias!... o Filho do Deus bendito...

Há um espírito da multidão que apreende sagazmente a contradição e relembra tudo a calhar. Muitos dos que compunham aquele populacho tinham ouvido de noite as perguntas do sumo sacerdote, e não deixavam de formulá-las irrisoriamente de novo.

Aliás, tudo convidava a isso. Podiam ainda escutar-se, por trás da porta do palácio de Herodes, os ecos frementes do imenso gargalhar de toda uma tropa, de todo um grosso de cortesãos e de um príncipe tanto mais galhofeiro quanto era depravado. A ironia, o sarcasmo vagam facilmente nos lábios impuros.

Já pressente a multidão o espetáculo do Pretório e do pátio dos soldados; apinha-se, multiplica-se, converge à pressa para onde deve achar divertimento. Diverte-se com tudo: dentro em pouco rir-se-á do flagelado a se torcer sob as chicotadas como o verme debaixo dos pés, e do coroado de espinhos solenemente exibido em público. Ademais, a veste branca é o prenúncio do manto escarlate. Doravante nada será poupado ao vencido. Acabam de arremessá-lO ao vórtice da multidão como um galho seco e sem seiva: nada mais há a esperar quando uma vez se caiu no desprezo da multidão: não se torna a subir de tão baixo.

Outra faceta ainda mais humilhante, talvez, desse desprezo popular não foi poupada a Cristo. Foi a decadência aos olhos de entes conhecidos e até amados.

Ser desprezado por uma mansa pululante que nos ignora e que nós ignoramos, certamente é uma ferida profunda para a nossa honra; sê-lo, porém, como o foi Jesus, por um povo que O conhecia, que O aplaudira e que queria fazê-lO Rei!... Passar coberto de lama, de borra de vinho e de escarros pelo meio daqueles milhares de Galileus – conterrâneos – chegados para as festas pascoais na cidade e postados de todos os lados... ver-se desmoronar não já apenas no espírito de alguns discípulos amedrontados, mas no de todo um povo escandalizado... assistir pessoalmente a essa decadência progressiva e sem esperança de reabilitação: esta humilhação era uma flecha aguda, escolhida, afinada, da justiça divina. Sentiu-a Cristo revolver-se-Lhe nas chagas do coração.

Se o mesmo dardo humilhante nos vara, miremo-lo com amarga consolação embeber-se-nos na alma, saboreemos uma ferida igual à do pobre Jesus.

Há poucos eleitos, poucas testemunhas de Cristo, que não tenham tido de sofrer desta flecha de escolha. Se não a tinham assaz ao grado do seu amor, a si próprios a proporcionavam, repletos de santíssima avidez. Um Santo Inácio ia humilhar-se aos pés de um confessor de quem era conhecido, repetindo-lhe a dolorosa confissão das suas faltas. Um Lacordaire entrava, por gosto, em particularidades supérfluas, mas que o cobriam de confusão, perdendo assim voluntariamente a sua reputação íntima, para melhor imitar Jesus perdido na de toda uma multidão em delírio.

Quando uma alma há uma vez provado os desprezos de Jesus, quem pode contê-la de correr atrás do dileto que vai na frente coberto da veste fúlgida das suas longas humilhações?

Neste drama da Paixão, desde que a multidão entra em cena, aduz-Lhe a Sua confusão, a Sua irresistível pressão: há que contar com ela. Verdadeiramente, é bem, por instantes, o principal personagem. Pilatos dialogará com ela como com um só e poderoso interlocutor. Breve, já não serão injúrias que sairão daquela boca terrível, porém intimações, insolentes e brados de morte. É ela quem decide. O tolle faz pender a balança, e, se esta balança parece, apesar de tudo, inclinar-se para a inocência de Jesus, lança-lhe ela primeiramente Barrabás. Non hunc sed Barabbam. Tolle, tirai-o. Eis que agora é a Cruz: Crucifige, crucifige eum. Isto não basta, o prato ainda torna a subir. Lança-lhe ela então o medo de César.

- Se não O condenas, não és amigo de César, brada ela a Pilatos. Desta vez o prato toca terra. Jesus segue toda a cena, ouve-se passar todas as bocas, por todas vê-se repudiar: sobe, desce, ei-lO salvo, ei-lO perdido; a multidão é quem tem a última palavra.

O papel dela prossegue assim até o Calvário. Ali naquele cimo lúgubre, tudo é baralhado e confuso. A multidão é então aquele povo que passa meneando a cabeça, são aqueles sacerdotes que apodam, aqueles soldados que jogam insolentemente a veste de Cristo: uns bebem, outros riem, as santas mulheres choram. João está consternado, Maria conserva-Se de pé.

Jesus murmurou: Perdoai-lhes. Os ladrões insultam e blasfemam. As trevas cobrem pouco a pouco aquelas cenas diversas. E, no meio dessa sombria trama, lá do alto Deus desenreda todos os fios: já vê o centurião genuflexo, ouve o ladrão que confessa e implora Cristo; salva uns e enjeita outros; em verdade, o mundo há mudado? Cessaram os justos de sofrer e de ser misturados aos maus? E, de Seu lado, deixa Deus de escolher e de tomar para Si os Seus eleitos?

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy. S. J, tradução de Luís Leal Ferreira, III edição, Editora Vozes)

PS: Grifos meus.
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