segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

IV- O pecado mortal

IV- O pecado mortal


I - Tu, Minha filha, cometes o pecado e não sentes dele horror algum... Vives tranqüila; parece regozijares-te da tua malícia, porque não compreendes talvez o mal que fazes e o estado miserável em que se acha a tua alma depois do pecado. Queres tu conhecê-lo? Considera a terra em, que vives e o grande número de criaturas que a habitam. Levanta os olhos para o céu, contempla o sol que o ilumina,  a lua e as estrelas que brilham no silêncio da noite. Se pudesses conhecer a sua grandeza desmedida, ficarias tomada de espanto e assombro. O sol é milhões de vezes maior que a terra e muitas estrelas o excedem em grandeza.

Houve tempo em que nenhum desses astros existiam. Quem os criou? Deus. Bastou-Lhe um momento e uma palavra. - Faça-se, disse Ele, e tudo se fez. - Esses grandes corpos celestes e a própria terra que te suporta, quem os tem suspensos no ar e lhes dá esses movimentos regulares que distinguem o dia da noite, marcam as estações e fecundam a natureza? Tudo foi regulado pela onipotência de Deus. Ah! Minha Filha, tu temerias ofender um rei da terra com receio de um castigo que te faria vergonha, e não temes ofender Deus, em comparação de quem todos os reis não são mais do que uma sombra, um pouco de pó. Podem os reis extrair do nada em só grão de areia, ter suspensas no ar sem apoio uma leve pluma e torná-las dócil ao seu mando? Nunca o poderão. De que maneira pois, ó minha Filha, tu que não ousarias ofender os reis, que não são mais do que homens, ousas ofender esse Rei onipotente a quem os anjos e santos adoram e diante de quem tremem as potências celestes? Um só de seus olhares irritados faria estremecer a terra, e as mais altas montanhas, fulminadas por Sua cólera, reduzir-se-iam a cinza num momento. Ah! que te sucederia, imprudente, se continuasse a ultrajá-lO?

II - Considera agora até que excessos de audácia tens chegado cometendo o pecado. Julgavas tu, talvez, que ninguém observava as tuas ações criminosas, nem ouvia os indignos colóquios por meio dos quais tens tantas vezes odendido o teu Deus? Tu és cristã, e a fé que professas te ensina que a Seus olhos nada pode ficar oculto. Nem as paredes nem as trevas O impedem de ver; Ele penetra até nos imos mais recônditos do coração humano, distingue os Seus pensamentos com todos os detalhes, complacências e desejos. Deus vê pois tudo aquilo que fazes no segredo da tua camara, na sombra da noite, só ou com as tuas companheiras, em público ou em particular. Deus ouviu-te quando excitada pela cólera rompias em imprecações e davas a teus pais insolentes respostas, quando tinhas com as tuas companheiras conversas tão contrárias a modéstia duma menina cristã. 

Quantas vezes Eu mesma tenho visto e ouvido de ti coisas indecorosas! teria devido gritar com sentimentos  - Filha ingrata, eis-aí como honras a teu Deus e a tua Mãe - Muitas vezes, meninas cristãs muito culpadas, e que não têm de cristãs mais que o nome, se animam a corresponder aos desejos daqueles que tentam arrebatar-lhes com a graça de Deus o mais belo tesouro que podem possuir neste mundo. Dizem eles para consigo: "Basta que nosso pai ou nossa mãe o ignore, basta que ninguém o saiba." Ó insensatas! ó desgraçadas! Podem elas acrescentar que Deus o não saberá! A este pensamento, que é suficiente para converter uma Thaís e fazer dessa mulher escandalosa um prodígio de penitência, quantas há que ficam insensíveis até não corar de ofender a Deus, sabendo que Ele as observa e as vê!? Tu excedes-te na presença de Deus no que não ousarias fazer à vista das tuas próprias companheiras. Deus não pode alcançar de ti o respeito que tens pelos homens. Onde está por conseguinte a tua fé: é assim que temes Deus, que desejas a salvação?

III- Mas há alguma coisa pior, Minha filha, sim alguma coisa pior. Observa em seus dons a beneficência de teu Deus, e dize-Me depois se há alguma coisa em ti que não seja dádiva dEle. Quando cometes o pecado, não somente desprezas Deus calcando aos pés a Sua santíssima lei, não somente praticas o mal a Sua vista, mas além disso serves-te desses dons para lhe declarar guerra. Se Ele te não tivesse criado, não O terias nunca ofendido. Se a primeira falta que cometestes te tivesse tirado a vida, não terias renovado as tuas injúrias. Nunca terias preferido imprecações, murmurado queixumes, dito palavras indecorosas, se te tivesse feito nascer muda. Nunca terias procurado com afinco a vaidade, os adornos, as festas e os divertimentos, com tanta inconveniência e escândalo para o próximo, se te não tivesse concedido dom algum de graça e de beleza. Para razão de que Deus Se mostrou para contigo pródigo dos Seus dons, na tua extrema ingratidão, tens-te servido deles para O ultrajar. 

Não merece mil suplícios, não seria indigno de viver o pobre que, depois de receber a esmola do seu benfeitor se servisse dela para comprar um punhal e lh'o enterrasse no seio? Ah! filha ingrata, tens tu procedido de outro modo para com Deus até hoje? Os bens da natureza e da graça que possuis, são todos dons da sua bondade. Em lugar de lh'os agradeceres e de O glorificares, serviste-te deles para O ofender e desprezar. Ah! pensa, Minha filha, pensa no teu excesso de ingratidão e vê se te é possível deixar de dar alguns suspiros de dor, de derramar algumas lágrimas de arrependimento, por conduta tão indigna para com Deus.

Afetos. - Ó Mãe Santíssima não sei o que deva confundir-me mais, se a incrível paciência do meu Deus em me sofrer, se a minha incrível audácia em O ofender. Que terror, se enquanto cometia o pecado Deus se me apresentasse com Sua majestade, ou se Vos tivesse visto irritada contra mim, censurando a minha audácia.

Mas quanto fui culpada! porque eu não via Deus, não me via Ele? não me estava presente? Como nesse momento estavas velada a meus olhos ó fé santa! Não te tinha perdido; mas ai! a minha maldade obscurecia-me a razão. Ah! as Vossas palavras têm-me instruído, eu o reconheço, ó querida Mãe. Sim, tenho-me servido dos dons de Deus contra Ele próprio. Horrível ingratidão de que me tornei mil vezes culpada. Ó pacientíssimo Salvador como tendes Vós suportado num ser tão vil como eu, tão temerária audácia? Inseto desprezível, tenho ousado não Vos respeitar nem temer; como não tendes esmagado a cabeça que contra Vós se sublevava?

Ó bondade só própria de Deus e de quem as misericórdias são infinitas! Maria, augusta Mãe, ouvi, os meus protestos e servi-me de testemunha diante da majestade divina. Quero que estes membros que têm sido instrumento de pecado, sejam para o futuro instrumento  de penitência, a fim de reparar tanto quanto possível as minhas culpas passadas.

Rogai a Deus que, ajuntando novas misericórdias as que me tem concedido, mude o meu coração, fazendo-lhe amoldar a inflexível dureza e o torne de hoje em diante tão dócil, as Suas vontades, quanto tem sido rebelde e obstinado até ao presente.

(Maria falando ao coração da donzela, meditações para todos os dias do mês, traduzidas do italiano pelo Abade A. Bayle --Professor de Eloquência Sagrada na Faculdade de Teologia de Aix--; Quinta edição, Livraria Catholica Portuense, ano de 1917)

PS: Grifos meus.