segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Acerca da misericórdia

Acerca da misericórdia
Maria falando ao Coração das Donzelas
por
Abade A. Bayle
1917



I. A misericórdia de Deus, Minha filha, e o maior bem que se pode desejar; sem ela, quantos seriam eternamente desgraçados! Deus conhece as tuas fraquezas e eis porque se compadece delas com misericórdia. Considera, entretanto a que horrível perigo os teus pecados te tinham exposto. Eles tinham irritado a justiça divina. As criaturas tinham estremecido por causa deles. Todas se preparavam a servir a Deus em suas vinganças. O céu preparava os seus raios, o ar os seus vapores pestilências. A terra agitada por tremores repentinos ia abrir-se a teus pés; as águas iam tragar-te nas suas inundações; o fogo reduzir-te a cinzas no meio das suas chamas devorantes os escorpiões, os dragões, as víboras, preparavam seu veneno para te dar a morte; tudo gritava: - Quereis Vós, Senhor, que nós vinguemos a Vossa justiça ofendida? A morte gritava também e já brandia a sua foice terrível para te cortar o fio dos teus dias. Mas acima de tudo clamavam e elevavam a voz os demônios, dizendo a Deus: 

Vós não nos quisestes sofrer a nós, espíritos tão elevados, um crime dum instante, e sofreis tantas afrontas a esta miserável criatura! Ah! permiti que a precipitemos neste abismo que mais que nós o tem merecido. 

Mas no momento em que o céu, a terra e toda a natureza pediam vingança das tuas iniqüidades, no momento em que a justiça divina ia descarregar sobre ti os seus castigos, Deus lembrou-Se das Suas misericórdias, suspendeu toda a punição, impôs silêncio a todas as criaturas dóceis a seu mando e ordenou-lhes te poupassem. Ah! minha filha, sem uma tal bondade, já tu serias eternamente desgraçada. Grande pensamento! Um Deus suspende a Sua justiça por piedade por uma das Suas criaturas! 
  
II. Mas isto não era bastante para o coração compassivo do teu Deus. Não contente de te sofrer, apesar dos teus excessos, quantos socorros te não tem concedido, de quantos perigos te não tem livrado? Devias morrer nesta ou naquela doença e recuperaste a saúde. Devias perecer nesta queda, naquele incêndio, neste acidente, e salvou-te. Não tens conhecido bem os Seus benefícios para Lhe seres reconhecida, mas apesar da tua ingratidão não tem cessado de ter compaixão de ti. Quantas vezes uma voz se tem feito ouvir a teu coração, censurando com brandura a tua cegueira? 

Ó alma que me és cara, te dizia Ele, onde vais? para onde corres? A senda que tu segues é a da perdição. Que te tenho Eu feito para merecer que Me trates tão indignamente? Para que queres tu perder-te apesar dos esforços do Meu amor para te salvar? Ah! não obrigues um Pai terno a recorrer aos castigos!

Tu tens fechado os ouvidos às Suas palavras e Ele não te tem abandonado. Excita-te pungentes remorsos na consciência para te não deixar permanecer no pecado. Noites medonhas têm seguido de perto os teus desvarios. Vias e sonhos sombras ameaçadoras que te amedrontavam. O mais ligeiro ruído te espantava. Alguns momentos de reflexão têm-te feito corar de vergonha de ti mesma mais de uma vez. Mas voltando logo aos teus prazeres tão amados, ainda que indignos de ti, fazias calar a consciência. Para te isentares de todo o susto, sepultas-te em densas trevas que te impediam de reconhecer a torpeza das tuas ações. Tens chegado até ao desprezo, chamando escrúpulos e preconceitos os efeitos da misericórdia divina que queria retirar-te das tuas desordens. Sem se cansar de tanta dureza, o teu Deus compassivo tem-te excitado no coração o temor dos Seus julgamentos; tem-te feito assistir a esta prédica que te tem comovido encheu de amargura os teus mais doces prazeres para te desgostar deles; visitou-te nesta ou naquela doença, desgraça ou tribulação, semeando com amor espinhos no declive escorregadio do pecado, para te deter e chamar ao arrependimento. Mas, ingrata, tu não O tens escutado; tens-te comprazido, ao contrário, em fazê-lO correr após de ti durante longos anos. Quando cessarás tu? não O tens ainda ofendido bastante? Quando quererás abrir os olhos e reconhecer o precipício para que caminhas? Deus é misericordioso, mas a Sua misericórdia não deve ser insultada. 
  
