quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

III - O valor da alma

III - O valor da alma


I – Que é, pois, ó Minha filha, esse corpo que tanto amas e do qual acaricias os instintos desregrados a ponto de o expores com evidência ao perigo de o condenar as penas eternas? Examina-o na cova e reconhecerás que é terra e pó. O que é em seguida, a alma que lhe dá a vida e a forma? É um espírito raciocinador, semelhante por si mesma aos anjos, formada pelo sopro de Deus, e como saída da Sua boca, feita à Sua imagem e semelhança, objeto querido das Suas mais ternas complacências, amado e respeitado pelos anjos e pelos santos, venerado por todas as criaturas visíveis, de que é a rainha, e odiada pelos demônios, invejosos da sua sorte. E tu, respeitas tão pouco essa alma, que acontece muitas vezes submetê-la a todos os caprichos desregrados do corpo.

Ela é Senhora e Rainha, tu fá-la serva e escrava. O que por sua natureza é semelhante aos anjos, sujeitá-lo àquilo que por natureza é semelhante aos brutos.

Preferes ao que é imortal o que não passa de terra e pó. Há cegueira pior? Pode cometer-se uma monstruosidade maior? As almas mais perfeitas, as almas santas, velam sobre o seu corpo e martirizam-no como um escravo rebelde a quem é preciso reprimir. E tu, tu no meio de tantas paixões que te perturbam, fazes-lhe a vontade e nutre-lo com a mais extrema delicadeza. É possível que, tratado por esse modo, se não revolte contra a alma e não tente seduzi-la e submetê-la a seus maus desejos?

Acautela-te, Minha querida filha, de caíres no abismo para onde te arrasta. Mantém no seu dever e não temas magoá-lo. Quem é tão louco que estime mais o barro que o ouro, a areia que as pedras preciosas? Qual seria o rei que ofendesse a rainha e lhe desse a morte para satisfazer o desejo do mais vil escravo?

Cometerias um erro muito mais funesto se para não afligires o corpo arriscasses a salvação eterna da tua alma.

II – Considera melhor, ó Minha filha, o valor da tua alma e vê tudo quanto Deus criou para ela. Se o sol resplandece no Céu, as nuvens estão carregadas de água, os mares povoados de peixes, e a terra coberta de searas e frutos, é por causa dela. Tudo aquilo que existe no universo foi feito para o seu serviço. Não creias que as magnificências do mundo fossem criadas para o corpo. Poderia ele gozar dela sem alma!

Sem ela que veriam os olhos, que ouviriam os ouvidos, que gozaria o teu paladar, que fariam as tuas mãos? Contudo todas as belezas da natureza nada são comparadas ao que foi feito para a alma na ordem de graça.

Deus não cessa um instante de conservar, dirigir, iluminar e atrair com tanta suavidade, que a leva insensivelmente para o fim bem-aventurado que lhe destina em toda a eternidade. Dá-lhe luzes contínuas para que possa descobrir as ciladas do demônio e evitá-las. Quando está em estado de pecado, excita-lhe remorsos na consciência para arrancá-la ao mal e decidir a fazer penitência. Ora a exorta com doçura, ora lhe dirige censuras severas, a assusta com ameaças, ou castiga para a corrigir, e nunca a perde de vista para a impedir que se desencaminhe e caia no inferno; Deu-lhe preceitos, conselhos, regras de vida. Anjos que a guardem, santos de quem pode implorar a intercessão. Para melhor te convenceres volve os olhos para a Cruz do Meu divino Filho, vê que aflições, que angústias e dores sofreu por tua alma e quanto sangue verteu para tua salvação. E para provar ainda muito mais a ternura do Seu amor, entrega-Se a tua alma em alimento durante a vida, em viático no momento da morte. Com tais sinais, ó Minha filha, reconhece a nobreza e o valor da tua alma e rende-lhe a homenagem que merece.

III- De que modo tens estimado a alma até hoje? Ah! Que tua estranha cegueira te confunda! Estimavas mais as graças do teu corpo e os adornos que a alma, protegia-los contra o pó e a lama, consagrava-lhes todos os teus cuidados, não pensavas em velar sobre ela com igual cuidado para a não mergulhares, não direi no pó das culpas veniais, mas no lodo ignóbil do pecado mortal. Ai! Quantas vezes a tens manchado com ações detestáveis! Quantas a tens entregado nas mãos do demônio! Se ao menos tivesse feito alguma diligência para reparar uma tão grande desgraça, aproximando-te do tribunal da penitência! Mas não o tens feito. Estimavas tudo mais que a alma, tudo, menos as coisas mais vis. – “Dá-me as almas e que tudo o mais seja para ti” – disse um dia a Abraão o rei de Sodoma.

Oh! se o demônio pudesse fazer um pacto contigo, dir-te-ia – Dá-me a tua alma e que todo o universo te pertença - ; mas ai! Não pode fazer esse pacto funesto e não receiastes entregar-lh’a por nada. Um capricho, um pouco de dinheiro, alguns adornos, o desejo de agradar a uma criatura viciosa, eis quanto bastou para lh’a entregares. Tenho visto tudo, Minha filha, e qual não tem sido a Minha aflição e dor!

Deus e demônio querem ao mesmo tempo a tua alma. Deus quere-a para a tua eterna felicidade, o demônio para a tua eterna desgraça. A escolha está nas tuas mãos; decide. Depende de ti seres, eternamente desgraçada ou venturosa.

Afetos. Horrorizada e confundida à vista do abismo para que corria loucamente, é antes com suspiros que com palavras que eu Vos respondo, ó minha Mãe amabilíssima! Sim, era cega, insensata; estimava mais a terra que o céu, a matéria que o espírito, a graça das criaturas que a do meu Criador. Ó misericordioso Salvador! Que excessivas afrontas tens recebido de mim, miserável criatura! Agora, com as mais fervorosas súplicas imploro a Vossa bondade. Longe de mim as coisas mundanas que até ao presente têm cativado o meu coração, já que não posso amá-las sem Vos ofender e sacrificar a minha alma.

Fui criada por Vós e para Vós; quero ser Vossa custe o que custar. Que o demônio se descandeie, que ponha em prática todas as seduções e enganos para me submeter ao seu jugo, que as paixões se sublevem, que o mundo se espante, que o respeito humano reclame, que a zombaria me persiga, resistirei valorosamente. E para estar segura da minha resistência, coloco-me sobre a Vossa proteção, que me fará sair vitoriosa de todos os combates e alcançar o venturoso fim para que fui criada, - a salvação eterna.

(Maria falando ao coração da donzela, meditações para todos os dias do mês, traduzidas do italiano pelo Abade A. Bayle --Professor de Eloquência Sagrada na Faculdade de Teologia de Aix--; Quinta edição, Livraria Catholica Portuense, ano de 1917)

PS: Grifos meus.