quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Jesus Cristo sobre a cruz


I. Eis-nos, ó Minha filha, sobre o Calvário, tornado o teatro do amor de Deus tanto como da ingratidão dos homens; não te recordarei a ativa crueldade que os bárbaros soldados desenvolveram contra o Meu divino Filho, despojando-O das Suas vestes que, arrancadas violentamente da Sua carne sagrada, onde o sangue as tinha colado, reabriram todas as Suas chagas; não te recordarei com que raiva eles lançaram Jesus todo pisado sobre o madeiro da cruz, com que furor O pregaram nela nem que agitações torturaram o Seu corpo quando se erigiu a cruz e quando a fizeram cair numa cova onde devia ser enterrada. Convido-te unicamente a contemplá-lO sobre o Seu patíbulo.

Oh! quanto o Seu suplício foi afrontoso! Não pode repousar a Sua cabeça adorável; de qualquer modo que a descanse, afunda mais os cruéis espinhos que o coroam. O Seu corpo é apenas suportado por pregos que Lhe rasgam cada vez mais as carnes, rompem os nervos, as veias e as artérias, e Lhe causam as mais horríveis dores.

Oh! quantas lições nos sofrimentos de Jesus; como elas condenaram altamente a tua delicadeza! Desmaias quando um espinho te fere, não podes sofrer-lhe as picadas. Deliras por uma dor de cabeça e não cessas de te lastimar; aos teus mais ligeiros males buscas sempre um alívio e um remédio. Levanta os olhos para o teu Redentor agonizante. Que motivo de confusão para ti! Imitas tu Aquele exemplo divino que o Padre Eterno te indicou, quando mostrando-O em espírito a Moisés Lhe disse: - Olha e obra segundo o modelo exposto sobre a montanha? – Ah! Minha filha, Jesus Cristo sobre a cruz da dor e tu sobre o leito dos prazeres! Jesus Cristo em contínuos tormentos, e tu em regozijos e satisfações contínuas! Confunde-te e aprende a sofrer, porque é assim que tu imitarás Jesus Cristo e serás uma das Suas discípulas queridas.

II. O Meu divino Filho pregado sobre a cruz, exclama: Tenho sede! e os cruéis oferecem-Lhe fel e vinagre. Barbaridade incrível! Em semelhante momento, os maiores celerados são tratados com compaixão; é só para o Meu divino Filho que a maldade se aplica a aumentar as Suas dores, bem que ele esteja moribundo.

Volta-se para a direita e para a esquerda para ver se há alguém que possa consolá-lO e não acha ninguém. Todos os Seus discípulos, exceto S. João, O abandonaram dentre os homens que O insultam sorteando as Suas vestes ao pé da cruz, que zombam dEle com, palavras de desprezo, que O provocam com sarcasmo e blasfêmias, eu mesma aumentava as Suas dores com as Minhas próprias. Não achando consolação alguma sobre a terra, volta-Se para o céu. Mas ai! vê o Seu Pai que, não vendo em Seu Filho mais que a vítima carregada de pecados dos homens, Lhe diz que não está ainda tudo consumado e O deixa presa da dor e da morte. Jesus lamenta-Se docemente a Seu Pai deste abandono. Meu Deus, exclama Ele, meu Deus! porque Me abandonais? Mas adorando os decretos da justiça divina, inclina a fronte e resigna-Se: e eis aí o Meu Filho sobre a cruz completamente tornado um objeto de dor, de opróbrio e abandono. Sofre da parte dos Seus amigos, do lado do céu e da terra, dos homens e de Deus. Que motivo de terror, ó Minha filha, para os pecadores obstinados? O Deus que se mostra inexorável para com Seu Filho único, que não tem de pecador senão a aparência, sê-lo-á muito mais para aqueles que têm tido toda a malicia do pecado, se o não abrandam a tempo pela penitência. Jesus Cristo, na Sua ardente sede, suspira por suas lágrimas, não sejas avara delas para com Aquele que foi para ti prodigo da sua vida. Considera quanto te lamentas sem razão quando te vês abandonada ou traída! A tua desolação poderá em tempo algum igualar aqui Jesus Cristo sofre sobre a cruz por amor de ti! Aceita, pois de boa vontade uma gota do Seu amargo cálice, se queres partilhar da Sua glória inefável.

