quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O inferno


I. Tu, Minha filha, acaricias o corpo nutrê-lo, satisfazê-lo em tudo, e não refletes que, tratando-o dessa sorte, o tornas mais apto de ser preso dos fogos do Inferno. Oh! se conhecesses o que no outro mundo está preparado às almas sensuais, e que atrozes tormentos nele sofrem, repelirias num momento tudo o que podes pôr em perigo a tua salvação eterna. A penitência não mais te seria custosa: não te deixarias mais mover pelo respeito humano; não olharias mais o corpo senão como um servo inimigo a quem é preciso vigiar sempre severamente.

Coragem, pois, ó Minha filha, aviva a tua fé e unida a Mim, vem em espírito visitar o inferno. Examina esta horrível prisão, sem abertura, sem respiradouro, onde circula um espesso fumo e chamas devorantes. Mas tu enganavas-te se julgavas que este fogo tem alguma coisa de comum com o fogo de que fazeis uso sobre a terra. Ah! esse é um dote da bondade divina, que vo-lo concedeu para o vosso bem. Mas o fogo do inferno foi criado pela justiça divina, para castigar os maus revoltados contra ela. Produz todos os males que pode ocasionar o fogo da terra e não produz bem nenhum. Não ilumina, não enfraquece, não se extingue não mata. O fogo da terra não tem ação nenhuma sobre os espíritos, mas este é elevado por Deus a um grau de atividade tão terrível, que queima os espíritos como os corpos e abrasa os corpos como os espíritos sem os consumir. Se o fogo da terra é tão ativo que petrifica nas fornalhas o barro mole como o granito, pulveriza as pedras mais duras, funde os metais nos cadinhos, que fará lá em baixo esse horrível elemento, agitado fora disso pelo sopro dum Deus irritado! Vê como as suas chamas se agitam sem repousar se retorcem, se levantam do chão, se arremessam com silvos horrorosos sobre esses infelizes. Vê como enroscando-se neles os estreita, os trespassa, os despedaça. Escuta os seus gritos, os seus lamentos, as suas comoções de desesperar.

Se tu te expões a ser condenada onde te colocarás neste profundo abismo? debaixo dos pés destes monstros cruéis? Ah! tal será, pois a tua eterna morada.

II. O suplício do fogo não é o único ó Minha filha, que atormenta no inferno os desgraçados condenados as penas eternas. Esses olhos que têm lançado tantos olhares lascivos serão punidos por um fumo e trevas que os forçarão a derramar torrentes de lágrimas, não lhes restará senão a luz necessária para divisarem mais horríveis desses monstros horrendos que a cada instante os farão estremecer.

Esses ouvidos que se têm aplicado a ouvir cantos desonestos, discursos vergonhosos, serão continuamente ensurdecidos pelos berros, gritos, maldições e blasfêmias desses desesperados. Examina que mau cheiro são transformados os perfumes, as essências odoríferas de que se perfumavam esses efeminados. Como todas as gulodices agora são satisfeitas! Como eles têm desejo das iguarias esquisitas e das beberagens estudadas! Há vinte séculos que o mau rico ali pede arquejante uma gota d'agua para refrescar o ardor dos seus lábios, mas é em vão, nunca a obterá. Os maus, durante a sua vida têm abusado de todos os seus sentidos para ofender o Criador; é bem justo que sofram neles uma dor particular; que tudo quanto foi durante a sua vida um instrumento do pecado, se torne em instrumento de suplício.

Desgraçada de ti Minha filha se te condenas às penas eternas; se trocas as conversações deliciosas por horríveis conversações com os demônios; os passeios e os divertimentos por uma prisão desesperadora; o repouso sobre moles plumas por cruéis agitações sobre um leito de fogo; as graças e a beleza que ostentas com tanto orgulho, por uma fealdade tão medonha que o mais horrendo monstro da terra não poderia igualar, e que; tornada para ti um objeto de horror, dar-te-ias de boa vontade a morte, buscarias mesmo um inferno mais cruel contanto que ele te pudesse livrar da vista de ti própria. Eis aí onde rematam os vícios e as paixões. Eis aí os sofrimentos e as dores onde conduz o caminho largo da libertinagem.

