domingo, 20 de março de 2011

A Crucificação

A Crucificação


Nos autem gloriari oportet in cruce Domini Nostri Jesu Christi.

Devemo-nos gloriar da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo

Ei-lO, enfim, no porto desejado, o Eterno Viajor! A barca da Salvação, que Ele conduzia através das ondas do Seu precioso sangue, lançou, enfim, a âncora no Calvário!

Está desfigurado?! Os Seus membros já não têm movimento?! Esses olhos que penetram as profundezas do céu e os abismos do inferno parecem já não contemplar esta cena mais infame da história, este atentado mais covarde do poder político, este escândalo mais vil e ignóbil da justiça humana?! Está desfigurado?! Esgotaram-se-Lhe as forças?!

Mas Ele vem de bem longe, o Piloto da Redenção. Aos judeus, que O conduziram do Pretório ao Calvário, pensam que Ele fez apenas o percurso de um quarto de légua; mas Ele vem da eternidade; Seu precioso sangue dado aos carrascos, ab aeterno é visto por Deus.

Sim: Ele existiu, antes da criação de todos os mundos, na tranqüila e vasta visão da inteligência divina; existiu nas possibilidades de uma Encarnação impassível e gloriosa; existiu nas heróicas resoluções de uma Encarnação sujeita aos opróbrios, as ignomínias, aos sofrimentos e a morte. Ele fez uma viagem bem longa, através de todas as criações do espírito, da matéria e da humanidade. Penetrou na esfera angélica: e os anjos salvos o foram pela virtude, já conhecida por Deus, da efusão futura de Seu sangue.

Penetrou na esfera da criação material: e os penhascos, os mares, os elementos, as massas brilhantes que se equilibraram no espaço, os átomos misteriosos que operam nas profundas evoluções da terra, todo o universo foi preservado da desorganização que lhe traria o pecado sem o banho lustral de Seu sangue.

Penetrou no mundo humano; parou no Paraíso Terrestre; contemplou com imensa tristeza o espetáculo da queda primitiva; o pecado de Adão abriu-Lhe no coração fontes de ternura infinita; entre a Justiça, que Lhe impunha a aversão pelo culpado, e a Misericórdia, que Lhe inspirava profunda piedade pelas ruínas da sua obra prima, preferiu tirar dos restos daquela beleza desfigurada pela rebeldia da prevaricação original motivos de indulgência; revestiu-se dos emblemas da paixão; deu definitivamente à realeza impassível e gloriosa sobre cujo trono o universo inteiro teria de adorá-lO a púrpura de dores que devia torná-lO mais direta e proximamente o Rei da humanidade.

E continuou a viajar: e viajou quatro mil anos; e deu vigor aos patriarcas, deu entusiasmo aos profetas, animação a todas as idades do mundo, remédio a todas as catástrofes da humanidade, até que, enfim, pairou sobre uma obscura aldeia, penetrou nos recessos de uma Virgem, onde encheu de sangue as veias de um menino, que a humanidade viu depois nascer em Belém, crescer em Nazaré, preparar-Se numa oficina, batizar-Se no Jordão, fortifica-Se num deserto, e em plena virilidade entrar com estrepito e assombro na vida pública. No meio dos encantos indescritíveis do presépio, nas fadigas da viagem e do refúgio no Egito, nos labores da pequena cidade que ocultou a Sua juventude, no batismo, na penitência, no ministério público, o cimo desta colina – o Calvário – foi sempre a mira dos Seus desejos. Era no Calvário que se devia realizar a efusão que salvou o mundo; o Calvário era o sofrimento supremo; era o fim da batalha e o complemento dos decretos eternos.

Ei-lO, no Calvário! Despiram-nO, deixando-O nu, e de tal modo, com tamanha ofensa do pudor, que Sua Mãe teve de cobri-lO com o Seu véu.

Estenderam-nO sobre a Cruz, tosca e mal desbastada. Cravaram-Lhe as mãos e os pés.

Entre os alaridos da canalha, que gritava, e as blasfêmias dos sacerdotes, Escribas e Fariseus, que zombavam d'Ele, levantaram-no entre dois ladrões.

A Virgem, São João e a Madalena contemplam-nO com dor inenarrável. Todas as Suas feridas sangram; todos os Seus sofrimentos físicos renovam-se.

As mãos, os pés, os nervos, as veias, as artérias, todo o seu corpo... crucificado! E, sem embargo, a Infinita Ternura não abandona o Infinito Martírio: é a mesma Bondade, que se compadece de nós; é a mesma Sabedoria que lamenta a nossa ignorância; é a mesma Doçura, que fala ainda, e fala para o que?!

