domingo, 13 de março de 2011

VI - Acerca da morte

VI - Acerca da morte


I. - Agora, Minha filha, medita nos tristes efeitos do pecado. Um dos mais terríveis, e que a humanidade está vendo de contínuo, é a morte. Certamente a morte é para ti a verdade mais evidente, mas por uma loucura incompreensível vives em completo esquecimento dela. Se tivesses a certeza de viver durante séculos inteiros, a tua conduta seria menos insensata, mas todos os dias vês pessoas de todas as idades e condições que baixam no sepulcro e que, chegando lá, repetem: - Hoje eu, amanhã tu. – Quantas vezes entras nas igrejas e cemitérios onde jazem muitos cadáveres. Calcas aos pés as suas sepulturas. Não ouves sair delas uma voz que te grita: - Hoje caminhas sobre as minhas cinzas, amanhã talvez caminhem sobre as tuas. – Tu vês que de todos aqueles que têm nascido desde o começo do mundo, nenhum até hoje tem sido isento da morte. Ouves padres que não cessam de te repetir que hás de morrer, mas dir-se-ia que essas palavras te não dizem respeito, porque continuas a viver perdida no meio dos prazeres e divertimentos, como se eles nunca tivessem de acabar.

Dás-te obstinadamente a terra sem nunca lançares um golpe de vista atento e penetrante como se para ela e não para o céu fosses criada, como se devesses ficar nela eternamente. Ostentas orgulhosamente a tua beleza como um pavão; não te aplicas senão a mostrar-te, a obter estima criar amizades.

Ó desgraçada! não vês a morte que levanta já a foice inexorável para te cortar a vida, que te aponta o túmulo e que te diz: - Ali irão acabar a tua vaidade, esplendor, modas, amores e excessos. Ah! Ela virá, Minha filha, está já próximo o dia em que te obrigará a abandonar tudo e baixar à cova onde o corpo que idolatras será presa de podridão e dos vermes.

Oh! pensa bem nela uma vez, se não queres morrer para sempre.

II. - Não só morrerás um dia, ó Minha filha, mas já estás morrendo. Trazes em ti um gérmen de morte, que se desenvolve cada dia. O tempo passa, voa; e um verme roedor devora incessantemente a tua vida como uma planta débil. Cada mês que acaba; cada dia que decorre, cada hora que passa, abrevia outro tanto o curso da vida. É um passo a mais para o sepulcro. Uma geração passa, outra lhe sucede, e assim todos, uns após outros, vão perder-se na eternidade como as águas dos rios se perdem no oceano.

E tu, que estás tão perto da morte, tu, a quem domina já o seu império, ó Minha filha, tu a quem esse algoz inexorável segue pouco a pouco até ao momento em que deverá executar-se sobre ti a sentença proferida no céu: Foi decretado que todas as criaturas morram uma vez; vives sem pensar nela, como se fosses a única preservada. Ah! Este pensamento entristece-te, porque perturba as tuas paixões, faz-te estremecer, derramando a amargura sobre cada um dos teus prazeres; buscas afastar de ti tudo aquilo que te recorda à morte.

Mas poderás assim impedir que ela chegue e se avizinhe de ti? Pensa nela, pelo contrário, seriamente, ó Minha filha, se queres ser verdadeiramente prudente, porque este pensamento é um daqueles que podem pôr um freio as paixões rebeldes e dar-te da terra uma idéia justa. Se tivesses a certeza que o mundo acabava em cinqüenta anos, não poderias mais olhá-lo senão com compaixão, não poderias mais dar-te a ele. Mas julgas seres imortal?

Primeiro que cinqüenta anos sejam decorridos, não estarás morta e o mundo não terá acabado pra ti?! Ah! Solta desde já o coração corajosamente de tantos objetos que o levam ao mal, que o perturbam, que são para a consciência ocasião de pungentes remorsos.

