terça-feira, 27 de julho de 2010

Tudo convida a alma ao esquecimento próprio

VIDA DE ESQUECIMENTO PRÓPRIO
PARTE IV


Tudo convida a alma ao esquecimento próprio

Dependemos de Deus sob todos os pontos de vista e em cada uma das particularidades de nossa vida. Ele tem sobre nós um direito soberano e completo. Não existimos senão por Ele, e só para Ele e em conformidade com Ele podemos existir. Não é justo que seja Ele o centro para onde convergem todas as nossas ações, todos os nossos desejos e pensamentos, tudo o que possuímos e somos? Não será justo que diante dEle desapareçamos e nos esqueçamos de nós?

Mas que reviravolta universal na ordem estabelecida! Cada criatura racional procura substituir-se a Deus, constituir-se em centro e fazer gravitar em torno dela as outras criaturas e o próprio Deus. Os satélites querem tomar o lugar do sol, o grão de areia julga-se uma montanha, o pingo de água pretende encher o oceano.

A razão humana fez-se deusa, derrubou o trono de Deus e presta culto a si própria. Proclamou os seus direitos em relação a Deus e ditou-Lhe os Seus deveres. Quis dar a liberdade aos homens submetendo-os a Satanás, quis proclamar a igualdade entregando-se aos tiranos, quis fazer reinar a fraternidade suprimindo o amor.

O que o orgulho coletivo levou a cabo, a presunção de cada homem repete-o todos os dias na vida particular. Esquecendo que é um ser insignificante, essencialmente dependente, que não vive senão por favor e para honra de Outro, empertiga-se na sua dignidade, proclama-se senhor absoluto e estende o seu domínio sobre o que o cerca. Ao Deus criador e eterno que lhe reclama o tributo da sua submissão, responde desafiando-O com insolência.

"Céus, admirai-vos! Criei uns filhos e engrandeci-os; mas eles desprezaram-me. O boi conhece o seu dono, e o jumento quem cuida dele, mas Israel não me conheceu e o meu povo não me entendeu." (Is. 1,2-3)

Como pobre ser humano se deixou transformar pelo pecado! Não sonha senão com a independência, as honras, os prazeres e as riquezas, mas tudo dentro e fora dele lhe lembra o nada de onde saiu.

Vê o corpo debilitar-se lentamente e inclinar-se dia após dia para o túmulo. Sente o coração enregelar-se pouco a pouco ao contato com o egoísmo e estiolar-se ao sopro glacial da mentira e da hipocrisia. Vê esvaírem-se como sonhos os devaneios de felicidade que lhe embalaram a juventude. Julga-se livre, honrado, amado, influente, mas a triste realidade ensina-lhe que está à mercê dos acontecimentos, que é joguete da sua própria imaginação e vítima da cupidez e do egoísmo alheio. Tudo à sua volta lhe diz que é infinitamente pequeno e insignificante na terra, tudo o convida a esquecer-se e a fazer-se pequeno.

Se a alma soubesse compreender esta voz e retornar por uma ato de perfeita humildade à sua origem, que é o nada! Se pudesse de uma vez por todas restabelecer a ordem tão seguidamente violada pelo seu orgulho, como seria feliz, grande, livre!

(O dom de si, vida de abandono em Deus, pelo Pe. José Schijvers, continua com o post: O amor torna fácil o esquecimento próprio)

PS: Grifos meus.
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