Para pedir o perdão dos carrascos que O crucificam; para dar à humanidade, como o Seu legado, na pessoa de João, a Sua própria Mãe; para dar a nós todos, em permuta do fel e vinagre que Lhe oferecem; a fonte de água viva que nos há e saciar; para fazer nessas sublimes palavras da Cruz as últimas disposições da Sua vontade – o Seu codicilo: porque o Testamento já estava feito: era a Eucaristia, a doação da Sua própria carne e do Seu próprio sangue!

Ei-lO crucificado! Pois será este o resultado de toda uma vida consagrada ao amor da humanidade? Será este o resultado de um heróico apostolado de três anos?!

Sim; é este o resultado. Para a história o Calvário é um insucesso, e o maior de todos os insucessos, porque é a derrota de Deus, o repúdio da Sua obra, o triunfo medonho da perversidade humana contra a Bondade Divina, a completa humilhação do Verbo Encarnado, a pavorosa atrocidade do Seu suplício, o supremo horror do Seu martírio, a profunda desolação da Sua alma, a infinita amargura do Seu coração; é o Criador confundido pela criatura; é a liberdade do homem calcando aos pés o amor de Jesus Cristo.

Mente a história? Não; já não podemos negá-lo: Deus foi vencido; e o zelo, a bondade, a eloqüência incomparável, os milagres estupendos, a sublimidade dos três anos de apostolado não fizeram senão tornar mais estrondosa a sua derrota.

Não se pode negar; mas pode-se, mesmo no terreno da história, explicá-lo.

A esperança messiânica enchia o mundo inteiro; como todos os povos, também o povo judeu esperava o Libertador.

Ele aparece; percorre toda a Judéia; enche-a de prodígios.

Prega o Seu Evangelho, revelando segredos que ab-aeterno via em Seu Pai. É alívio para os enfermos, esperança para os desventurados, misericórdia para os pecadores. É cheio de beleza, de graça, e doçura. Sua vida, Sua doutrina, Seus milagres – tudo revela o Seu caráter, que é sempre divino, a Sua bondade, que é sempre infinita. É o homem perfeito, em tudo igual e santo, sem prejuízo da bondade sempre viva, e tão imensa que, diz Bossuet, os Seus milagres revelam mais a Sua bondade que o Seu poder.

O que em todos os Seus atos O domina é o sentimento profundo da paternidade divina; é a idéia de uma aliança nova e feliz entre Deus e os homens. E é para intermediário desta nova aliança que Ele Se oferece; aliança cuja fórmula suprema Ele traduz na Sua expressão predileta – o Reino de Deus.

A humanidade, diz um teólogo, conhecia o reino da matéria, o reino animal, o reino da razão; adorava as leis físicas, via reproduzidos em si própria os instintos brutais, sentia ausentes da sua inteligência as idéias que poderiam nem deixá-la confundir-se com a matéria, nem identificar-se com o animal. O homem só operava na tríplice esfera da matéria, da animalidade e da razão; Jesus Cristo, porém, aparece e lhe revela uma nova esfera, um novo horizonte, um reino novo.

Este reino é o Reino de Deus, de todas as concepções, a mais vasta que já registrou a história, porque é o Espírito mesmo de Deus tomando no Cristo e pelo Cristo posse da humanidade, libertando-a das leis da matéria, dos instintos do bruto, e dos desvarios da razão individual; é o reino cujo chefe é Jesus Cristo, cuja lei é a vontade do Pai, e cujos súditos são todos os homens.

Todos os homens, sim; porque Jesus Cristo convida para o Reino de Deus todos os povos, todas as raças, todas as civilizações. O Reino de Deus não tem fronteiras; desafia todas as nossas mesquinhas concepções de cosmopolitismo, todas nossas estreitas teorias de fraternidade.

É o reino universal, eterno, que, na verdade, tem começo e desenvolvimento na terra, mas encherá o universo, no seu triunfo definitivo, quando, numa imensa palingenesia a humanidade transfigurada aclamar em Jesus Cristo o Rei de toda criação.

Sem dúvida, o Reino de Deus, tal como Jesus pode inaugurá-lo na terra, parece ser principalmente o Reino dos pobres, dos infelizes e dos humildes; mas a ingratidão humana não destrói os desígnios de Deus, que no Cristo, isto é, através dos véus da carne em que se nos revelou, ofereceu-O a todos os homens.

