terça-feira, 5 de abril de 2011

Acerca da imodéstia

Nota do blogue: As publicações dos capítulos desse livro não serão seqüenciais. 

Décimo terceiro dia


Acerca da imodéstia

I- Que vergonhosa coisa, ó Minha filha, que é a imodéstia! Quem vive puro de toda a mancha dos sentidos, assemelha-se aos anjos que são espíritos puríssimos! Por isso as virgens, as almas castas, são chamadas anjos em carne. Pelo contrário, quem não vive casto, assemelha-se aos irracionais que se deixam governar unicamente pelo brutal instinto dos sentidos.

Por isso os homens impuros são pelo Espírito Santo comparados a um cavalo indomável que não têm nem inteligência nem razão. Ainda mais, quem vive casto não é somente semelhante aos anjos, possui ainda alguma coisa de mais precioso, porque os anjos são puros por necessidade de natureza, enquanto que o homem que é puro é-o por virtude.

Da mesma sorte os homens impuros são de pior condição que os irracionais porque estes são impuros por natureza e não por sua culpa, enquanto que aqueles não o podem senão por vício.

Ora, como é mais gracioso chegar a ser anjo por virtude que sê-lo por natureza, do mesmo modo é mais vergonhoso tornar-se irracional por vício que sê-lo por natureza. Tal era, ó Minha filha, o embrutecimento que já em seu tempo Davi deplorava com amargura, dizendo:

- O homem criado por Deus num estado de honra e glória, não tem cumprido a sua alta dignidade; avilta-se até se pôr na qualidade de besta de carga estúpida, e tornar-se-lhe semelhante.

Abominação horrível! Tornar-se igual aos brutos depois de ter sido criado por Deus à Sua imagem e semelhança! Ó Minha filha, reconhece, Eu vos te rogo, a nobreza da tua condição, e aplica-te fortemente a sustentar-te nela. Ama a pureza, que enobrece tanto, que é como um lírio brilhante de alvura derramando em torno de si um delicioso perfume; a pureza apraz a Deus, e é, sobretudo por causa dela que Eu fui querida Sua e que mereci chegar a ser Sua Mãe; foi ela para mim dum tão grande valor, que teria renunciado primeiro a uma tão alta dignidade, do que sofrer nessa virtude o mais ligeiro golpe.

IINão somente Deus te criou à Sua imagem e semelhança, mas fazendo-te nascer no seio da Igreja te santificou pelo batismo que extinguiu da tua alma a nódoa com que o pecado a tinha manchado. O espírito impuro que nela tinha tomado posse foi expulso pela virtude divina, e cedeu o lugar ao Espírito Santo.

A tua alma tornou-se o templo vivo de Deus, o teu corpo um vaso de honra, os teus membros os membros de Jesus Cristo, Meu Divino Filho. Tu estás, portanto feita herdeira do céu, irmã dos anjos, e querido objeto das atenções de Deus.

Mas, ó Minha filha, uma só imodéstia te priva de tantos privilégios. Ai! É mais que verdade que aquele que se abandona a um vício tão abominável, mancha a sua alma com as nódoas mais vergonhosas, renuncia ao céu e à qualidade de filho de Deus, expele do coração o espírito do Senhor, para introduzir nele o espírito imundo, transforma o corpo num vaso de ignomínia e os membros de Cristo em membros de pecado. E por quê? Por um prazer vergonhoso que apenas gozado desaparece, envenena a alma, enche o coração de amargura, perturba a consciência por implacáveis remorsos. Irrita tanto a Deus, que tem esse vício em mais abominação que todos os outros, ainda que os deteste todos, e castiga-o mais severamente que todos os outros.

Não vês tu, ó Minha filha, um exemplo no fogo que caiu do céu sobre Sodoma e Gomorra, e no dilúvio que submergiu toda a raça humana no tempo de Noé? Contudo estes exemplos nada são comparados aos suplícios que a justiça de Deus irritado tem preparado no inferno para castigar uma tão grande infâmia. Teme, pois, ó Minha filha, mais que a morte, tudo o que pode denegrir o lírio da tua pureza e tornar-te abominável aos olhos de Deus.

IIIMas dize-me, Minha filha, que precauções tens tu tomado até ao presente sobre um ponto tão delicado? Aquele que possui uma pérola de um preço incomparável põe todos os seus cuidados em guardá-la, sobretudo, se está rodeado de numerosos ladrões. Ora aqueles que armam laços à tua pureza são inumeráveis. Os sentidos, as paixões, os desejos desregrados, a beleza do rosto, a elegância do corpo, os adornos, expõem-te cada dia, bem o sabes, o perigo de perdê-la. Além desses laços armados em tua casa, encontras uma multidão doutros por fora; as modas, os espetáculos, as conversações, os costumes dum modo corrupto, as falas pouco reprimidas, as palavras pouco decentes das tuas companheiras, os seus maus exemplos, as maneiras afetadas, as vaidades, as amizades, os jogos, as adulações, as fingidas promessas de falsos amigos e suas freqüentes visitas. De que maneira preservarás tu, no meio de tantos laços armados ao teu pudor, se não fores prudente, se não fugires deles como se foge à maior das desgraças?

Ah! Imprudente, o demônio vem ao teu encontro com fantasmas impuros e tu não os repeles com horror!

Ouves conferência e cânticos pouco decentes, e escutá-los. Em frente de objetos sedutores e contemplá-los! Convidada para espetáculos, danças, conversas, aceitas! Vês ostentações e modas imodestas e imitá-las! Recebes meiguices e mensagens das quais tu conheces bem a ruim intenção, e respondes-lhes! Namoram-te e tu alegras-te! Dize-me, deverei Eu então estar sempre aí para te reprimir por força a fim de que te não precipites no abismo ao qual te expões tão levianamente?

Desgraçada de ti, ó Minha filha, se não estiveres mais atenta para o futuro, uma queda trará após si mil outras. Não te queiras persuadir de poder-Me agradar senão estás casta. Quando mesmo tu tivesses todas as outras virtudes, sem a castidade não Me inspirarias senão horror; não poderias ser abrigada debaixo do manto da Rainha das virgens.

Afetos– Mãe queridíssima e Virgem puríssima, compreendo agora, graças a Vós, quanto é abominável a imodéstia. Que nunca a minha alma seja infamada por tal mancha. Que nunca, por um momento de brutal satisfação, eu me avilte tão indignamente até tornar-me semelhante aos irracionais! Que por um vil e fugitivo contentamento do meu corpo me exponha ao perigo de perder a minha alma, o paraíso e Deus durante toda a eternidade. Mas ai de mim! Os perigos, os laços armados à minha alma são demasiadamente freqüentes e muito numerosos.

Pelo passado não tenho sido senão demasiadamente imprudente e considerada acerca dum ponto tão importante. Desgraçada que eu sou! Quem me livrará? Ah! Eu o espero; a graça do meu Salvador Jesus Cristo Vosso Filho, a qual me esforçarei de cooperar, tenho a confiança de obtê-la, ó Mãe querida, mediante a Vossa intercessão. Ajudai-me, e conVosco serei tal como Deus me quer.

(Maria falando ao coração da donzela, meditações para todos os dias do mês, traduzido do italiano pelo Abade A. Bayle --Professor de Eloquência Sagrada na Faculdade de Teologia de Aix--; Quinta edição, Livraria Catholica Portuense, ano de 1917)

PS: Grifos meus.