quinta-feira, 15 de julho de 2010

III. OS ÚLTIMOS COLÓQUIOS

III. OS ÚLTIMOS COLÓQUIOS


A partida de Judas é, portanto, um alívio. Eis já mais de um ano que Jesus vive ao lado daquele a quem Lhe sucederá, num dia de tortura íntima, chamar de demônio.

Eu vos escolhi a todos, dirá Ele, e todavia um de vós é um demônio (Jo 6, 71).

Certo, ninguém estava mais avisado do que Judas... O endurecimento do pecador é um doloroso mistério.

Jesus atravessa ainda o mundo ladeando os traidores e os pecadores. Na mesma família, à mesma mesa, no mesmo lar, quando Ele passa invisível e bom, toma um e deixa o outro (Lc 17, 34). Estas misteriosas eleições são fundadas na graça, a verdadeira vida das nossas almas. Elas são ao mesmo passo terríveis e consoladoras: terríveis, porque não as vemos e porque a vida exterior não muda com elas; consoladoras porque, no abandono e no desprezo habituais em que vivem os justos, têm estes onde se repousarem. O verdadeiro vínculo das famílias, o verdadeiro sangue de uma raça é a Graça de Deus...

Aquele que cumpre a Vontade de meu Pai do Céu, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe, dizia Jesus (Mat 12, 50).

A última eleição de Deus separará para sempre irmãos e irmãs, filhos, esposos e esposas, porque uns serão achados com a Graça na mão, qual lâmpada vigilante, e outros terão apenas uma luz apagada.

Quantos, que parece se amarem eternamente neste mundo, já não estão marcados com o sinete dessa terrível separação!
É mister ver tudo à luz que irradia do nosso fim último.

Entretanto, desde que Judas saiu Jesus já não é o mesmo.

Ele que se calava, oprimido pela pesada presença do traidor, fala agora, conversa, faz-se familiar e terno, tem uma palavra para cada um de Seus caros filhinhos: fala a Simão Pedro, responde a Filipe, interroga Tadeu, inquire Tomé.

Eu já não estou por muito tempo convosco. Acaso alguma coisa vos faltou quando Eu vos enviava pelos caminhos a anunciardes a Boa Nova? Pergunta a todos.

Oh, não, Senhor!

Pois bem, tranqüilizai-vos; se Eu me vou, se pareço faltar-vos, não vos deixarei órfãos: aliás, Eu virei buscar-vos mais tarde, quando vos tiver preparado um lugar lá em cima, junto a meu Pai... um momento mais e já não me vereis.

Que diz Ele? Murmuram os Apóstolos... Um momento mais... que quer dizer isto? Onde ides, Senhor? Mostrai-nos Vosso Pai, e isto nos basta.

E as perguntas chovem, eles não compreendem, não entendem nada: Jesus não se agasta. No capítulo da ternura Ele jamais acabou, e prossegue meigamente:

É agora que Eu vou vos dar um preceito inteiramente novo. Ei-lo: Amai-vos muito uns aos outros, sempre, em toda parte... Amai, amai.

Sim, isto era completamente novo... O pecado trouxera o ódio à terra.
Quem vive habitualmente no pecado torna-se mau, duro, cruel.

O que não pôde suportar o jugo de Deus impacienta-se com qualquer outro.

“Amai-vos”, era este um termo novo! Quando virdes o mal diante de vós... em lugar de lhe contrapordes outro mal, contraponde um bem.

Desta sorte, é próprio da caridade ser sempre “nova”, isto é, algo que não se esperava no caso, alguma coisa de extraordinário, de elevado, de desconhecido. Fazer bem aos que nos fazem mal, coisa nova, inesperada: a caridade.

Orar pelos próprios perseguidores, coisa nova: a caridade.

Saudar os inimigos, obsequiar os ingratos, esquecer as injúrias, sorrir aos que nos melindraram, ser paciente ante os violentos, submisso aos orgulhosos, vencer por toda parte o mal com o bem! Coisa nova em verdade: é a divina caridade.

Nasceu ela naquela noite, no Cenáculo, entre o lava-pés, a instituição da Eucaristia, o sacrilégio de Judas, a traição deste e o seu beijo, entre a fidelidade jurada de Simão Pedro e a sua negação, os juramentos de amor dos discípulos e a sua fuga no horto das oliveiras.

O seu primeiro gesto foi curar Malcus ferido e a sangrar, o qual vinha para acorrentar Jesus. A sua primeira palavra foi a Judas: Ad quid venist? Amigo, que vindes fazer?

A sua grande ação foi a Paixão.

Não tem ela outro gesto, outra palavra, outra ação. E assim se reproduzirá até o fim dos tempos.

Não nos devemos pois admirar de que a gente do mundo não compreenda a caridade, a verdadeira, a que, ligada à fé, só se pratica sob forma de batalha e de vitória sobre nós mesmos: a verdadeira, a que é imprevista, esquisita às vezes, mas sempre “nova”; têm-lhe os mundanos a paródia numa vaga filantropia que lhes custa pouco e lhes atrai o louvor de outrem; no final das contas lucram eles mais do que fazem lucrar. Ocultemos a nossa caridade para que ela seja toda para os olhos de Deus, que não deixa nada sem recompensa.

