sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

"PULVIS ES..." - ÉS PÓ

"PULVIS ES..." - ÉS PÓ


Dura palavra esta que a Santa Igreja repete hoje a cada um dos homens lembrando-lhes o nada que somos: "Lembra-te, homem, que és pó" - "Pulvis es". (Liturgia, 4ª f. de cinza)

Do pó, lodo da terra, diz a Escritura, saímos. (Gen. 2,7). Em pó, terra de uma sepultura, mostra-nos a experiência, havemos de nos tornar. E o que se fez de pó e se apresentará um dia reduzido a pó não pode deixar de ser essencialmente pó.

E no entanto, Senhor, é este pó o contínuo objeto de minhas preocupações, de minhas carícias e de meus afetos. Por causa deste pó me desvio tantas vezes do Vosso caminho e desprezo a Vossa graça.

Vaidades deste mundo! Craveja-se o diamante e burila-se o ouro, recortam-se as sedas e harmonizam-se as cores, multiplicam-se as modas e estudam-se os modos... e tudo para adornar, para disfarçar a tristeza realidade do nosso ser. Vaidades, caixas muito elegantes onde se guarda um pouco de pó.

Os salões iluminam-se e enfeitam-se para os bailes. Há flores, músicas e alegrias; um afã de gozo e uma ansiedade de aproveitar o tempo sorvendo todas as gotas da taça dos prazeres. Parece-nos ouvir o convite sedutor de que nos fala o Sábio: "Enchemo-nos de vinho precioso e banhemo-nos em perfumes. Corroemo-nos de rosas antes que murchem e deixemos em toda parte os sinais de nossa alegria." (Sap. 2,8) Senhor, e o homem passa a vida assim esbanjando o tempo e arruinando as forças, malbaratando as economias e sacrificando não raro a própria alma, para atenuar um pouco a sensação desagradável que sente ao tocar a terra de que é feito, para esquecer que é pó?!... Repita-lhe pois a Vossa Igreja: "Lembra-te que és pó".

Pó que pretende valer alguma coisa, sobrepondo-se aos outros e preferindo-se aos outros e preferindo-se ao próprio Deus, é o homem nas arrogâncias do seu orgulho e nas presunções da sua soberba. E no entanto eu sei que pó que se eleva é poeira arrastada pelo vento sem forma nem estabilidade, fadada a cair nas estradas onde todos o pisam ou nos campos onde macula a beleza das flores.

Senhor, eu preciso tanto de me convencer praticamente desta verdade, eloquente lição da fé e da experiência! Este punhado de cinzas com que o Sacerdote traça em minha fronte uma cruz, não é só um símbolo, é realmente a mesma substância do meu corpo. Pouco importa o receptuário que a contém, que ela esteja em uma bandeja de ouro ou em uma salva de cristal, é sempre cinza. O caso pode ser muito precioso, o conteúdo é sempre desprezível.

Mas, se assim é, como se explicam as Vossas predileções por este homem e os Vossos esforços por atraí-lo ao Vosso Coração? estou quase a protestar contra esta Vossa atitude. Pó não quisera ver eu nem debaixo de Vosso pés divinos, que devem pisar alcatifas de flores, como pois consenti-lo em Vossas mãos, sendo o objeto dos Vossos amores! Também não me atrevo a pedir-Vos que o lanceis para longe, porque bem sei como ele arderia nas chamas eternas. Não entendo, mas não posso contradizer Vossa palavra, nem contrariar Vossos desejos.

Que a fé me apresente este pó resplandecendo a glória da Vossa bondade e testemunhando a grandeza do Vosso poder na participação eterna da natureza divina, e encontrarei significado ao Vosso proceder. E não é isto o que ela me ensina, afirmando "eu creio na ressurreição da carne?" (Credo)

De lá do fundo destas sepulturas se levantará um dia, ao som majestoso do Vosso triunfo, este pó, reconstruindo o corpo de onde se desagregara com a morte. Corpo porém vivo, para viver eternamente.

Corpo dotado de prerrogativas que mais o aproximam do espírito, e do espírito na elevação da bem-aventurança celeste. Ele não ocupará mais um lugar no espaço nem pagará mais o ingrato tributo à dor e no sofrimento, locomovendo-se com a agilidade e com a subtileza do imponderável. Corpo humano, que, sendo receptáculo de uma glória, se fará com ela também glorioso.

Sou pó - "pulvis es" -. Mas pó que em Vossas mãos se tornou homem, e junto ao Vosso coração participa da grandeza de Vossa divindade.

(Elevações, pelo Pe. José Torrs Costa, S.J, ano de 1945, com imprimatur)

PS: Grifos meus.
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