quinta-feira, 1 de julho de 2010

NATUREZA DA VIDA DE INTIMIDADE

Nota: Para ver o índice total desta obra que transcreveremos no decorrer deste ano clique aqui.

SEGUNDA PARTE

CAPÍTULO II
NATUREZA DA VIDA DE INTIMIDADE


(Princípios da vida de intimidade com Maria Santíssima
segundo os Santos, os Doutores e os Teólogos,
pelo Pe. Júlio Maria)

 Estas palavras: vida de intimidade, vida de união, vida familiar, vida íntima com a Santíssima Virgem, as quais se encontrarão sempre numa impressão agradável, espargindo em cada página deste livrinho, causam-nos em nossa alma algo de aprazível e reconfortante.

É que para nós, pobres criaturas, que trazemos no espírito, no coração, na alma, aspirações para o infinito, é tão doce repousar neste pensamento da posse de Deus, da vida de intimidade com o doce Salvador de nossas almas.

Examinemos esta aspiração em seu princípio e em sua realização.

Em seu princípio, isto é, em sua origem e em seu desenvolvimento. Em sua realização, não somente na glória onde ela deverá terminar, mas mesmo no seu aperfeiçoamento aqui na terra, onde ela já nos faz participar um pouco da beatitude celeste.

Reduzamos tudo aos dois princípios seguintes:

PRIMEIRO PRINCÍPIO:

A vida de intimidade, sendo uma aspiração de nossa alma, é já uma antecipação da vida do céu.

SEGUNDO PRINCÍPIO:

Sendo a glória o aperfeiçoamento da graça, quanto mais estreita tiver sido nossa intimidade sobre a terra, tanto mais, com as devidas proporções, ela será intensa no céu.

PRIMEIRO PRINCÍPIO

A vida de intimidade, sendo uma aspiração de nossa alma, é já uma antecipação da vida do céu. Em geral, a vida de intimidade é uma das aspirações mais urgentes de nossa natureza.

Ensina a psicologia que o homem traz em si quatro inclinações sociais. Estas inclinações são as seguintes:

"A sociabilidade, ou o amor aos outros homens em geral.
As afeições familiares, que não são mais que o amor aos nossos pais.
As afeições patrióticas, ou o amor aos nossos concidadãos.
E finalmente as afeições eletivas, particulares, como a amizade, o amor."
(Compayé: Psicologia aplicada à educação, I Parte, cap. XV)

Não temos que analisar cada inclinação em particular; todas elas são uma aspiração à intimidade.

Nós amamos os homens, amamos os nossos concidadãos, amamos os nossos pais, mas todos estes amores ainda são muito vagos; a alma, porém, aspira a uma vida mais íntima, que se esforça por realizar, seja pela amizade, seja pelo amor propriamente dito.

O amor quer intimidade. Ele a quer, aqui na terra ou lá no céu. O amor terreno só pode ser parcial, imperfeito; contudo, ele pode atingir o cume, a plena realização de suas aspirações.

O amor do céu não encontrando aqui na terra nada que o satisfaça, dá-se a Deus, entrega-se ao Bem supremo, desejando uma intimidade perfeita, intimidade ideal, sem nuvens, para realizá-la pouco a pouco, pela lembrança, pelo coração e pelo espírito.

Se a vida de intimidade é uma necessidade para toda alma racional, a vida de união a Deus é uma aspiração de toda alma sinceramente cristã.

É esta necessidade que colocava nos lábios do imortal gênio de Hiponna, Santo Agostinho, estas palavras tão amorosas e tão cheias de saudade divina: "Vós nos fizestes para Vós, meu Deus, e nosso coração está inquieto, enquanto não descansar em Vós".

Já aqui na terra Deus se dá a nós. Ele se dá, mas não se deixa ver ainda.

Esta doação do tempo é envolvida em trevas e combatida por mil imperfeições. Ora, o que nos é necessário é um conhecimento que sacie o nosso espírito, repouse o nosso coração e dê à nossa alma o seu verdadeiro alimento - o próprio Deus.

"Nós havemos de vê-lO, não mais através de um espelho, como aqui na terra, mas face à face, tal qual Ele é". (São João III, 2)

Desejamos pois o céu, porque ele é posse de Deus, é a intimidade com Deus, intimidade perfeita, sem sombras. Aspiramos por ele, porque somos feitos à imagem de Deus. E, trazendo em nós esta imagem divina, desfigurada pelo pecado, nós aspiramos contemplar-Lhe o arquétipo, em toda a Sua beleza, em toda a Sua pureza e em toda a Sua glória.

Deste modo a vida de intimidade se torna uma das aspirações mais irresistíveis e mais atraentes de nosso ser. É uma necessidade de nosso coração, feito para amar e, que não encontrando na terra nenhum amor capaz de saciá-lo, eleva mais alto o seu ideal, procurando-o na beatitude eterna.

Esta aspiração é reconhecida, não somente pelas almas piedosas, mas também por todos os psicólogos, que a unem às inclinações ideais.

Com efeito, estas inclinações ideais ou superiores, referem-se a quatro objetivos: a idéia do verdadeiro, a idéia do belo, a ideia do bem e a ideia de Deus.

Esta idéia de Deus, que geralmente chamamos o sentimento religioso, resume as três primeiras aspirações, abrange-as todas e lhes comunica todo o seu valor.

Nada mais verdadeiro, mais belo e mais nobre do que Deus. Eis porque o sentimento religioso exerce sobre o homem uma influência muito mais extensa e mais forte que qualquer uma das três primeiras aspirações.

E é este sentimento, elevado a um grau intenso, que faz os santos, os verdadeiros heróis, pois todos eles souberam vencer o mundo e vencer a si próprios.