O tempo passava rápido naqueles supremos colóquios.
Jesus levantou-se.

Sufficit. Basta, diz, vamos. Recitou-se o Hallel sagrado o hino de ação de graças e o pequeno bando saiu do Cenáculo.

Ia já alta a noite.

Jesus e os Seus embrenharam-se pelas ruas tortuosas que vão ter à porta Figulina, abaixo do monte Sião. O Mestre sabia e em que doloroso aparato! Que dentro de algumas horas tornaria a passar por aquelas vias estreitas, escabrosas, semeadas de cacos de potes e de pedaços de ânforas porque naquela porta faziam ponto ordinariamente os oleiros. Em torno dEle era o silêncio.

De longe em longe, ao longo das casas, podiam-se talvez ouvir ainda os derradeiros cantos do Hallel, no término da refeição pascal.

As luzes apagavam-se uma a uma.

E não tardou que o grupo comovido descesse pela encosta abrupta do Ofel que leva ao fundo do vale de Josafat, passando na ponte de pedra sobre o Cedron, em frente ao túmulo de Absalão.

Do outro lado, o jardim das oliveiras escalonava as suas folhagens, silenciosamente alumiadas pelos clarões da lua cheia.

Por sobre as encostas rochosas do Ofel estendiam-se aqui e acolá algumas vinhas.
O Mestre parou, mostrou sem dúvida os ramos talhados e podados, e disse:

Eu sou a vinha, e vós, vós sois os ramos; para conservar a seiva é preciso que os ramos fiquem unidos à vinha; ficai unidos a Mim. Contudo, vede como os podam, é para os fazer produzirem. Assim sereis talhados, cortados por meu Pai Celestial para produzirdes mais... E acrescentava tristemente, como para mostrar o efeito das Suas palavras: Esta noite mesmo ferirão o Pastor; vós, as ovelhas, sereis dispersados, e me abandonareis.

Não eu, exclama Pedro, escandalizado.
Tu, Pedro, por primeiro, três vezes me negarás antes que o galo cante duas.

É sabido que nas noites orientais, com uma precisão quase matemática, o galo canta uma primeira vez pela meia noite, e uma segunda entre a duas e três horas da madrugada.

Jesus ouve já, quer o galo que canta, quer Pedro que renega. Ouve mais longe ainda: vê-me a mim, que O traí pelas minhas recaídas no pecado, depois dos meus protestos reiterados e juramentos de amor.

Esta visão não O detém. Mas Ele já sabe que gota de Sangue vai derramar, que lágrima vai verter por mim...

Antes de chegar à ponte, o vale do Cedron contrai-se subitamente, e o fundo da torrente, tragicamente entenebrecido pela noite e pelos galhos de cedros negros e frondosos, mal se advinha por sob aquele emaranhado cerrado e lúgubre. Em volta dos túmulos e nas árvores alguns vôos assustados de pombas, pois elas freqüentavam gostosamente aqueles lugares desertos e era ali que as vinham apanhar para os sacrifícios.

A ponto de transpor a torrente onde fluía tênue filete d’água, avermelhado pelo sangue do sacrifício que se extravasava naquele leito selvagem por condutos subterrâneos vindos do rochedo de Moriah, Jesus pára.
Sabe que vai entrar na hora das trevas. Desde que transpuser aquela torrente, estará de algum modo aparentemente extinta a Sua Divindade radiosa e potente.

Alguns instantes restam-Lhe ainda a ser Ele próprio, belo, grande, meigo, terno para com os Seus, podendo falar como Mestre, podendo erguer os olhos ao alto para Seu Pai; após o que, pertencerá à Justiça Divina.
Pára então, e esse derradeiro momento consagra-o a uma prece por aqueles que tanto amou.

Prece alguma se afigura mais tocante, mais trágica ao mesmo tempo e mais comovente, em semelhante cenário, no meio daquele grupo cerrado, ansioso, já espavorido, dos Onze.

E Ele, de pé, Ele Jesus, elevando as mãos ao Céu, a Sua grande silhueta branca a se alçar assim na sombra da noite, dos Seus lábios que o traidor vai oscular dentro em pouco brotam meigas e palpitantes, as últimas súplicas de Seu amor:

“Pai, diz, eis a minha hora; Eu Vos peço por eles: por eles que Vós me destes...

Pai, guardai-os Vós mesmo! Quando Eu estava com eles, era Eu que os guardava, mas agora Eu me vou.

Não Vos peço que os tireis do mundo: não, porém guardai-os, salvai-os.

Pai, Eu peço não só por eles, mas por todos os que crerem após eles, por eles.
Meu Pai, Eu quero que todos estes estejam comigo. Pai, lembrai-Vos de que eles Vos conheceram e me amaram.

Meu Pai, Pai Justo, Pai Santo, eis aqui o meu último desejo:

Amai-os como Vós me amastes, e fique Eu eternamente neles”.

Jesus calou-se. Transpôs então a torrente do Cedron. Entrava na Sua Paixão.

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(Segunda parte do livro “A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.
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