quinta-feira, 3 de março de 2011

V- O pecado mortal (Conclusão)

V - O pecado mortal (Conclusão)



I - Tu tens meditado, Minha Filha, a respeito do horrível ultraje que o pecado mortal faz a Deus, mas não sondastes ainda toda a sua maldade. - Para fazeres dele uma idéia exata, considera a quem tens comparado Deus. Todo aquele que peca mortalmente, desvia-se dEle para não ver senão a criatura que o seduz e que estima mais que o mesmo Deus. Portanto, todas as vezes que tens ofendido Deus pecando, tem-lO comparado indignamente, que digo Eu? - tens-Lhe preferido as mais vis criaturas, tens feito dessas criaturas ídolos de abominação que colocaste no lugar dEle, e a quem amas e estimas mais. Eis- aí, Minha querida filha, a afronta de que Deus se queixa por meio do profeta Isaías, dizendo: - A quem Me tens tu assemelhado? - e por meio de Ezequiel: - Tens-Me expulsado bem longe do teu corpo, isto é, tens tido por teu corpo mais amor e estima do que por Mim. E isto que Ele diz do corpo, deve-se entender a respeito de tudo aquilo que toca ao pecado.

Quantas vezes tens feito a Deus este terrível ultraje, por vaidade, por uma amiga, por uma criatura a quem quiseste contentar! lendo na paixão do Meu divino Filho que os judeus Lhe preferiram Barrabás, mas duma vez, talvez, tenhas sido atacada duma santa cólera contra eles.

- Cruéis, diras tu, preferis ao Filho de Deus um infame assassino! - Ah! Minha querida filha, Barrabás era um homem, contudo, que à força de penitência podia converter-se e chegar a ser um santo; mas quantas vezes, por uma injúria maior, tens preferido a Deus um capricho, um acesso de paixão brutal! Que cegueira! que crueldade!

II - Uma outra verdade ainda, é que pecando mortalmente, não só se prefere a Deus um objeto vil, mas prefere-se-lhe o demônio. Coisa horrível de pensar, mas que não é senão, ai! uma grande verdade. Tu bens sabes, Minha Filha, que o teu coração foi feito para ser o templo vivo do Espírito Santo, cujas mais queridas delícias são habitá-lo para conservar puro. Mas que fazes quando cometes o pecado? 

Ó insulto horrível! expulsas Deus do coração para nele acolheres o demônio; chamas o espírito infernal e dize-lhe por vontade própria: - Sê meu amor, minhas delícias, meu tudo. - Para te convenceres que tal tem sido a tua maldade, recorda-te do terror  que tiveste tendo de cometer a iniquidade. Olhavas atentamente de todos os lados; temendo ser vista, cobria-se-te o rosto de rubor; o medo e os remorsos agitavam-te a consciência e ouvias no coração uma voz que te dizia: - Que fazes tu, Minha filha? queres perder-te por semelhantes violações da lei de Deus! Quem fazia nascer em ti esse temor e esses remorsos? quem te falava ao coração? Era Deus que queria desviar-te do mal, que te excitava a vencer valorosamente a tentação.

Mas tu escutavas outras vozes que te excitavam, ao contrário, a pecar - Quem temes tu, diziam elas? porque é esse medo? és tu a única a fazes essas ações? Tu te confessarás. Deus é bom e perdoar-te-á - Quem proferias essas palavras funestas? O demônio, que se esforçava por fazer-te cair para te submeter ao seu jugo. Era o momento de decidires se querias pertencer a Deus ou ao demônio. Dize-me, quem triunfou? para qual te voltaste? Para Deus? Não; apesar da tua vergonha e temor, fazendo calar a consciência, fechando os ouvidos às palavras celestes, expulsaste Deus do teu coração fizeste uma escolha infame inclinaste-te para o demônio, preferiste-lo a Deus dando-lhe entrada na alma. Não é isto verdade? Ah! desgraçada, tendo Deus por inimigo, tendo o demônio, o inferno na alma, podes viver um só instante alegre e tranqüila?