Todos a quem não satisfaz a realidade presente; todos que têm um ideal acima das misérias da terra. Todos que têm fome e sede de justiça podem e devem ser súditos de Jesus Cristo. Porque não são?!

Porque o Reino de Deus sofre violência, isto é, não se faz parte dele senão renunciando-se a si próprio no que se tem de vil, de imperfeito, de mau. Os orgulhosos, os satisfeitos de si próprios, os inchados de ciência, os escravizados por suas paixões não se resignam a isto. Eis porque para muitos o Reino de Deus fica inacessível; do mesmo modo que para os Judeus ele parece obscuro, não obstante o seu fulgor.

Como poderiam eles compreendê-lO?

Jesus Cristo fala, e as Suas obras dão testemunho de Sua palavra. Mas a aceitação de qualquer palavra, ainda mesmo a de Deus, não é resultado somente da verdade que ela contém; e mais ainda do estado moral de um povo, do estado de sua consciência, e das aspirações de seu espírito.

Ora, na Judéia os políticos desejam apenas a restauração política do país; os padres – o predomínio exclusivo e universal da lei Religiosa em vigor; o povo, em geral, uma revolução que o liberte do despotismo romano.

Nem os políticos, nem os padres, nem mesmo o povo podem compreender o apostolado de Jesus! É verdade que Ele atrai a multidão; é verdade que um momento Ele fascina as classes populares; é verdade que mesmo um triunfo momentâneo parece reconhecê-lo como o Libertador da Judéia.

Mas bem depressa o entusiasmo popular faz causa comum com os políticos, e os padres, e todas as forças da nação – poder, ciência, sacerdócio, plebe, coligam-se contra Ele.

Os políticos acusam-nO de conspirador; os padres – de blasfemo; a canalha – de simples aventureiro.

Uma nação assim obcecada não podia compreender o Reino de Deus; e, quando o Libertador lhe apareceu, manso, humilde, sem fausto nem grandezas terrestres, ela não podia reconhecer nEle o Salvador da humanidade.

É justificável o seu engano? Não; porque os padres deviam conhecer as profecias, estudá-las, compará-las com a vida de Jesus Cristo, ensinar o povo, mostrar-lhe os sinais do tempo. Era neste, então, o grande papel do sacerdócio, que, entretanto, aviltou-se, desprezou o espírito da lei, desfigurou o culto, profanou o templo, e corrompeu todos os elementos da nação. Nenhuma idéia grande nos púlpitos; nenhum sentimento sincero nos atos da religião.

A prática exterior absorvia o sacerdócio; o texto da lei era toda a ciência dos saduceus; a pompa e o brilho das festas eram todo o objeto do culto; e o povo, corrompido por esse simples aparato de fé e piedade, bem pouco preparado estava para a caridade real do reino de Deus, que, entretanto, passou no meio dessa profunda decadência política, social e religiosa sem nada perder da Sua beleza e serenidade.

Jesus Cristo fica indiferente a todas as aspirações extravagantes do povo judeu. Não é a liberdade judaica que Ele vem promulgar: é a liberdade humana; não é a restauração política da Judéia que Ele vem fundar: é o Reino Universal de Deus, reino de que, entretanto, o povo infiel seria o arauto, sem a apostasia que o maculou.

Por Sua sublimidade, a obra transcende o nível intelectual, moral e religioso da Judéia; e por isso Jesus Cristo é repudiado. Este repúdio é, porém, o castigo da nação judaica; como é castigo de todos os povos corrompidos na política, na ciência, no poder, na magistratura, no ensino, na religião, acabarem repudiando Jesus Cristo.

Foi crucificado, sim; e o Calvário é para a história o maior dos insucessos. Mas é também para a fé o maior de todos os êxitos. Nem a história mente; nem a fé se ilude.

Crucificando Jesus Cristo, os Judeus supunham cobri-lO de ignomínia e infâmia. Não faziam, entretanto, senão dar-Lhe o gênero de morte que Ele próprio tinha de antemão aceitado o mais apropriado aos Seus desígnios. Era justamente o Calvário o altar escolhido para a redenção; era justamente aquela Cruz infame o trono em que o Rei da nova humanidade devia fazer brilhar toda a divina majestade do Seu ministério.

Sim; a crucificação era nos desígnios de Deus o complemento da Sua obra; era a crucificação que convinha a pena do pecado, a maldição do pecado, a voluntariedade do sacrifício e a natureza da mediação.

A pena do pecado. Jesus Cristo, tendo-se proposto expiar todos os pecados, devia sofrer a pena devida a todos os pecados. O corpo do pecado. Diz São Paulo, é a concupiscência devia ser imolada em todos os Seus movimentos e desordens.

