sábado, 10 de dezembro de 2011

Acerca da perseverança


I. A enormidade do pecado, a beleza da virtude, os terríveis castigos que te esperam se vives mal, as recompensas inefáveis que te estão reservadas no céu, se vives bem, tem-te decidido, com grande alegria de Deus e Minha, a formar bons projetos e a tomar resoluções santas, a fim de viver como uma donzela verdadeiramente cristã. Mas serás tu fiel em observá-las? Serás perseverante no bem que tens começado? Ah! que é pois o homem? Vê-o bem, aprova-o, admira-o e ama-o; enquanto a razão o guia, está resolvido a segui-lo, e depois, cego pelas seduções dos sentidos e das paixões, deixa-se arrastar ao pecado, apesar das luzes da razão que o condena, e apesar das censuras da consciência.

De que te serviria, ó Minha filha, o bem que tens feito, se tornasses a cair nas culpas que tens detestado, e nos Meus hábitos; se, olvidando tudo quanto tens resolvido, tudo quanto tens prometido cumprir, tornasses a ser tal como antes da tua conversão?

Ai! isso não serviria senão para uma condenação maior. Mais te valia não ter conhecido a verdade do que abandoná-la depois de tê-la conhecido. Não é aquele que tiver começado bem que será salvo, mas aquele que tiver perseverado fielmente, até ao fim; não é aquele que tiver dado alguns passos no caminho da verdade, mas, aquele que chegar com felicidade ao termo quem ganhará o prêmio e a coroa. Sê, pois de futuro constante no bem que tens começado, fiel em tudo quanto tens valorosamente resolvido, e o céu não poderá faltar-te. Deus mesmo empenhou a Sua palavra, que não pode enganar: Quem perseverar até ao fim será salvo.

II. A reunião de todas as virtudes, ó Minha filha, não te servirá, pois de nada, como vês, se não for coroada pela perseverança. Deves, portanto pôr todo o teu cuidado em perseverar no bem e não deixar nunca de pedir a Deus nas tuas orações o dom da perseverança. Esta graça, Minha filha é tão grande, que excede muito o merecimento dos cristãos mais perfeitos. É o dom mais precioso que Deus pode conceder aos Seus eleitos, porque, se a lei é o principio da tua salvação, é a perseverança que a conclui. Se, pelo batismo, adquiriste os direitos a glória celeste, é a perseverança que te fará possuir. Se as luzes, as graças divinas e os sacramentos que recebes aumentam os teus merecimentos para o céu e te tornam mais agradável a Deus, não te tornam, entretanto nem invencível nem impecável, se te não assistir o dom da perseverança para te fazer vencer as ciladas do inferno, as concupiscências da carne e os prestígios do mundo.

Portanto a perseverança deve coroar todas as virtudes; é ela o caminho venturoso onde remata o caminho da salvação. Mas a grandeza de semelhante dom deve fazer-te compreender a necessidade em que estás de merecê-lo; porque Deus, sem dúvida, é liberal em Seus dons, mas não é prodigo.

Deves merecê-lo pedindo-o piedosa e humildemente: Pedi, nos diz Ele mesmo, e recebereis; procurai e achareis; batei à porta e ser-vos-á aberta. Deves merecê-lo por uma vigilância continua sobre a tua conduta, a fim de não seres semelhante à essas virgens loucas que não foram admitidas na sala do festim, porque não tinham velado e não estavam com as suas lâmpadas cheias esperando o divino Esposo.

III. O inimigo infernal, ó Minha filha, te declarará uma guerra encarniçada; não poupará nem manha nem embuste para te fazer faltar à perseverança. Tentações contínuas, desgosto do bem, solicitações ao mal, impaciências, zombarias da parte dos mundanos por causa da tua fidelidade aos teus deveres de cristão, seduções do mundo, que te farão desejar a pompa e grandeza, laços estendidos a cada passo; porá tudo em campo para te fazer cair.

Mas nada temas; quanto mais o combate for renhido tanto mais a vitória será gloriosa. Procurará persuadir-te que não te é possível levar uma vida virtuosa, que é sempre tempo de te dares a Deus. Mas desconfia das suas sugestões, minha filha. Estás perdida se dás ouvidos aos silvos infernais. Deverás combater e sofrer, mas já tens compreendido que se não ganha o céu sem trabalhos e sem tribulações. Tens meditado, tens resolvido levar a tua cruz para marchar sobre os vestígios do Redentor. A virtude tem suas dificuldades, mas não seria meritória se não houvesse nada a sofrer para a praticar. Além disso, bem sabem que não és só tu a levar a cruz; Meu divino Filho precede-te e levá-la-á mesmo contigo.

Sabes que Ele não permitirá nunca que sejas tentada além das tuas forças, e que te concederá as graças suficientes para venceres com glória a tentação. Fortifica-te, pois com estas reflexões. Pensa, além disso, que as graças de Deus são contadas como os dias da tua vida; que os julgamentos de Deus são terríveis, espantosos; que as penas reservadas aos maus são eternas; que um só momento pode fazer-te perder o fruto de todo o bem que tens feito; que a vida, por longa que seja, nada é em comparação da eternidade; que tudo podes com a graça de Deus. Eleva enfim os teus olhares para céu e vê se é esta uma recompensa que merece que empregues todos os teus esforços para obtê-la.

Afetos. Ó Minha terna Mãe, reconheço agora, graças às luzes com que me haveis instruído, que de nada serve ter conhecido a verdade se se não segue, e de tomar boas resoluções não as observando. Reconheço também que nenhuma virtude sem perseverança merece louvor ou recompensa. Mas a minha inconstância faz-me tremer. Desgraçada! que viria a ser de mim se aquela inconstância se unissem as seduções do mundo, os laços do demônio e as revoltas das minhas paixões!

Eis aí querida Mãe, o que me faz temer vivamente de faltar à perseverança. De que me serviriam estas minhas resoluções e bons projetos? De que me serviria o Vosso maternal cuidado de me instruir e guiar? As Vossas palavras entanto consolam-me ensinando-me que se por mim própria nada posso, tudo poderei com a graça divina. Fortalecida por essa graça e esperançando-me nela, disponho-me com inabalável resolução, combater as tentações do inimigo, desprezar as seduções do mundo, não fazer caso de tudo quanto digam de mim, e reprimir todas as minhas paixões. Ó divina Mãe, já que Vos tendes dignado instruir-me, dignai-Vos socorrer-me com a Vossa poderosíssima proteção. Sustentada com a graça de Deus e Vosso apoio, espero continuar com perseverança o bem principiado; espero acabar em paz a minha vida e santificação. Amém.

(Maria falando ao coração das Donzelas pelo Abade A. Bayle, 1917)

PS.: Grifos meus.
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