sábado, 3 de julho de 2010

Da prática da caridade nas palavras

Nota: Este texto foi escrito para religiosas, o que não nos impede de aproveitá-lo em parte em nosso dia-a-dia. 

Da prática da caridade nas palavras
(Santo Afonso Maria de Ligório)


1. Quanto à caridade de que devemos usar para com o próximo nas palavras, é preciso antes de tudo nos abster de toda a maledicência. O maldizente mancha a sua alma, diz o Espírito Santo, e incorre no ódio de todos, de Deus e dos homens (19). Se há, às vezes, quem o aplauda e excite a falar do próximo, para se divertir, esse mesmo logo o foge e evita com diligência, pensando com razão que também não se-rá poupado, quando houver ensejo para isso. — Diz S. Jerônimo que alguns, depois de ter renunciado os outros vícios, parece que não podem deixar o da murmuração (20).

E prouvera a Deus que tais indivíduos não penetrassem nos mosteiros! Infelizmente, porém, também ai se encontram, às vezes, certas religiosas que têm uma língua que não sabe mover-se sem morder e tirar sangue. Em outros termos, há algumas que nada sabem dizer, sem murmurar do próximo; de todas as pessoas de que falam, acham sempre que maldizer.

Essas línguas viperinas deveriam ser absolutamente banidas dos claustros, ou, ao menos, estar sempre encerradas no cárcere; porque perturbam o recolhimento, o silêncio, a devoção e a paz de toda a comunidade. Em suma, são a ruína dos mosteiros. E queira Deus não lhes suceda o que aconteceu a um sacerdote murmurador conhecido de Thomaz Cantipratense, que narra ter o infeliz expirado em um acesso de furor, dilacerando a língua com os dentes (21).

S. Bernardo fala de um outro murmurador, que, tendo querido dizer mal de S. Malaquias, sentiu logo a língua inchada e roída de vermes, e morreu miseravelmente depois de sete dias de cruéis sofrimentos (22).

2. Ao contrário, ó quanto é amada de Deus e dos homens uma religiosa que fala bem de todos! — Dizia Sta. Maria Madalena de Pazzi que se tivesse conhecido uma pessoa que nunca houvesse falado mal do próximo, a teria proclamado santa. — Tende, pois, cuidado de vos abster de toda a palavra que envolva murmuração de quem quer que seja, mais especialmente de vossas irmãs e ainda mais dos vossos superiores, como o prelado, a superiora, o confessor; porque falar mal dos superiores, além de lhes danificar a fama, faz as outras perder-lhes a obediência: ao menos faz perder a submissão do espírito: e se acaso as irmãs, por vossa causa, chegam a compreender que os superiores agem sem razão, depois dificilmente lhes obedecerão como devem.

Comete-se murmuração não só quando se procura denegrir a reputação do próximo, imputando-lhe uma falta que ele não fez, ou exagerando suas faltas reais, ou revelando as que ocultou, mas também quando se interpretam mal suas ações boas ou se diz que são feitas com má intenção. — É também mur-muração negar o bem que fez ou contradizer os justos elogios que se fazem do próximo. — Para tornar a murmuração mais crível, que não fazem certas línguas malignas? Começam a louvar uma pessoa, e depois acabam murmurando: Fulana é muito talentosa, mas é soberba: é liberal, mas é vingativa.

3. Procurai pois sempre falar bem de todos. Falai dos outros como quereis que falem de vós. A respeito dos ausentes, segui esta máxima de Sta. Maria Madalena de Pazzi: Não se deve dizer na ausência de alguém aquilo que se não diria em sua presença. — Se vos acontecer ouvir uma irmã murmurar de outra, guardai-vos de incitá-la a falar, ou mostrar-lhe que tendes prazer em ouvi-la, porque então vos tornaríeis cúmplices do seu pecado. Nesse caso, re-preendei-a ou interrompei a conversa, ou retirai-vos, ou, ao menos, não lhe deis atenção.

Quando ouvirdes alguém murmurar, diz o Espírito Santo, cercai os ouvidos com espinhos, para que os não penetre a malediência (22). É preciso então, ao menos pela guarda do silêncio, mostrando um ar triste ou baixando os olhos, testemunhar que tal conversa vos desagrada. Portai-vos, sempre, de modo que ninguém, para o futuro, ouse atacar a fama alheia em vossa presença. E a caridade exige que tomeis a defesa da pessoa de quem se murmura, quando vos for possível.

Esposa minha, diz o Senhor, eu quero que vossos lábios sejam como uma fita vermelha (23): isto é, segundo explica S. Gregório Nysseno, sejam vossas palavras abrasadas de caridade de modo que ocultem os defeitos alheios, quanto possível (24); ou, ao menos escusem a intenção, se for impossível desculpar a ação, acrescenta S. Bernardo (25). — Como refere Surio, o abade Constavel era chamado Capa dos Irmãos (26), porque este bom monge, quando ouvia falar dos defeitos do próximo, procurava meios de ocultá-los.

