domingo, 13 de fevereiro de 2011

O mais eficaz de todos os meios de santificação dados ao sacerdote, é a missa.

O mais eficaz de todos os meios de santificação
dados ao sacerdote, é a missa.

Meditações sacerdotais
ou
O padre santificado pela oração
Volume I, pelo Pe. Chaignon
versão portuguesa pelo padre
Francisco Luís Seabra
Porto, ano de 1934

Tem-se-nos dito muitas vezes: Sede santos, para merecerdes oferecer dignamente o divino sacrifício; diz-se-nos agora: celebrai-o com toda a devoção de que sois capazes, para alcançardes a perfeição que Deus espera de vós. Consideremos hoje o altar como uma escola, em que Jesus nos dá com os Seus exemplos as mais úteis lições; amanhã meditaremos sobre os prodigiosos socorros que Ele nos oferece.

A santificação para os simples fiéis, reduz-se a dois pontos: Morrer e viver, despojar-se do homem velho e revestir-se do novo (Exploantes vos veterem hominem, et onduentes novum. Coloss. III, 9). O sacerdote deve além disso comunicar às almas a vida sobrenatural e divina, que ele recebeu em Jesus Cristo. Para ele, o santificar-se é morrer, viver, e dar vida, três graus de perfeição sacerdotal, cujo modelo mais belo e perfeito, o Filho de Deus imolado por nosso ministério, nos oferece no altar. Ele ensina-nos:

- A morrer para o mundo e para nós mesmos.
II - A viver a vida mais santa.
III - A vivificar o próximo com o nosso zelo.

I- Jesus Cristo no altar, modelo de mortificação

Esta virtude custa-nos mais que todas as outras; mas com energia no-la prega o Salvador na celebração dos santos mistérios! A missa é a viva imagem da Paixão. O corpo e o sangue do Homem-Deus, consagrados separadamente e consumados com uma morte mística, os paramentos esmaltados de cruzes, a cruz figurada em todas as cerimônias, a elevação da Vítima pelo sacerdote, que a põe entre o céu e a terra, tal como esteve no Calvário; a paciência e o silêncio deste Cordeiro de Deus, que ali está sem fazer movimento, sem dar sinal de vida: tudo nos recorda no altar as cenas dolorosas de Seu sacrifício cruento. Demais, os indignos tratos e ultrajes não cessaram para Jesus Cristo com a Sua vida mortal; não encontra Ele nos nossos santuários quase todas as cruéis provações da Sua Paixão? A mesma tristeza do Seu Coração, à vista de tantos crimes que se cometem, enquanto Ele Se oferece para reparar a glória de Seu Pai; a mesma frieza, a mesma indiferença, o mesmo abandono da parte daqueles a quem mais encheu de benefícios. Ora Ele tudo tinha previsto, quando instituiu o sacramento do Seu amor: as perseguições futuras tinha-as presentes, assim como as que sofria. A Sua ardente caridade superou todas as repugnâncias: o duplo cálice foi aceito.

E este exemplo de um Deus redentor, não só entregando-Se por nós aos tormentos e à morte, mas também prolongando, perpetuando a Sua Paixão no meio de nós, não será capaz de nos fazer amar a mortificação, ou ao menos de nos suavizar a sua prática? Diante deste pensamento, que é inseparável da celebração dos santos mistérios, ficarei eu sem generosidade e sem energia para me vencer?

Senhor, Vós fizeste-Vos minha Vítima, e eu recusarei ser Vossa vítima? Instituindo o augusto sacrifício e elegendo-me para ser o Seu ministro, sabíeis por quantas tribulações Vos seria necessário passar para chegar até mim; sabíeis quantos ultrajes sacrílegos teríeis de sofrer neste longo espaço de dezoito séculos, e quantos Judas encontraríeis no Vosso caminho: esta horrorosa perspectiva não diminuiu o Vosso amor! E eu nada quererei padecer por Vós? Sacrificastes por mim as Vossas consolações, a Vossa honra, a Vossa liberdade, a Vossa vida; e eu hesitarei em sacrificar-Vos a minha delicadeza, o meu melindre? Consentistes por meu amor em ser cuspido, espezinhado, crucificado; ser desconhecido, insultado até por muitos dos Vossos próprios discípulos, e tudo isto até a consumação dos séculos; e eu queixar-me-ei de que me esqueçam durante alguns dias da minha passageira existência neste mundo?

E desalentar-me-á uma leve ofensa, ou uma momentânea contradição? E continuarei a ser soberbo, sensual e exigente? Semelhante contraste indigna-me contra mim mesmo.

Um padre que se não descuida de meditar na Eucaristia, e que se utiliza das lições que dela recebe, não faz caso dos sofrimentos, qualquer que seja a sua natureza e a sua origem, como os mártires, alimentados com este pão celestial, não faziam caso dos cárceres, dos patíbulos e das fogueiras.

Morre para si mesmo, como lhe foi aconselhado na sua ordenação: Imitamini quod tractatis, quatenus mortis Dominicae mysteriam celebrantes, mortificare membra vestra a vitiis et concupiscentiis omnibus procuretis (Pontif.)

