sábado, 22 de outubro de 2011

Acerca da necessidade das aflições

Acerca da necessidade das aflições



I. Quanto te lastimas, ó minha filha, por que estás aflita, provas que não conheces a tua condição presente e o que Deus quer de ti. A terra é para ti um lugar de exílio, e querias gozar nela como se estivesses na pátria. És pecadora e nascida no pecado, e aspiravas a viver neste mundo num estado de bem-aventurança: Estás num lugar de combate ti querias a tranqüilidade duma paz segura. 

Deus não criou o homem para que fosse desgraçado e aflito, é verdade; pelo contrário, criou-o para a felicidade e colocou-o depois da sua criação num lugar de delícias. Mas também o não criou para que fosse pecador. Era preciso que ele se conservasse na inocência original em que tinha sido criado para duma felicidade não interrompida e para passar da terra, onde não teria sofrido dor alguma, para as alegrias eternas do céu.

Mas, ó minha filha! o pecado privou-o da inocência e da retidão original. A natureza humana sendo infectada por esse veneno mortal, tornou também maldita uma terra que, por causa da revolta das paixões, não devia produzir senão abrolhos e espinhos. Deriva-se daí a necessidade das atribulações e castigos sofridos com resignação e paciência, quer para expiar o pecado, quer para refrear as paixões que não cessam de nos impelir para o abismo. Cessa, portanto de lamentar as tuas aflições, e anima-te, ao contrário, a sofrê-las com valor. Só poderias lastimar-te ignorando a necessidade que tens dos sofrimentos. 

II. - Uma outra razão da necessidade que tens de sofrer, é o teu apego aos bens caducos desta terra. Já que no meio das inumeráveis aflições de que estás rodeada neste mundo, lhe tens, contudo tanto amor que não poderias livrar-te dele, e que, perseguindo uma sombra fugitiva de felicidade, esqueces tão ligeiramente a ventura eterna, que faria então se tudo te sorrisse e não tivesses nada a sofrer? Quão facilmente te persuadiria que esta terra é a tua pátria e que fostes criada para ela! Esquecida de Deus e do céu, nunca mais suspirarias por eles, não mais os encararias com um olhar atento e penetrante. Sofres voluntariamente para seguir as leis da moda e os usos do século; rejeitas-te por eles a padecimentos, esforços e privações que te não imporias para expiar uma parte dos teus pecados

Que não fazes tu para repelir uma ofensa, para sair bem duma intriga, para responder a um convite? Então, as vigílias, as contrariedades, as censuras de teus pais não são difíceis de suportar; nem os desprezos, nem as irrisões, nem a zombarias de que serás assunto podem deter-te. Mas tudo se torna opressivo e insuportável quando se trata de sofrer por amor de Deus, ou por tua própria santificação. Minha filha, concentra-te, reconhece que quanto mais procuras satisfazer-te e fugir aos sofrimentos, tanto mais alimentas em tua carne rebelde um animal furioso a quem as mortificações e os rigores da penitência podem apenas domar e impedir de te tornar o ludibrio das mais semelhantes paixões, escrava do demônio, e finalmente, a desgraçada vítima da justiça divina. 

III. Considera enfim, minha filha, que és cristã e que por este motivo os sofrimentos te são indispensáveis. O batismo fez-te cristã de profissão, as aplicações e os sofrimentos fazem-te exercer a vida cristã. Aquele que na profissão do cristianismo evita os sofrimentos, não tem de cristão senão o nome. As aflições e a cruz são o único caminho que conduz ao céu. É pelas muitas tribulações, dizia o apostolo S. Paulo aos fiéis que evangelizava, que temos de entrar no reino celeste. O próprio Meu divino Filho disse aos Seus discípulos acerca da vida de Emaús, que havia de ter sofrido muito para entrar na Sua glória. E tu recusarias sofrer? não vês tu, Minha filha, que recusar o sofrimento não é outra coisa senão recusar o céu? Ah! tu conheces demasiadamente mal o que te convém. Ergue os olhos para o Meu divino Filho crucificado, fixa-os sobre Mim e sobre todos os predestinados, e vê se encontras algum que tenha chegado ao céu por outro caminho que não seja o da cruz e do sofrimento.

Poderás tu só ser exceção à lei que pesa sobre nós? Não o poderás pretender mesmo quando fosses inocente, porque então tu mesmo deverias ter para com o teu Redentor crucificado aquela conformidade sem a qual ninguém pode ser admitido no céu, quanto menos o podes pretender depois de todos os pecados que tens cometido. Não Me peça mais, portanto, que te livre de todo o sofrimento e de toda a aflição, porque seria pedir a tua desgraça. Pede unicamente para alcançar a paciência e resignação

Compreende bem, ó minha filha, que quanto maiores forem os sofrimentos que tiveres suportado com valor tanto maior será o merecimento que adquirirás para céu

Afeto. Virgem Santíssima, eu reconheço os meus agravos e quanto o meu horror pelas aflições era desarrazoado. Não me exporei a fazer penitência dos meus pecados na outra vida, recusando sofrer um pouco sobre a terra. Com posso merecer neste mundo pelos meu padecimentos, e irei sofrer no outro onde as dores são mais cruéis e não produzem merecimento algum! Com a vida tão delicada que tenho levado até hoje, como poderei eu gabar-me de pertencer ao número das discípulas do Homem-Deus crucificado pelo meu amor? Ele é tão desejoso de sofrer por mim, e eu tão longe de sofrer pelo Seu amor e para o meu bem! Ele coroado de espinhos e eu que queria ser coroada de rosas e nadar em delicias!

Ó terrível contraste!

Ó Mãe Santíssima, pelos merecimentos das Vossas dores, alcançai-me a graça de amar o sofrimento a fim de que possa imitar o meu muito amado Redentor e imitar-Vos a Vós mesma. Ah! demasiado tempo tenho perdido os meus dias desgraçados a comprazer-me num desordenado amor próprio. Chorarei na amargura do meu coração um tal desvario.

Não me recuseis esta graça, eu vo-lO imploro; entrego-me a Vós ó minha Mãe! lanço-me nos Vossos braços. Quero para o futuro estimar muito o sofrimento para que ele me torne semelhante ao meu Jesus e a Vós, e para que me abra o caminho da verdadeira felicidade. 

(Maria falando ao coração das donzelas, meditações para todos os dias do mês traduzidas do italiano pelo Abade A. Bayle, 1917)

PS.: Grifos meus.

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