III. Deus chama-te, Minha filha, mas para te fazer experimentar a Sua bondade. Procura-te, pecadora, porque deseja encontrar-te penitente. Porque não respondes? Que temes? Talvez o número e a gravidade dos teus pecados? Mas mais pecadoras que tu foram Thaís, Pelágia e Margarida de Cortona, e, todavia a que gloria as elevou a sua penitência! Se os teus, pecados pudessem ser maiores que a divina misericórdia, terias alguma razão de temer e de desesperar; mas como serão maiores, visto que ela é infinita? 

Quando mesmo as tuas culpas tiverem enegrecido mais a tua alma, Deus a tornará mais alva que a neve, te diz o profeta. Temes talvez em Meu divino Filho, a quem tanto tens ultrajado, a severidade dum juiz? Os teus excessos, sem dúvida, não mereceriam piedade alguma, mas Ele é sempre um Pai para ti. Se tens perdido o direito de ser Sua filha, Ele não está, ainda despojado da terna compaixão dum pai. Se te tem suportado muito tempo rebelde e ingrata, pensa se quererá rejeitar-te arrependida e corrigida. Se temes apresentar-te a Seus pés, tens em Mim uma Mãe que te ama e te conduzirá até a Ele. Que podes tu temer em Minha companhia? Espera tudo da Minha intercessão. A penitência não é tão difícil e amarga como o demônio te quer fazer ver. Experimenta-a, e acharás mais te nela que em teus falsos prazeres. 

Sai do lodaçal dos teus vícios que te arruínam o corpo e a alma. Quebra as correntes que te prendem a uma infame escravidão. Reconhece que, para saíres da tua miséria e do perigo de te perderes eternamente, não tens outro meio senão lançar-te com arrependimento entre os braços do teu Deus, donde o pecado te tinha separado

Afetos. Ó Mãe queridíssima; quão grande e admirável tem sido sempre a bondade divina para comigo, miserável verme da terra! Os homens fatigam-se à primeira ofensa e procuram logo vingar-se. Não é isso que tem feito o amor infinito do meu Deus. Ai! quantas vezes tenho provocado a Sua cólera por meus detestáveis excessos. Mas Ele levado a condoer-Se da minha cegueira mais depressa que irritado pela minha maldade, tem-me suportado com uma indizível paciência na minha perfídia. Tem-me protegido mesmo e socorrido em mil ocasiões, tem-me livrado de mil perigos; e para me dar o tempo do arrependimento, indigna como eu era disso, continuou a conservar-me esta vida de que tanto abusava para O ofender.

Ó bondade incompreensível que convém a um pai e que se não encontra senão em Deus, único que póde levar o Seu amor ao infinito por miseráveis criaturas! Mas tenho eu conhecido bastante essa bondade para ser dela reconhecida? Semelhante à víbora maliciosa que despedaça o seio donde recebe a vida, não tenho cessado de ultrajar a Deus!

Ó Maria! ó minha terna Mãe! eis-me prostrada aos Vossos santíssimos pés, penetrada de horror, ralada pelo remorso da minha vida passada. Apresentai-Vós mesma a Vossa indigna filha diante do trono da majestade divina. Dizei-Lhe que estou vencida pelo Seu amor. Não mereço ser contada no número das Suas filhas, mas que me receba no número das suas servas, para que possa cantar e abençoar eternamente as Suas infinitas misericórdias. 

PS.: Grifos meus.
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