Ora, o sentimento religioso é essencialmente uma aspiração à vida de intimidade com Deus. O santo sente que por si mesmo nada pode: por conseguinte, apoia-se sobre Deus, afim de alcançar tudo e tudo poder por Aquele que o fortifica: Omnia possum in eo qui me confortat, dizia o grande Apóstolo.

Só no u esta aspiração será plenamente satisfeita, porque lá somente é que poderemos possuí-lo, sem receio de nunca mais perdê-lo.

Lá viveremos com Ele, viveremos d'Ele, seremos verdadeiramente de Sua família: - será isto à verdadeira vida de intimidade que se chamará então: "visão beatifica"!

Mas até que a morte venha desligar os laços que nos prendem à terra, até que nos desembaracemos de tudo o que em nós existe de corruptível, já aqui na terra podemos fazer um esboço e de certo modo ir colocando os fundamentos de nossa intimidade já enunciado.

SEGUNDO PRINCÍPIO:

Sendo a glória o aperfeiçoamento da graça, quanto mais estreita tiver sido nossa intimidade sobre a terra, tanto mais, com as devidas proporções, ela será intensa no céu.

No céu todas as almas possuirão a Deus, todas vê-lO-ão, todas banhar-se-ão neste Oceano de amor e de eterna felicidade, mas não todas elas em igual medida, nem em iguais profundidades. - "Há muitas moradas na casa de Meu Pai", disse Nosso Senhor.

Na verdade compreende-se que a visão de Deus, a glória e a felicidade de uma seráfica Teresa de Jesus, de um apóstolo como São Francisco Xavier, de um amante da Cruz como São Pedro de Alcântara, de um pobre voluntário como São Francisco de Assis, de um apaixonado pela Santíssima Virgem como os santos Bernardos, Ligórios, Eudes, beatos de Montfort, etc... compreende-se, digo, que a glória, seja superior à de um pecador convertido na última hora.

No céu, entre as moradas de um e de outro, deve haver uma distância incalculável.

Aquele cujo coração já era na terra qual chama ardente e brilhante, cuja ambição era amar e fazer amar a Deus, receberá uma coroa mais bela, ocupará um trono mais cintilante, gozará de uma visão divina mais intensa e mais clara, do que aquele que viveu em uma espécie de apatia, não dando a Deus senão os estritos deveres, quase sem fazer obras de supererogação.

É assim que, desde agora, nós podemos e devemos pôr os fundamentos de nossa vida de intimidade no céu.

Podemos até, com o socorro da graça, fazê-la atingir uma intensidade tal que seja verdadeiramente uma antecipação da vida celestial.

"Prometendo um céu para a eternidade, diz muito bem S.João Crisóstomo, Deus já nos deseja um céu sobre a terra".

E qual é este céu?

É a vida de intimidade, como ela existia antes do pecado entre Deus e nossos primeiros pais. "O prazer (a vontade) de Deus, diz uma santa alma (Mère M. de Salles Chappuis) é fazer conosco o que Ele queria fazer antigamente antes do pecado".

"A intimidade da terra conduz verdadeiramente a intimidade do céu".
(F.Maucourant - Vida de intimidade com o bom Salvador)

E, além disso, "a felicidade do céu não é outra coisa que uma grande familiaridade com Deus, elevada a um grau que ultrapassa toda a compreensão humana", - (R.P. Coulé S.J) - e, em outras palavras, como diz Santo Tomás, "toda graça é um gérmen do que existirá na glória" e consequentemente segundo observa S. Ligório, "a caridade nos bem-aventurados revestirá a forma que o amor tinha durante a vida terrena." (S. Ligório: A verdadeira esposa)

Ao entrar no céu, o cristão não muda o coração; conserva-o somente concluído e aperfeiçoado. Lá Jesus se nós dá, como Ele o havia entrevisto e desejado aqui na terra.

"O que começardes aqui na terra, diz Bossuet, continuá-lo-eis na eternidade".
(Bossuet: Sermões)

É o que o Espírito Santo nos faz compreender por estas conhecidas palavras: "Cada um será premiado conforme tiver trabalhado". (Isaías LIII, II)

***

Em resumo, qual é então a natureza da vida de intimidade?

É uma antecipação da vida dos anjos, dos santos, que já alcançaram o céu - é um começo do que faremos eternamente na glória.

Donde se segue que esta vida de intimidade é necessária a todo cristão, desejoso de se salvar, já que esta mesma vida é a medida da glória e da felicidade que ele gozará um dia no céu.

Seria necessária outra consideração, para nos fazer amá-la, para nos impelir a praticá-la e mesmo para torná-la como que o centro e o fim de nossa vida?

Antes de prosseguirmos nesta consoladora e profunda doutrina, recolhamo-nos por alguns instantes, para recitar com amor esta pequena oração do grande São Bento, pedindo a Deus a graça desta vida de intimidade:

"Dignai-Vos, ó Pai amantíssimo, ó Deus boníssimo, dignai-Vos dar-me uma inteligência que compreenda Vossos pensamentos, um coração que penetre em Vossos sentimentos, uma energia que Vos procure e ações que aumentam a Vossa glória. Meu Deus, dai-me olhos fitos sobre Vós sem cessar, uma língua que Vos pregue, uma vida que seja inteiramente dedicada a Vosso bel prazer. Dai-me, enfim, ó meu Salvador, a felicidade de Vos contemplar um dia, face a face, com os Vossos santos".
(Oratio Sancti Benedicti)

(Princípios da vida de intimidade com Maria Santíssima segundo os Santos, os Doutores e os Teólogos, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o postA vida de intimidade e a graça)

PS: Grifos meus.
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