III. – Não há momento fixo para a morte. Ela não considera nem a idade, nem a saúde, nem a força. Descarrega-se a sua foice sobre os velhos para fulminá-los de perto, reteza o arco para os novos a fim de fulminá-los de longe. As mortes imprevistas, tão freqüentes agora, dão-te uma prova evidente. Tantas donzelas de tua idade que viviam há um ano ou dois e hoje nada são, não te ensinam que te pode acontecer o mesmo que lhe aconteceu a elas? Não te julgues mais privilegiadas; não tens mais direito à vida do que elas. Quem te protege contra a cólera do céu, os venenos, as armas dum inimigo, os incêndios, os tremores de terra, as epidemias, as quedas e todos os outros males que são o apanágio do homem?

Não vês por quantos caminhos abertos a morte pode chegar a ti quando nela menos penses? Que é preciso para te dar a morte? Um sofrimento, um golpe de ar violento, muito úmido, muito frio ou muito quente, um inseto, um movimento do sangue ou dos humores. Quantas vezes os alimentos, as bebidas, os próprios remédios se transformam em venenos mortais, e o túmulo se abre antes do tempo. Quantos têm passado de repente dos festins, teatros, prazeres e divertimentos à morte e à eternidade!

Não pode acontecer-te outro tanto? Abre por um momento os sepulcros onde estão enterrados esses desgraçados. Examina!

Essas faces rosadas que excitavam tantos afetos criminosos, esses lábios purpurinos, esses olhos vivos que lançavam tantos olhares impudicos, essas cabeças outrora tão altivas, onde turbilharam tantos pensamentos de grandeza humana, caprichos, desejos de se mostrar, que tanto se aplicavam a enfeitar-se com fitas, tranças, ouro e diamantes, esses pés que caminhavam com elegância e dos quais os passos eram cadenciados, tudo está sendo um horrível misto de vermes e podridão.

Eis aí, Minha filha, em que estado a morte porá um dia o teu corpo, e mais cedo talvez que pensa. E a tua alma, que virá a ser dela se a não cuidas, se te não inquietas? Ó grande pensamento!

Afetos. – Oh! quanto não tenho sido imprevidente e louca até ao presente, ó Maria, minha Mãe amabilíssima, tendo-me afeiçoado tão fortemente a um mundo que foge diante de mim; correndo após uma sombra vã, uma ventura que se dissipa num instante, tendo tanta estima por aquilo que é mortal e tão pouco pelo que é eterno! Ai! A morte cerca-me por toda a parte, não posso dar um passo sem que veja exemplos da minha fragilidade, e, contudo tenho vivido bastantes anos esquecendo-a, afastando de mim o pensamento da morte, para não ser perturbada nas minhas mundanas e criminosas ocupações. Reconheço agora o meu erro, ó querida Mãe, e passo sem demora a repará-lo. De hoje em diante considerar-me-ei como exilada sobre terra estranha; calcarei aos pés valorosamente as vaidades e as pompas do mundo; não me dignarei conceder-lhes um olhar, e dirigir-me-ei incessantemente para a ditosa pátria a que aspiro. Para ali chegar, é necessária a custosa passagem da morte.

Que ela venha em bom momento; encará-la-ei com ânimo e mesmo deseja-lá-ei. Que é ela? Uma lei dada para os filhos de Adão. É bem justo que estando pelo pecado presos com excesso a terra, até ao ponto de esquecer Deus, a morte os force a deixá-la. Adoro as justíssimas disposições da justiça divina, e espero o momento com resignação.

Que esse momento seja feliz para mim; que eu saia do meu exílio para entrar na posse da pátria celeste. Espero alcançar essa ventura, ó Mãe muito amada, com o socorro da Vossa poderosíssima proteção.

(Maria falando ao coração da donzela, meditações para todos os dias do mês, traduzido do italiano pelo Abade A. Bayle --Professor de Eloquência Sagrada na Faculdade de Teologia de Aix--; Quinta edição, Livraria Catholica Portuense, ano de 1917)

PS: Grifos meus.
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