II - Jesus Cristo no altar, perfeito modelo da vida sacerdotal

A vida do Salvador na Eucaristia é toda dirigida por uma sabedoria divina. A prudência humana não compreende esta profunda obscuridade, em que se esconde a suprema majestade, esta soledade, este misto inefável de contemplação e de ação; porque, neste mistério, Jesus parece inativo e faz tudo: do Seu tabernáculo governa o mundo. Glorificar a Deus com Sua adoração e humilhação, salvar os homens derramando continuamente sobre eles as bênçãos da Sua graça, tal é a vida de Jesus Cristo nos nossos altares. Ela não é mais que um exercício contínuo de todas as virtudes, praticadas com infinita perfeição.

Que mansidão! que paciência! Como deixa que se cheguem a Ele, O toquem, O tomem como alimento, e até O insultem! Não repele pessoa alguma.

Os pequenos e os grandes, os ignorantes e os sábios, os pecadores e os justos têm junto dEle o mais fácil acesso. - Que humildade! Afasta de Si tudo o que Lhe daria consideração e esplendor; oculta as Suas divinas perfeições e até a Sua humanidade.

Não parece o que é, ou antes nada parece. Que obediência! Senhor dos senhores, submete-se, e a quem? em quê? quanto tempo? Decorre uma só hora, em que não esteja em alguma parte, na mão dos Seus ministros que O apresentam à adoração do povo, ou O encerram no Seu tabernáculo, e dispõem dEle como querem? Que recolhimento! Que união com Deus! Que oração! Ela não tem sido interrompida um só instante desde a instituição da Eucaristia, e é a esta divina oração, que o mundo deve toda a felicidade que tem.

Eis o modelo da vida sacerdotal. Ensinando-nos essa sublime sabedoria, que é uma estultícia para o mundo, o exemplo do Salvador neste mistério instrui-nos na pura caridade, que só busca a Deus e só trabalha para Deus, e na caridade que tudo sofre. Este exemplo, em que a força se junta à suavidade, atrai-nos e guia-nos ao mesmo tempo nos caminhos da vida interior, toda retirada em Deus, que é a alma da vida apostólica. Assim, depois de nos ter ensinado a morrer para nós mesmos, o Salvador na Eucaristia ensina-nos a viver da Sua própria vida, e a vivificar as almas comunicando-lhes o Seu espírito.

III- Jesus Cristo no altar, modelo de verdadeiro zelo

A missa recorda-nos o que Jesus Cristo fez, o que faz ainda todos os dias e a todo o instante pela salvação das almas. Ela é o memorial de todos os mistérios da Sua vida e principalmente da Sua morte: O memoriale mortis Domini! Ora nesta vida e nesta morte, tudo foi dirigido para um só fim: glorificar a Deus com a salvação das almas.

Não foi pela almas que Jesus Cristo desceu à terra? Não era o pensamento da felicidade dos escolhidos que O amparava nas angústias do Horto das Oliveiras, nos sofrimentos do Pretório e do Calvário?

Na Eucaristia é sempre o grande zelador das almas.

É pela salvação delas que desce ainda todos os dias a milhares de altares. Procura incessantemente dissipar-lhes as ilusões, corrigir-lhes as inclinações, salvá-las. No tabernáculo espera os pecadores, e convida-os a virem aliviar no Seu seio o peso dos seus remorsos. Oferece-lhes os Seus merecimentos, o Seu valimento, a Sua onipotente mediação.

Ó sacerdote cristão! que exemplo vos dá Jesus!

E prevendo que este exemplo mudo não inflamaria ainda bastante o vosso zelo, junta-lhe uma veemente exortação, mesmo no momento da Sua imolação mística; porque é então, que Ele manda que vos lembreis da Sua Paixão: Haec quotiescumque feceritis, in mei memoriam facietis. Recordar-vos, em uma ocasião tão solene, o que Ele padeceu pelas almas, não é porventura recomendar-vos vivamente o cuidado da sua salvação?

Não podeis dizer missa sem ouvir soar ao vosso coração a palavra que comoveu tão profundamente o de São Pedro: "Amas-Me? amas-Me mais que os outros? Apascenta as Minhas ovelhas, cuida das almas; deixarás tu perecer os teus irmãos, por quem sabes que Eu morri"?

Excitando o nosso zelo com o exemplo que nos dá no altar, Jesus regula-o e dirige-o. - Que pureza nos Seus motivos! Buscar-se Ele a Si mesmo? Há alguma mistura de interesse próprio, intuitos pessoais no que faz pela salvação das almas? - Que empenho para as tirar do pecado e sujeitá-las à graça!

Não repele nem ainda os maiores pecadores. Se não os admite logo à Sua mesa, ao menos tolera-os na Sua presença.

Tenho eu imitado até agora, tenho eu ao menos estudado tão perfeito modelo? Ah! Senhor, eu não sabia sequer considerar-Vos sob este aspecto na adorável Eucaristia. Dignai-vos tornar-me daqui em diante mais atento, mais dócil às lições que me dais todos os dias na celebração dos santos mistérios. Infundi-me essa mortificação, essa vida, esse zelo, de que me ofereceis tão grandes exemplos no altar.
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