III - Tinhas alguns motivos, ó Minha filha, para tratares assim o teu Deus? Ó criatura ingrata, não é Ele para ti um ente benéfico, um Pai cheio de amor? Mas se Ele é teu Senhor, onde está o respeito que Lhe tributas? Se é teu Pai, onde está o amor que Lhe testemunhas? A vida que te anima, a saúde de que gozas, os bens de fortuna os sentimentos do teu coração, não passam de dotes da Sua bondade. Tu mostras-te conhecida para com todos aqueles que te fazem bem; não é pois, senão para Deus, Minha filha, que és ingrata! Se não queres deixar de O ofender, cessa ao menos de pôr nEle a tua confiança, de Lhe dares o nome de Pai, de Me chamares tua Mãe, porque Nós não podemos ver em ti senão um mostro desnaturado.

Teu Pai será aquele a quem contentas. - será o demônio; porque o terás para a morte e para a eternidade. Ah! Minha querida filha, se estas reflexões te não gelam de terror, não Me resta senão chorar sobre a tua incompreensível cegueira. Fez-te Deus algum mal aturando-te não obstante as tuas desordens? arrancando-te tão repetidas vezes ao espírito infernal que te arrastava para o abismo, suspendendo a espada vingadora da Sua divina justiça, que tantas vezes te devia fulminar como uma planta nociva que convinha lançar ao fogo eterno? Contempla-O agonizante sobre a Cruz, ensangüentado e todo coberto de chagas por ti.

É essa uma das suas injustiças? é porque tem amado tanto a tua alma que tu julgas no direito de O desprezar e ofender!

Ah! se tais excessos fossem cometidos por aqueles que nunca O conheceram, talvez os sofresse pacificamente; mas da tua parte, Minha filha, da tua parte!... Considera que a paciência fatigada se troca em furor, e que o amor demasiadamente desprezado se muda em ódio implacável; qual é então a sorte que te espera.

Afetos. Ó Mãe Santíssima, sinto-me desfalecer ao ouvir tão justas censuras, e o meu coração está oprimido. Oh! se essas censuras Me fizessem morrer de pesar à vista das minhas culpas, seria feliz. A minha negra ingratidão para com Deus e para conVosco. Mãe queridíssima, teria enfim um termo. Haveria no mundo um monstro de menos. Ó meus pérfidos olhos que tantas vezes tendes arrebatado a Deus a Minha alma para a entregar como um brinquedo aos demônios! Ó minha língua maldita, que tantas vezes tens vomitado diante de Deus a peçonha que te alimentava, ensopada no fel de impuras delícias ou envenenadas pela cólera e o desespero. Ó mãos criminosas que tantas vezes tem enterrado uma lança aguda no lado sagrado do meu Salvador, ou no coração de Maria, Minha terna Mãe.

Ó meus culpados ouvidos, tantas vezes fechados com uma teimosia obstinada as palavras amorosas de meu Deus, tantas vezes atentos aos silvos infernais do inimigo que os encantava com os vergonhosos engôdos do prazer. Ó meu sórdido coração, que de templo vivo do Altíssimo te transformaste em lodaçal onde se têm aglomerado em víboras do inferno! Ó minha vontade injusta e rebelde, que tantas vezes tens repelido Deus para te prenderes ao demônio! Oh! quem me sustentará, quem me guiará? Mãe amabilíssima, à vista das culpas sem número que a minha consciência me censura, não posso mais que desfazer-me em lágrimas, oprimida dum amargo arrependimento. Ah! possam ao menos essas lágrimas lavar as nódoas da minha pobre alma. Não, minha querida Mãe, não quero mais ser ingrata para com Deus e para conVosco. Primeiro a morte que uma igual cegueira.

(Maria falando ao coração da donzela, meditações para todos os dias do mês, traduzidas do italiano pelo Abade A. Bayle --Professor de Eloquência Sagrada na Faculdade de Teologia de Aix--; Quinta edição, Livraria Catholica Portuense, ano de 1917)

PS: Grifos meus.