terça-feira, 27 de julho de 2010

V - A AGONIA

V - A AGONIA


É difícil ser corajoso só e sem testemunha.

A coragem não passa muitas vezes de uma chama ateada pela presença daqueles que nos observam, e que nos hão de censurar ou de louvar.

A força diante da morte é por vezes uma exibição que requer um palco e exige espectadores.

O homem que conduzem ao suplício tem um recuo involuntário; domina-se muitas vezes por medo... do medo: é um outro medo.

Mas ninguém escapa a esse combate ao menos interior da vida que a morte cai colher.
Dele não se isentam os próprios moribundos: é a agonia.

É ela ordinariamente mais cruel que a própria morte.
Esta é a libertação, o golpe derradeiro: não os haverá mais depois.

A agonia martela a alma, abala-a, sacode-a. Ataca por todos os lados: é a morte que quer assenhorear-se. O corpo banha-se em suor nesse rude e supremo combate.

É o último sobressalto do instinto de viver contra o medo de morrer.

Quando, já morto para os que o cercam, o agonizante parece inerte e sem força, é que a vida se retira para o fundo d’alma como para o último reduto; não quer sair, e desse fundo túrbido, como do antro escuro do Gethsêmani, brota com força estranha uma oração análoga à de Jesus... “Se é possível, passe longe de mim o cálice, meu Pai!”

A agonia é, pois, antes de tudo, o medo da morte, a tristeza de deixar a vida, o instinto que se aferra a esses destroços que hoje se chamam o corpo e amanhã serão o cadáver.

É evidente que a primeira agonia de Jesus foi esta.

E em verdade porque não a compreender antes que tudo assim?

Por que razão, a pretexto de uma dignidade mal entendida, recusar-nos, a nós que temos de agonizar e morrer, este último consolo de nos podermos dizer, quando estivermos nas supremas trevas do fim:

– Eu tenho medo, porém Jesus teve medo antes de mim, Eu tremo, Ele tremeu. Eu não quisera morrer, Ele também não quis.

Oh! Como te será consolador então, minha pobre alma em ânsias, repetires nos últimos balbucios dos teus lábios pálidos: Pater, transeat a me calix iste. Pai, afaste-se de mim este cálice.

Verumtamen, non sicut ego volo sed sicut tu. Contudo, faça-se a Tua Vontade e não a minha. Fiat. Amen.

Tudo estará então nestas duas palavras, sobretudo na última: Amen, assim seja, é o fim de tudo, Deus o quer... Amen, assim seja! Glória assim mesmo a Ele: ao Pai, ao Filho e a Espírito Santo; eu me extingo, sou consumido. Eis a eternidade!... Amen! Assim seja.

Como tal, portanto, foi bem esse medo do fim – e que fim deveria ser o Seu! – foi bem esse pavor do suplício que deitou por terra a Jesus, o Filho do Homem, igual a nós na natureza humana...

E isto me conforta: foi essa luta entre a vida que não quer sair e a morte que quer entrar que Lhe cobriu o corpo de suor, e a luta foi tão cruciante que o suor que escorria era Sangue.

E isto me fortificará nos terríveis e derradeiros suores da minha agonia.

Admitida esta primeira causa, eu admito a seguir todas as demais, na agonia do meu Mestre amado.

É primeiramente o horror da Justiça de Deus que vai abater-se sobre Ele; Ele é a Vítima prometida, esperada, conservada, acalentada quase, para aquela hora.

Teve a sublime imprudência de se comprometer para aquela hora por todos os pecadores; a palavra foi dita – todos –, o contrato está firmado, não se lhe pode Ele furtar.

Ora, aí está o vencimento [da dívida], o terrível vencimento; há que pagar, já que se fez fiador.
Nós não queremos crer, porém chegará para nós, como chegou para Ele, esse vencimento último.

Devêra ser pensamento em nós habitual, se conhecêssemos o abismo das nossas quedas, o perguntarmo-nos a cada sofrimento que presenciamos: E para mim, que dor estará reservada? Sobretudo se vemos o sofrimento de um inocente... E eu, quando chegar o terrível momento do vencimento?... Ó meu Deus!... Este peso da Vossa Justiça divina esmaga-me por minha vez: folgo, porém, de que meu Jesus tenha temido também essa Justiça, até a morrer de medo. Tranqüilizo-me vendo-O estendido no chão, triturado já por essa Justiça, cuja voz terrível ouço a convocar todas as criaturas como a Seus carrascos: Vinde, acorrei, avenhamo-nos sabiamente para oprimi-lO... Sim, rejubilo-me desse medo que O prostra e desse pavor da Justiça que O pisa, como a uva no lagar.

Porque afinal, o que essa Justiça esmaga assim são os meus pecados; eles lá estão todos, vejo-os no Seu pobre corpo, ó vergonha!... Nem um só falta, ó ventura!...

Meu Jesus expiou-os pois; já agora eu não terei mais do abraçá-lO, tomar do Sangue do meu Mestre, cobrir-me dEle pela Confissão e pelo arrependimento, e em seguida poderei, como o poeta [Des Barreaux], desafiar a Justiça do Pai clamando-Lhe:

“Em que ponto, porém, incidiria o Teu raio,
Que não esteja coberto do Sangue de Jesus Cristo?”

