sexta-feira, 16 de julho de 2010

A FORMAÇÃO DA VONTADE - Parte III

A FORMAÇÃO DA VONTADE
Parte III

A iluminação sincera da inteligência


Por que é que a inteligência deve ser sinceramente esclarecida?
A inteligência deve ser sinceramente esclarecida porque é a ela que compete tomar as decisões.

Quais são os meios a empregar para garantir a iluminação sincera da inteligência?

- É, principalmente, nada fazer que a possa contrariar.
- É, em seguida, precavê-la contra as ilusões e causas clássicas de erros de juízo.
- É de se reportar aos princípios.
- É, se for preciso, pedir conselho.

Quais são as causas que poderiam contrair a iluminação sincera da inteligência?
- São as mentiras, os embustes, as infantilidades, etc... nunca se deve enganar as crianças.

- São as lisonjas que dariam às crianças uma idéia presumida das suas capacidades e do seu poder de ação, e que as arrastaria a quererem o impossível.

Quais são as ilusões e as causas clássicas de erros de apreciação contra as quais é preciso precaver as crianças que se hão de formar?
São muito especialmente as ilusões que em nós produzem o interesse e o prazer...

Como é que o interesse pessoal falseia a visão?
Criando em nós uma deplorável confusão entre as nossas impressões e as nossas apreciações.

Uma ligeira conversa ouvida num escritório:

- Tu sabes Untel, ele desapareceu, levando 30.000 francos.
- Mas também levou o teu guarda-chuva.
Oh! canalha!

Eis aí o prisma do interesse.

A inteligência considera as coisas sãmente; chama crime o roubo de 30.000 francos, e pequeno furto o roubo dum guarda-chuva. Pelo prisma do interesse pessoal, chamamos finório àquele que rouba 30.000 francos a outrem, e canalha àquele que nos rouba um guarda-chuva.

Como podemos preservar as crianças deste erro de apreciação?
Habituando-as a julgar as coisas como elas são em si mesmas; as suas faltas, como fariam com as dos outros; e os interesses do próximo como os seus próprios interesses.

Quando o profeta Nathan procurou David para exprobar o seu duplo crime, serviu-se de um apólogo. David não se reconheceu nessa alegoria e deixou-se arrebatar pela indignação:

- Quem é esse homem? - exclamou ele.
- Esse homem és tu! - respondeu o profeta.

E David voltou contra si a cólera de que estava possuído.

Como pode o prazer falsear a visão?
Substituindo as prescrições do catecismo e da consciência por fórmulas vãs, máximas ilusórias, preconceitos mundanos.

A luz da fé projeta raios muito claros e muito penetrantes sobre os pensamentos, os sentimentos, os desejos, as imaginações, os olhares, as palavras e os atos nas suas relações com a virtude.

E o mancebo e a donzela, cuja sensibilidade e delicadeza têm sido embotadas pelas leituras, pelas conversações, pelas visitas, pelas diversões, pelos prazeres, satisfazem-se com as palavras que tomam como se fossem razões:

"É preciso gozar a mocidade!"
"A gente não nasceu para freira!"
"Não é proibido ser amável."
"Não falo nada com má intenção!"

E a conclusão é que não há motivos para constrangimentos. Por outras palavras, não se procura a luz divina: queremos recebê-la do mundo. Não são as estrelas que servem de guia: é o brilho do ouro ou deslumbramento do luxo.

Que se deve fazer para preservar as crianças desta ilusão?
É preciso acordar a sua consciência e habituá-las a raciocinar segundo os princípios.

Qual será a vantagem deste amor aos princípios nas decisões tomadas pela inteligência?
Será de cortar cerce toda a fraqueza, ou melhor, de cortar o mal pela raiz.

Quem se apega aos princípios, aos bons princípios, naturalmente, é guiado pela razão reta, pela consciência e por Deus. Não se pode transviar.

Quais os meios de inspirar nas crianças este amor pelos princípios?
- É dar-lhes o exemplo; e, à medida que a sua inteligência se vá desenvolvendo, mostrar-lhes em toda a sua evidência as razões superiores da linha de procedimento a seguir.

- Devemos repetir-lhes de maneira a compenetrá-los bem da verdade, algumas sentenças bem escolhidas, algumas máximas expressivas, algumas divisas dignificadoras que iluminem o espírito e despertem um nobre entusiasmo nos corações.

"As sentenças são como pregos agudos que fixam a verdade na nossa lembrança".
(Diderot: O Espírito Santo disse no Eclesiastes: "Verba sapientium sicut stimuli, et quasi clavi in altum defixi: As palavras dos sábios são como aguilhões e como pregos cravados profundamente" - XII, 11)

"As boas máximas são o gérmen de todo o bem e, fortemente gravadas na memória, alimentam a vontade". (Joubert)

Eis alguns exemplos:

"Quem trabalha, Deus ajuda!"
"O custar está no principiar!"
"Não há gosto sem desgosto!"
"Faz bem, e deixa falar quem fala!"

A iluminação da inteligência e conhecimento dos princípios são sempre suficientes para dar origem, por si sós, a uma decisão racionalmente fundada?
Não: É preciso em certos casos recorrer à experiência doutrem; é preciso tomar conselho.

O conselho deve ser considerado como necessário?
É muitas vezes necessário aos adultos, pode dizer-se que o é sempre às crianças.

Com que disposições se deve pedir o conselho?
É preciso ser sincero; sincero na exposição do caso; sincero na docilidade prévia, que é a base de toda a consulta séria.

Um dia uma pessoa anunciou-nos que viria visitar-nos, para pedir o nosso conselho sobre uma questão, cujo assunto indicava vagamente. Dizendo-lhe que estimaríamos muito poder ser-lhe útil e teríamos muita honra em receber a sua visita, demos-lhe a entender, ou antes, fizemo-lhe sentir que não estávamos bem de acordo com o seu modo se ver.

Não recebemos a visita anunciada.
Não se tornou a falar na consulta.

E essa pessoa procedeu duma maneira completamente diferente daquela que lhe teríamos aconselhado. (Autêntico)

(Excertos do livro: Catecismo da Educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: A docilidade em relação à razão e ao conselho dado).

PS: Grifos meus.
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