O mesmo se narra de Sta. Teresa, dizendo suas religiosas que, onde estava a santa, tinham certeza de que não lhes cortavam na pele, porque sabiam que ela as defendia.

4. Guardai-vos também de referir às vossas irmãs o mal que outras delas disserem. Dai nascem muitas vezes perturbações e rancores que duram meses e anos. Oh! que contas hão de dar a Deus as línguas semeadoras de discórdias nos mosteiros! Quem tal prática incorre no ódio de Deus; pois diz o Sábio: Há seis coisas que o Senhor odeia e uma sétima que detesta (27). Qual é esta sétima? É aquele que semeia discórdias entre os irmãos (28).

Quando uma religiosa fala arrastada pela paixão, merece alguma escusa: mas a que, de sangue frio, sem paixão, fo-menta a discórdia e perturba a paz comum, como Deus a poderá sofrer? Se ouvirdes uma palavra contra alguma de vossas irmãs, segui o conselho do Espírito Santo: Não a deixeis ir adiante, abafai-a no vosso coração, e fazei-a morrer ai (29).

Enquanto um se acha encerrado em um lugar, pode dai evadir-se, e aparecer a vista de todos, mas quem morreu, não pode mais sair da sepultura: Em outros termos, estai atentas para não deixar transparecer nenhum sinal do que ouvistes; porque se derdes o menor indício, ainda que fosse só uma meia palavra ou um simples movimento de cabeça, as outras poderão combinar as circunstâncias, e adivinhar ou ao menos gravemente suspeitar o que tiverdes ouvido.

Há certas religiosas, que, ouvindo algum segredo, parece que sofrem angústias mortais, enquanto o não revelam de qualquer modo: sentem como um espinho a pungir-lhes o coração, até que o lancem fora. Quando descobrirdes qualquer defeito de alguma, podeis dizê-lo somente aos Superiores, e isto somente quando for necessário fazê-lo para reparar o dano da comunidade ou da mesma irmã que falta ao seu dever.

5Quando estiverdes no recreio, nas conversas, guardai-vos de dizer palavras picantes, ainda por gracejo. Gracejos que desagradam ao próximo, são contrários à caridade e ao que disse Jesus Cristo: Tratai os outros como quereis que vos tratem (30).

Porventura vos agradaria serdes zombada e chacoteada diante das outras, do mesmo modo, como tratais as vossas irmãs? Portanto não mais o façais.

Além disso, procurai fugir das discussões e contendas, quanto for possível. Às vezes, por bagatelas e ninharias, travam-se disputas que degeneram em distúrbios e injúrias. Há algumas pessoas que tem o espírito de contradição, pois, sem nenhuma necessidade nem utilidade, mas somente para contrariar, começam a levantar questões impertinentes e fantásticas, e assim ferem a caridade e perturbam a união fraterna. Segui o conselho do Espírito Santo: Não discutais de coisas que vos não molestam (31).

Mas dirá aquela: Eu não posso ouvir absurdos. — Eis o que lhe responde o Cardeal Belarmino: Mais vale uma onça de caridade do que cem carradas de razões. Quando se questionar, especialmente de uma coisa de pouca importância, dizei o vosso parecer, se quiserdes tomar parte na conversação, e depois ficai em paz, sem porfiar em defender a vossa opinião; é até melhor então ceder e adotar a opinião das outras. Dizia S. Frei Gil que, em tais controvérsias, quando um cede, então vence, porque fica superior em virtude e assim conserva também a paz, que é um bem muito maior do que a vantagem de ter vencido com razões, e ter feito prevalecer a sua asserção.

E, por isso, dizia Sto. Efrem que ele, para manter a paz, tinha sempre cedido nas contendas e discussões. Pelo que S. José Calasans dava a seguinte advertência: Quem quiser paz, não contradiga a ninguém.

Se quereis amar a caridade, procurai ser afáveis e brandas com todo gênero de pessoas. A brandura é chamada a virtude do Cordeiro, isto é, a virtude estimada de Jesus Cristo, que por isso quis ter o nome de Cordeiro. Sêde mansas na vossa maneira de falar e de agir, não só com a Superiora oficiais, mas também com qualquer outra pessoa, e especialmente com as irmãs que, no passado, vos ofenderam, ou que no presente vos olham de má vontade, ou são do partido contrário, ou para as quais tendes natural antipatia, seja por suas maneiras pouco polidas, seja por sua falta de reconhecimento a vosso respeito. A caridade tudo suporta, porque é paciente (32). Não se pode dizer que tem verdadeira caridade quem não quer suportar os defeitos do próximo.

