quarta-feira, 28 de julho de 2010

O amor torna fácil o esquecimento próprio

VIDA DE ESQUECIMENTO PRÓPRIO
PARTE V


O amor torna fácil o esquecimento próprio

O esquecimento próprio atemoriza a maioria das almas. Não compreendem como se pode amar a cruz, procurar a humildade, ambicionar o desprendimento.

Desconhecem o amor de Deus.

O amor é a chave do segredo, sem a qual toda a ciência espiritual é vã. Sem amor, não há esquecimento próprio, mas somente vil egoísmo, sensualidade, orgulho. Com ele, pelo contrário, o espírito mais extraviado volta ao bom caminho e o coração mais aviltado reconquista a sua nobreza.

Só o amor santo guia os corações, previne-lhes as quedas, livra-os da desordem. Ao egoísmo opõe a generosidade; ao orgulho, a humildade; à avidez de prazeres e glória, a abnegação, o espírito de serviço e o esquecimento próprio.

Qualquer homem, por mais fundo que tenha caído, guarda vestígios de sua primitiva grandeza. É ambicioso, procura apaixonadamente honras vãs, tesouros perecíveis; mas não foi ele criado para ser infinitamente honrado e possuir bens infinitos?

Ama o gozo, procura os prazeres com incrível tenacidade; mas não tem ele direito a delícias sem fim, a uma felicidade sem mescla?

Foge das penas, detesta o sofrimento e odeia o trabalho; mas não foi ele destinado a um descanso e a uma felicidade sem nome?

Teme a sujeição, abomina a escravidão, revolta-se contra a força, mas é porque tem sangue real nas veias, porque é filho de Deus, feito à imagem de Deus, feito para reinar.

Restituí a este homem o amor e converter-se-á em herói, em santo. O amor é o imã irresistível que atrai todas as forças divergentes da alma. As que pareciam refratárias a toda a tentativa de unificação acabarão por aglutinar-se sob o seu império.

Sob a poderosa influência do amor, a ambição e o desejo de estima transformam-se em zelo ardente pela glória de Deus, a procura obsessiva de gozo converte-se em sede ardente de agradar ao Coração de Cristo. A alma ansiosa de liberdade vê-se livre de entraves, livre como uma rainha presa somente pelo seu amor. O coração tímido, que abominava penas e sofrimentos, aspira à dedicação, à imolação, ao esquecimento próprio. É o poder do amor, forte como o exército alinhado em ordem de batalha.

O que é que faz a força de um general? O entusiasmo que inspira aos seus soldados. Um exército é inicialmente um composto informe de elementos dispersos. Todos esses homens só têm de comum o uniforme, a energia e o desejo de combater... Mas contra quem e segundo que estratégia? Venha um chefe competente e amado para o seu comando, alinhe-os, e eis formado um poderoso exército.

Os elementos desconexos agruparam-se em volta desse centro por uma irresistível força de atração, as inteligências de milhares de guerreiros aceitaram cegamente o plano do general, as suas vontades curvaram-se às suas ordens e, para agradar-lhe, combaterão até à morte. O que foi que os subjugou e eletrizou? O entusiasmo, a admiração e o amor pelo seu chefe.

A alma que luta pela santidade deve inspirar-se neste exemplo. Nela fervilham paixões indômitas; são forças temíveis. Se o coração não as dirigir, essas energias arremeterão contra ele. Mas como dominá-las? Dando-lhes um chefe amado que as submeta, discipline e coordene. Esse chefe é Jesus Cristo.

Senhor! Armai o Vosso trono no íntimo do meu coração, e todas as minhas capacidades, cativadas pelo Vosso perfil infinitamente amável, virão inclinar-se diante de Vós. A Vossa bondade as fascinará, a Vossa doçura as prenderá, a Vossa ternura as adormecerá no Vosso seio. Depois, transformadas pelo Vosso poder divino, converte-se-ão em energias para o bem.

Não, Senhor, não preciso destruir a minha natureza; basta que vo-la ceda. O Vosso amor penetrá-la-á, transformando-a.

Amar-Vos, ocupar a minha inteligência unicamente com o pensamento do Vosso amor, eis o meio eficaz de esquecer-me de mim. Invadi, Senhor, a minha alma por inteiro, sem deixar o menor lugar vazio, e serei forçado, como a pomba de Noé, a voltar para as Vossas mãos e a entrar na arca de Vosso Coração divino.

(O dom de si, vida de abandono em Deus, continua com o post: Quanto mais a alma se esquece de si, mais Deus pensa por ela)

PS: Grifos meus.
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