III. Até ao presente, Minha filha, não tens meditado senão acerca dos suplícios que atormentam no exterior os condenados. Oh! se pudesses ver os castigos muito mais terríveis que os dilaceram no interior, o teu espanto redobraria. Esses desgraçados confessam, mas inutilmente que se têm iludido. Maldizem a sua loucura que, por um prazer momentâneo lhes tem feito escolher um castigo tão horroroso. Reconhecem que tinham pouca coisa a fazer para se salvar, e que tem feito e sofrido muito mais para se perderem. Recordam as exortações, os avisos, os sermões que têm ouvido e de que não têm feito caso, ou mesmo têm escarnecido. Abandonam-se, pois a todos os furores do desespero, mordem as mãos com raiva, laceram as carnes, despedaçam-se, amaldiçoam-se, acusam-se uns aos outros de terem praticado os escândalos que originaram a sua condenação. Examina como eles se revolvem ferozes para os demônios que escarnecem a sua sorte.

Compreende por isso que tempestade agitadora de inimigos, de rancores, de afrontosos desesperos agita os seus corações, os dilacera, os tortura. A felicidade dos santos, para quem, a seu pesar, lançam olhares invejosos, contribui a tornar mais atroz o seu inferno. A perda irreparável do Deus que devia fazer a sua felicidade e ao qual eles sabem que têm preferido uma vilania, e mesmo o demônio, roe-lhes o coração e lança-os no mais horrível desespero.

Ó Minha filha, um tão afrontoso espetáculo não bastará para te ensinar a que perigos te expõem as vaidades, os amores profanos, os costumes dum mundo perverso, e para fazer-te mudar de vida? Ah! por piedade de ti mesma, corrige-te, toma um outro caminho. Não vês tu que aquele que tens seguido até hoje te conduz a esse termo fatal? Hesitas ainda? Oh! não, Eu não quero que tu te condenes. Se tudo quanto tens meditado não basta para te mover, eis-Me prostrada a teus pés para te pedir e rogar a mudar de vida e não te precipitares no inferno. Colocar-Me-ei sobre o limiar desse inferno terrível para te conservar e impedir de cair nele. Serás tu surda à Minha voz? inflexível a meu pedido? Para satisfazer as tuas paixões quererás perder-te, mau grado Meu, e calcar-Me aos pés para correr a precipício? Vai, pois, ai de Mim! não poderei senão chorar a tua obstinação e tua louca cegueira.

Afetos. Surda à Vossa voz? inflexível ao Vosso rogo para cair no inferno? Ó Virgem Santíssima, que monstro de crime eu não seria! Não, todos os tormentos do infernal abismo, fossem eles mil vezes mais dolorosos, não bastaria para punir a minha louca audácia. Não, todos os raios da cólera divina despedidos contra mim não seriam suficientes para um castigo proporcionado à minha monstruosa ingratidão. Que compaixão poderia eu esperar? Pode ser que a justiça divina, ameaçando-me com suplícios tão terríveis, ainda não conseguisse mover o meu coração, mais duro que a pedra? Pode ser que, meditando a respeito dum fogo tão horroroso, eu não tenha aprendido quanto é perigoso o viver na inimizade de Deus? Que mistério incompreensível eu não sou? Temo o inferno, tenho medo de cair nele, amo aquilo que para ele me impele! O meu temor e as Vossas exortações, ó Mãe querida, não são suficientes para me desprender daquilo que me arrasta ao inferno! Oh! que feneçam e desapareçam de vez as vaidades, os amores profanos, os adornos, as festas, os prazeres ilícitos e tudo quanto pode expor-me ao perigo de me condenar às penas eternas. É tempo de sair, finalmente, duma tão criminosa letargia. Ó Mãe compassiva já que Vos dignais instruir-me com tanta ternura, não cesseis de me dirigir no custoso caminho da salvação. Dirigi-me censuras; puni-me severamente todas as vezes que dê um passo errado, a fim de que emende o meu proceder, que me não desvie do direito caminho do céu, e que não caia nessa ruína irreparável, nesse terrível inferno.

(Maria falando ao coração das donzelas pelo Abade A. Bayle, 1917)

PS.: Grifos meus.
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