III. Eis enfim o momento marcado nos decretos da divina Providência em que o Meu divino Filho devia acabar a Sua dolorosa paixão. Todos os símbolos estavam realizados, todas as profecias verificadas. O inocente Cordeiro, de cujo sangue devia riscar a sentença de condenação lançada contra os homens, está imolado. Jesus exclama: Consummatum est. Tudo está consumado. 

Levanta para o céu os Seus olhos amortecidos; depois, inclinando a fronte, entrega a Sua alma nas mãos do Seu pai e expira. Instantaneamente a terra abala-se nos seus fundamentos, o sol escurece, os astros empalidecem, os rochedos fendem-se, as sepulturas entreabrem-se, e o véu do templo rasga-se. Tudo está cumprido. A natureza inteira move-se e anuncia que o seu Criador expirava. Só o homem fica insensível! Que impressão exerce sobre ti, ó Minha filha, uma tal morte? Ah! muitas vezes tu tambem ficas insensível aos pés da cruz. Habituada a considerar a imagem do teu Deus feito homem, ficas indiferente, porque muitos séculos têm passado depois da Sua imolação. As Suas dores longínquas não comovem algum dos teus sentidos. Mas o beneficio perde o seu merecimento, porque há muito tempo que o recebeste. Não sentes dele os mesmos efeitos salutares como se Deus te tivesse concedido hoje mesmo? Reanima a tua fé; figura-se-te que estás presente sobre o Calvário diante de Jesus agonizante, como Eu aí estive presente com Madalena e S. João; contempla aquele rosto moribundo, aquela cabeça coroada de espinhos, aquelas mãos e pés pregados sobre a cruz, e depois aquele lado sagrado rasgado pela lança para significar que Ele te abre todo o Seu coração

Que sentimentos devem comover o teu coração neste espetáculo? Cumpriu tudo, está consumada a tua redenção, e do alto da cruz Ele diz: Podia acaso fazer mais por ti? Minha filha, deves consumar a tua santificação. Ele te pagou o preço do teu resgate; compete-te agora aproveitar-te dEle para a tua salvação. Se o aproveitas, serás, em virtude daquela morte, eternamente venturosa, mas serás eternamente desgraçada se abusares dEle.

Afetos. É com lágrimas e soluços, mais que com palavras, que eu Vos devo responder, ó Maria, minha boa e terna Mãe. Animada pelo Vosso convite, corro a abraçar a cruz do meu adorável Salvador agonizante. Mas levantando para Ele os meus olhares, ouço no coração uma voz que me diz: - Vê, cruel, a que estado O reduziste! Os teus pecados foram os bárbaros algozes que aprestaram as cordas, prepararam os açoites, fabricaram a cruz, enterraram os espinhos, aguçaram os pregos e os cravaram com o martelo do ódio e do furor, e rasgaram com a lança o lado Sagrado de Jesus.

Ó confusão! Ó meu Redentor! quem Vos impede de me castigar em lugar de me suportar ao pé da cruz? Ah! é o amor que Vós me tendes. Liga-Vos ainda as mãos à cruz; possa Ele aí enleiar o meu coração. Ó meu Salvador adorado, desculpastes os Vossos algozes dizendo que eles não sabiam o que faziam. Eis um aos Vossos pés. Se pelo passado Vos tenho insultado, ao presente imploro o meu perdão e a Vossa piedade. Fazei com que ao menos uma gota desse sangue precioso que corre das Vossas chagas com tanta abundância caia sobre o meu coração tão frio e endurecido, para o aquecer, abrandar, fecundar e fazer-lhe produzir esses frutos de salvação para que se propunha o Vosso amor quando por minha causa Vos sujeitastes a uma morte tão humilhante e dolorosa. E Vós, Mãe dulcíssima, obtende-me esta graça por Vossa intercessão.

(Maria falando ao coração das Donzelas pelo A. Bayle, 1917)

PS.: Grifos meus.