Neste mundo não há pessoa alguma, por mais virtuosa que seja, que não tenha seus defeitos. Quantos não tendes vós, e quereis que as outras vos tratem com caridade e compaixão. É, pois, necessário que tenhais também caridade com as outras, e vos compadeçais das suas misérias e imperfeições, segundo exorta o Apóstolo: Auxiliai-vos uns aos outros (33). — Vede com que paciência sofrem as mães as travessuras dos filhos: e porque? Porque os amam. Pelo mesmo sinal se reconhecerá se amais as vos-sas irmãs com caridade verdadeira, amor que sendo sobrenatural, deve ser mais forte do que o amor natural.

Com que caridade nosso divino Salvador não suportou as grosserias e imperfeições de seus discípulos durante todo o tempo, que com eles viveu? Com quanta caridade não suportou Judas, chegando até a lavar-lhe os pés para enternecê-lo?

Mas para que falar de outros? Falemos de vós mesmas. Com que paciência o Senhor não vos tolerou até agora? e vós não quereis sofrer as vossas irmãs? — O médico detesta a enfermidade, mas estremece o enfermo; e assim vós, se tendes caridade, deveis aborrecer os defeitos, mas ao mesmo tempo deveis amar as pessoas que os cometem. — Alguma dirá: Que hei de fazer eu! Sinto uma antipatia natural por aquela irmã, que não posso vê-la sem enfado. — E eu vos respondo: Tende um pouco mais de bom espírito e de caridade, e desaparecerá essa antipatia.

ORAÇÃO

O meu Deus, não olheis para os meus pecados, mas para Vosso Filho Jesus, que por minha salvação, Vos sacrificou a própria vida. Por amor de Jesus, tende piedade de mim e perdoai-me todos os desgostos que Vos dei, especialmente pela pouca caridade que tenho tido para com o próximo. Senhor, destrui em mim tudo o que Vos não agrada e dai-me um verdadeiro desejo de em tudo Vos comprazer.

Ah! meu Jesus, eu tenho o maior pesar de ter já vivido tantos anos e tão pouco Vos ter amado. Ai, dai-me parte naquela dor que tivestes no jardim de Getsemani pelos meus pecados!

Oh! Quem me dera ter morrido antes de Vos ofender? Porém, fico consolada por me terdes dado ainda tempo para Vos amar. Sim, quero empregar todo o resto da minha vida no Vosso amor. Eu Vos amo, ó bem imenso; eu Vos amo, meu Redentor; eu Vos amo, único amor da minha alma. Ai! Fazei-me toda Vossa, antes que me venha a morte! Atrai todos os meus afetos, para que eu não possa amar outro, senão a Vós. Mas enquanto eu viver, ó meu amor, estou em perigo de Vos perder. Quando chegará o dia em que poderei dizer: Meu Jesus, eu não Vos posso perder mais!

Ai! Uni-me à Vós, mas segurai-me de modo que eu não possa mais separar-me de Vós. Fazei isto pelo amor que me mostrastes, ao morrer por mim na cruz.

Ó Virgem Santíssima, Vós sois tão querida de Deus, que ele nada Vos recusa. Obtende-me a graça de não ofendê-lO mais e de amá-lO com todo o meu coração, e nada mais Vos peço.
 
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19. Sussurro coinquinabit animam suam, et in omnibus odietur. Eccli. 21, 31.
20. Qui ab aliis vitiis recesserunt, in istud tamen incidunt. Ep. ad Celant.
21. De Apib. l. 2, c. 37. — Vit. S. Mal. c. 13.
22. Sepi aures tuas spinis, linguam nequam noli audire. Eccli. 28, 28.
23. Sicut vitta coccinea, labia tua. Cant. 4, 3.
24. In Cant. hom. 7.
25. Excusa intentionem, si opus non potes. In Cant. s. 40.
26. 17. Febr. Vit. c. 6.
27. Sex sunt quae odit Dominus; et septimum de-lestatur anima ejus. Prov. 6, 16.
28. E um qui seminat inter fratres discordias. Prov. ibid.
29. Audisti verbum adversus proximum tuum; commoriatur in te. Eccli. 19, 10.
30. Omnia ergo quaecumque vultis ut faciant vo-bis homines, et vos facite illis. Matth. 7, 12.
31. D ea re quae te non molestat, ne certeris. Ec-cli. 11. 9.
32. Charitas patiens est. I. Cor. 13, 4.
33. Alter alterius onera portate. Gal. 6, 2.

(A verdadeira esposa de Jesus Cristo, volume II, por Santo Afonso Maria de Ligório)

PS: Grifos meus.
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