Uma outra causa, de não menos peso, da agonia do Mestre, é a vergonha que Ele experimenta de se ver carregado de todas as iniqüidades do gênero humano.

Representemo-nos uma alma, a nossa, chegada ao tribunal de Deus. Que silêncio... e que pavor!
De todas as partes, dos recantos mais remotos do nosso passado, as menores ações acodem: cada qualquer tem seu lugar, aquele que lhe deu em nossa vida a nossa vontade.

Há que responder por todas: os pecados mais secretos e mais esquecidos reaparecem como se foram de ontem. Todos os testemunhos se conjuram para acusar-nos: os da nossa memória, os da nossa sensibilidade, os da nossa carne culpada e violentada, os do nosso orgulho animado e dominador.

Deus se cala: só faz escutar. Nós nos calamos também; estamos sucumbidos!

Tal é a primeira atitude de Jesus no horto. Primeiro que tudo, está como atônito: ouve um clamor violento elevar-se contra Ele: escuta, cala-se.

Ai! Não tem de responder pela Sua Alma só: responde por todas.

Não é uma vida – a Sua – que se Lhe desenrola aos olhos ante a Face imutável de Deus Seu Pai... é a vida de todo o gênero humano. Tantos homens, tantas testemunhas; tantas testemunhas, tantas consciências que se abrem e se patenteiam; tantas vozes que saem das entranhas de todos os homens!
Já é, para um ente só, um concurso esmagador este acúmulo de testemunhos manantes da própria consciência: que dizer então de um homem que se achasse o confluente de todo o gênero humano, tendo que responder por tudo e por todos?...

“Um homem na queda de várias torrentes, exclama Bossuet... elas O empurram, derrubam-nO, tragam-nO: ei-lO prostrado e abatido, a gemer debaixo daquele peso vergonhoso, sem ousar sequer relancear o Céu, tão carregada tem a cabeça e esmagada pela multidão dos Seus crimes, quer dizer, dos nossos, que verdadeiramente se tornaram os Seus”
(Bossuet, 1º Sermão sobre a Paixão).

Chegam estes, com efeito, de todas as partes: as corrupções de Sodoma sobre a pureza divina; as exações de Tiro e de Sidon e as crueldades dos bárbaros sobre o manso Cordeiro que estende a cerviz ao cutelo.
Roma, Atenas, Nínive e Babilônia, todas as civilizações antigas, elegantes e apodrecidas, isto anteriormente; a depois dEle, toda a densa procissão dos crimes dos cristãos, as covardias, as traições, asa infidelidades, as recaídas, as blasfêmias.

Um oceano de torpezas, convocado por Deus, como por um assovio, de todos os confins do mundo, in illa die sibilabit Dominus... (Is 7, 18), e vindo despenhar-se sobre aquele pobre ser já por terra e quase morto.
De certo, bem está aí com que fazer rebentarem todas as veias de um corpo e trilhar todas as fibras de um coração. Que peso acrescentar ainda?... Outro mais.

A visão clara, nítida, precisa, por demais precisa, de que aquela agonia, aqueles padecimentos e aquela morte não servirão a todos; que só haverá mesmo, em suma, um pequeno número que os quererá aproveitar.

É este um sofrimento requintado; trabalhar em pura perda, descer tanto no opróbrio e no Sangue, e só tirar tão minguado proveito! Se ainda o mundo inteiro se assegurasse por tudo aquilo da sua salvação, mas tão poucos! Este pequeno número dos eleitos: mistério tremendo! E entre esses eleitos, tantos que deverão a sua felicidade eterna a um mero excesso de comiseração e de indulgência!

Para quê então? Quae utilitas in Sanguine meo? (Sl 39, 10). Por que aquela profusão inútil de Sangue?...

Deste modo, tudo concorre para desalentar o Mestre. O medo natural da morte, o pavor dos suplícios, a inutilidade daquele esforço sublime pela salvação do grande número. A impotência de pagar as dívidas do gênero humano que não seja por todo o Seu Sangue. O peso da vergonha que O esmaga aos olhos do Céu inteiro, tudo, até o abandono dos Apóstolos, a desafeição que se opera neles, pois Jesus lhes conhece o fundo do pensamento e vê-lhes a admiração, o escândalo, quase o desprezo pela Sua fraqueza aparente e pelo Seu pavor natural. E depois, por cima de tudo, a cólera do Pai que O vai esmagar justamente...

Porque Ele não pode dizer que aqueles suplícios sejam exagerados ou injustos; não, eram necessários.

Os Mártires eram sustentados pelo testemunho da sua inocência; Jesus, porém, é acabrunhado até por Sua própria consciência, por Ele amorosamente sobrecarregada de todos os nossos pecados.

Em verdade, nada se pode acrescentar a esse mar profundo de ondas pesadas e revoltas que vêm quebrar de todos os lados, e que O cobrem da espuma de todas as humilhações.

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(2ª Parte da obra “A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.
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