Esta imolação, porém, da concupiscência, dizem os teólogos, não podia efetuar-se senão pelo suplício da cruz que se experimentam ao mesmo tempo todos os sofrimentos de todos os diferentes gêneros de morte; é na cruz que toda concupiscência, isto é, o orgulho, a cobiça, a sensualidade, é imolada; é na cruz que se sofre em todos os membros, ossos e fibras; é na cruz que o opróbrio, unindo-se a dor, não somente a alma e o corpo, mas todo o sentimento da alma e toda a parte do corpo tem o seu sofrimento particular.

Mas, como Jesus Cristo, inocente, podia na sua carne, sem pecado sofrer a pena do pecado? A teologia no-lo ensina. Deus, fazendo-Se homem, revestiu-Se, não da humanidade impassível, como existiu em Adão inocente; mas da humanidade passível, como existiu em Adão prevaricador. É assim, diz São Paulo, que, sem ter a carne do pecado, a natureza humana do Verbo tinha a semelhança exterior da carne do pecado, e pode expiar a pena do pecado.

Fazendo-Se homem, Deus também não tomou a carne de um indivíduo, de um só homem; mas de toda a espécie humana. É assim que Jesus Cristo pode representar a todos, pagar a concupiscência de todos; e, como diz São Paulo, em Jesus Cristo crucificado foi crucificada a humanidade inteira.

Se a crucificação era conveniente a pena do pecado, não o era menos a maldição do pecado.

A morte de cruz era por excelência o sinal de ignomínia, infâmia e desprezo.

Jesus Cristo que, como mediador universal, queria revestir-se todo o opróbrio do gênero humano, devia ser morto do modo mais infamante, para que aos olhos de Deus fosse visto carregado de toda maldição.

Só a crucificação podia também revelar a voluntariedade do sacrifício. Ele sacrificou-Se porque quis: oblatus est quia ipse voluit. Mas nenhum outro gênero de morte podia aos olhos dos homens, tanto como a crucificação, provar essa voluntariedade. Se, diz um teólogo, Ele fosse assassinado como Abel, levado a uma fogueira como Isaac, serrado como Isaias, lapidado como Zacarias, ou degolado como João Batista, parecia não sucumbir senão a uma força exterior; parecia não ser senhor da Sua vida e dos Seus últimos momentos; parecia morrer, não como aconteceu, no momento escolhido por Ele próprio, mas no momento escolhido pela brutalidade dos Seus carrascos.

A crucificação, porém, é um suplício que não dá a morte no momento escolhido pelo executor; que não causa senão uma morte lenta e difícil, deixando muito tempo a vítima entre a vida e a morte. Portanto, Jesus Cristo, aceitando a morte de cruz, demonstrou que sua morte era menos o efeito do ódio dos Judeus que da Sua vontade, que só permitiu o esgotamento de todas as suas forças e de todo o calor vital depois de ter dito na Cruz tudo que lhe convinha dizer, e ter mostrado, surpreendendo com a Sua morte os próprios carrascos, que era o senhor absoluto da Sua vida.

Finalmente, a crucificação convinha a natureza da mediação, porque Jesus Cristo era o mediador entre o céu e a terra, e é pela Cruz, diz São João Crisóstomo, que Jesus Cristo é colocado entre um e outra, mostrando-nos o caminho perdido pelo nosso pecado e reconquistado pelo Seu sacrifício; é na Cruz, diz São Cipriano, que Jesus Cristo se nos mostra a verdadeira escada que restabelece entre Deus e os homens e antiga comunicação; é na Cruz, diz Ventura, que Ele, estendendo Seus braços para os dois pólos, proclama assim que os tem abertos para abraçar todos os filhos de Deus disseminados sobre a superfície do mundo inteiro.

E agora, cristãos, agora dizei-me se a Cruz de Jesus Cristo é uma ignomínia ou uma glória; se, como o século, nos devemos envergonhar, ou se antes, como o apostolo São Paulo, nos devemos gloria dela.

Envergonharmo-nos?! Não; nunca!

Salve, Cruz de Jesus Cristo! Nós te reconhecemos como a nossa única e verdadeira glória: nos autem gloriari oportet in cruce Domini Nostri Jesu Christi. Tu foste a nossa reabilitação na queda, e a nossa vida na morte: per quem salvati et liberati sumus.

(A Paixão, pelo Padre Júlio Maria de Lombaerde, Cruzada da Boa Imprensa - Rio, ano de 1937)

PS: Grifos meus.

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